December 7, 2019

Um dos pormenores que mais me fascina no mundo do poker são os cavalos. Sim, cavalos.

Um “cavalo” é, em poucas palavras, um jogador treinado e patrocinado por outro jogador, um investidor, para jogar em certos torneios.

Mas vamos por partes:

Um torneio de poker funciona de forma simples:  suponhamos que 100 jogadores pagam o valor de entrada num torneio (por exemplo 100 euros cada) criando um prémio total de 10,000 euros. O torneio começa com esses 100 jogadores e os prémios são repartidos entre os lugares de topo, (geralmente os 15% do topo), neste caso os 15 melhores classificados, sendo que o 1º lugar leva a maior fatia do bolo. Rondaria os 25.000 euros neste exemplo. Os restantes 85 jogadores perderiam as fichas antes de atingirem uma posição premiada.

Agora vamos imaginar que o valor de entrada no torneio são 10,000euros em vez de 100. O prémio total de 1,000,000 euros é muito mais agradável mas o risco é bem maior. Muitos jogadores, mesmo profissionais, não estão à vontade para jogar com tamanha quantia nem têem liquidez para tal investimento apesar de terem a confiança e a perícia necessária para superar a competição.

É aqui que entra o conceito de backer (banqueiro, investidor) que compra a entrada do jogador (ou uma porção da entrada) em troco de uma percentagem dos prémios no final do torneio.

O backer é alguém com a capacidade financeira para investir em vários jogadores no mesmo torneio podendo ele mesmo não participar do torneio. Muitos jogadores tornaram-se eles próprios backers de outros jogadores para garantir mais chances de lucros caso eles sejam eliminados antes.

Mas o conceito de backer é ainda mais complexo que isso e exige um compromisso maior que apenas um torneio. Um backer possui um estábulo de vários jogadores/cavalos que competem em vários torneios de níveis diferentes durante uma ou mais temporadas. São jogadores treinados e acompanhados para garantir uma performance regular e melhorada.

Os backers são verdadeiros investidores que financiam e treinam um portfolio de jogadores, o seu estábulo de poker. Os backers podem ter origens diversas, desde jogadores como o  Jason Mercier que apadrinha outros jogadores e os treina (um dos seus cavalos mais conhecidos, Danny O’Brien, é hoje um jogador de renome)a ex-corretores da bolsa de Wall Street que gerem os seus cavalos como acções ou simplesmente milionários que compensam a falta de perícia com a profundidade da carteira.

A venda de “acção” nos torneios  e a existência de cavalos sempre existiu no poker moderno. Talvez o cavalo mais conhecido seja Stu Ungar, considerado por muitos o melhor jogador de sempre e vencedor da World Series of Poker em 1980 e 81. Incapaz de lidar com o sucesso de duas vitórias inéditas, caiu em desgraça  e após anos de luta contra a dependência e sem quaisquer recursos, voltou a participar no World Series of Poker de 1997 através do backer Billy Baxter. O “Comeback Kid” tornou-se então talvez o cavalo mais valioso de sempre ao ganhar o terceiro título de campeão do WSOP e render ao seu backer $500,000 para um investimento de $10,000.

Mas não são apenas negócios. Estes acordos fazem parte da comunidade de poker e unem os jogadores numa estrutura informal que é difícil perceber de fora. A informalidade de alguns destes acordos fazem com que seja difícil um estudo sério sobre o seu impacto nos torneios nem perceber a quantidade de cavalos em cada torneio de poker mas não restam dúvidas que é uma prática comum independemente dos valores.

Enquanto houver jogadores em desenvolvimento e jogadores à procura de investimento haverão cavalos a correr em torneios de poker.

Miguel Barradas

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