December 15, 2017

 

No passado fim-de-semana, o Manchester City goleou, no seu reduto, o Liverpool, com cinco golos sem resposta. Um jogo irremediavelmente marcado pela expulsão de Sadio Mané, à passagem dos 36 minutos, que levou o guarda-redes dos azuis, Ederson, para o hospital. Não há grande história depois dos citizens terem passado a jogar em superioridade numérica, sendo que o avolumar do marcador foi uma mera formalidade. Até à expulsão, porém, foi um grande jogo de futebol, especialmente para os apreciadores da componente tática. Sendo assim, ficam abaixo dez conclusões acerca do embate principal da última jornada da Premier League.

 

1 – A defesa do Liverpool é uma casa a arder: Não poderia ser outra esta primeira conclusão. Na verdade, não se pode esperar muito mais quando os intervenientes são Mignolet, Arnold, Matip, Klavan e Moreno. Descoordenados, indisciplinados taticamente e com uma qualidade técnica a roçar a mediocridade. Mesmo com a ausência de Clyne (talvez o único defesa do plantel acima da média), não há desculpas para tantas facilidades concedidas, seja qual for o oponente. E quando o oponente tem armas como Agüero ou de Bruyne, é claro que as debilidades ficam ainda mais desnudas.

 

Cada um por si. Era uma boa definição para esta defesa dos reds. No lance que origina o primeiro golo da partida, é notória a desconcentração de Klavan, que se deixa ficar com Agüero em vez de ajustar com a restante linha. Deus perdoa, Kun não.

 

Outra vez Klavan. Desta feita, o estónio falha um gesto técnico básico, sucumbindo à pressão de Gabriel. Não deu golo por mero acaso.

 

2 – Quem é Alexander-Arnold? É verdade que Clyne está indisponível, mas a alternativa não pode ser, pelo menos para já, o internacional sub-21 inglês. Dá a ideia até que está a ser queimado em lume brando, o que é uma pena. Fisicamente e tecnicamente apresenta algumas qualidades, mas ao nível da maturidade está a anos-luz do que se exige a um candidato ao título. Sempre que de Bruyne caiu no seu raio de ação, Arnold foi completamente amassado, como nesta imagem, em que, num lance de construção aparentemente inofensivo, perde a bola para o belga em zona proibida. Por pouco não foi penálti.

 

 

 

3 – Falta um médio de topo a este Liverpool: Apesar da qualidade comprovada de Jordan Henderson e da boa forma apresentada por Can neste início de temporada, o que deixa antever grandes sucessos futuros para o médio alemão, o que é certo é que faz falta ao Liverpool, em especial nos momentos de organização ofensiva, um médio com outras características que não a capacidade de choque, condução de bola em progressão e potência física. Em suma, faz falta aquilo que, nos outros candidatos ao título, há, com Ramsey, Cesc, Silva ou Eriksen: criatividade e capacidade de invadir o espaço intersectorial do adversário através do passe ou da condução. Porque não chegaste já Naby Keita? ☹

 

4 – A contratação de Salah não foi, de todo, desnecessária: Havia já Coutinho, Firmino, Lallana ou Mané para o ataque, mas fazia falta à turma de Klopp um elemento com o repentismo e velocidade em drible que o egípcio oferta, fazendo assim uma parelha de “motas” temível com Mané, e tornando as transições ofensivas do Liverpool ainda mais ameaçadoras. Neste jogo, foi o único a remar contra a maré, com algumas arrancadas ao seu estilo. Mas…

 

5 – Coutinho faz muita falta: O timoneiro da maior equipa da cidade dos Beatles deve ter respirado de alívio com a manutenção do brasileiro no plantel. Não há ninguém com o starpower do ex-Inter de Milão na equipa. Ninguém com a sua criatividade. Ninguém com o seu génio. Com Philippe, o golo pode surgir a qualquer momento, com um passe a rasgar, um tiraço de fora de área, uma arrancada em que finta três ou quatro colegas de profissão de uma assentada. Coutinho é o plus que aproxima o Liverpool do ceptro que lhe foge há quase trinta anos.

 

6 – Quem tem Kevin de Bruyne…: O médio goleador belga até fez um jogo sem grandes destaques, mas quando apareceu, apareceu para resolver. Do nada, saca um golo ou uma assistência com a sua capacidade de remate e visão de jogo. Aproveitou uma desatenção momentânea de Klavan, e logo colocou Agüero na cara de Mignolet. Deambula por toda a área atacante da equipa, contribui para a posse a toda a largura da equipa de Pep, aparece em zonas de finalização, é capaz de desequilibrar no um contra um e taticamente é sempre extremamente efetivo e responsável. Um médio total.

 

7 – Ederson é já hoje um dos melhores guarda-redes do mundo: Para os que anteviam incapacidade do brasileiro em se adaptar no imediato a um campeonato de primeira água, Ederson, no primeiro grande teste, (enquanto Mané deixou) fez uma exibição à guarda-redes de topo: sem dar muito nas vistas, mas a resolver com grande frieza e competência as situações de aperto. Fica na retina a sua já reconhecida leitura de jogo e “coragem” a sair dos postes, e uma grande parada a um remate de Salah, numa situação em que o ex-Roma não costuma perdoar.

 

8 – Gabriel Jesus é já hoje um avançado de topo: Mais dois golos para a conta pessoal do menino brasileiro, mas não é apenas de golos que vive o antigo jogador do Palmeiras: é muito forte nos apoios frontais, tem mobilidade para aparecer em qualquer zona do ataque, possui uma técnica invulgar com ambos os pés, embora, naturalmente, sobressaia a mestria com que se movimenta na área, aparecendo normalmente no sítio certo para “encostar”. Entrou com a corda toda em janeiro, lesionou-se, e quando se esperava que fosse a sombra de Agüero, Guardiola encontrou espaço para os dois no onze. Para o catalão, há sempre espaço quando há qualidade.

 

9 – Há uma linha que separa Klavan e Matip de Otamendi e Stones: Essa linha é a qualidade com bola e a inteligência tática. Enquanto os primeiros despejaram incontáveis bolas na frente sem critério, à procura da velocidade de Mané e Salah, os segundos nunca jogaram uma bola à sorte, subindo no terreno para provocar os adversários, batendo-os em passe ou em condução e deixando os homens mais adiantados com menos oposição pela frente. Com dois facilitadores deste nível na retaguarda, a juntar à qualidade de Bernardo, Bruyne ou Silva na criação, não admira que seja uma tarefa dificílima roubar a bola a esta equipa. Quanto à inteligência tática, embora os centrais azuis por vezes também tenham os seus momentos de desconcentração, tal não se compara à já analisada acima displicência e falta de categoria de todo o setor defensivo dos reds.

 

Um dos muitos balões sem nexo de Klavan durante toda a partida.

 

 

10 – Os dois coletivos anularam-se: Pode parecer inconsciente afirmar tal coisa quando o resultado foi tão desnivelado, mas, até à exclusão de Mané, o que se vislumbrou foi um jogo equilibrado, em que apenas erros técnicos (em maior número do Liverpool, principalmente da sua linha defensiva) ditaram situações de perigo para as balizas. Nem o Manchester City conseguiu aplicar o seu jogo de posição e posse de bola exacerbada, nem o Liverpool se cingiu aos momentos de transição para criar situações de golo. Mérito para os treinadores. Contudo, num dos poucos erros táticos pré-expulsão, em que Klavan não acompanhou a restante linha defensiva, golo. A este nível não se perdoa.

 

11 – Esta não é bem uma verdade, mas é imperativo perguntar: David, man, o que fizeste ao cabelo?

 

Onde é que o Zabaleta foi buscar estes pezinhos? Ah, não, espera, é o Silva de cabelo rapado…

 

João Mendes

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