December 8, 2019

 

O Porto está em crise. Os sucessivos maus resultados espelham que há problemas no dragão. Problemas que se explicam, na sua génese, pela falta de confiança. Confiança que desapareceu da invicta após a primeira época de Lopetegui. Desde aí até à saída do espanhol, passando pelas entradas de José Peseiro e Nuno Espírito Santo, o Porto tem tido inúmeras dificuldades em ser regular. Esta época, a inconstância no jogo portista tem sido ainda mais premente. A equipa é capaz de subjugar o líder do campeonato e empatar, poucas semanas depois, com os Belenenses desta vida.

 

Nuno Espírito Santo, o treinador, é, para muitos, o principal culpado desta oscilação. Mas o antigo timoneiro do Valência não parece ser o único, nem sequer o principal, carrasco da situação em que se encontra o Porto atualmente. O problema do Porto começou logo na pré-época, na formação do plantel.

 

O clube tem nos seus quadros muita qualidade. Entre muitos emprestados, e muitos milhões gastos, estão Aboubakar, Quintero, Ricardo Pereira, Josué e Bueno. Seriam titulares neste Porto? Talvez não, mas seriam, com certeza, opções válidas para saltar do banco, quando o jogo necessitasse de criatividade e golo. Um dos principais rivais dos dragões, o Benfica, é o exemplo de como a constituição do plantel é o primeiro passo para almejar a vitória, e por conseguinte, a regularidade. Ao contrário do que se diz, o Benfica não tem elementos assim tão superiores aos do Porto. Pelo menos, antes da época iniciar.

 

No Porto atual, jogadores como Gonçalo Guedes, Cervi ou André Horta possivelmente não calçavam, ou nem sequer fariam parte do plantel. Não são jogadores no auge da carreira, percebe-se que ainda lhes falta anos para chegarem ao topo, mas foi-lhes depositada confiança. E esse depósito de confiança é um dos grandes méritos, senão o maior, de Rui Vitória e do Benfica. Dar confiança a qualquer jogador, a ideia de que qualquer um do plantel pode ser titular, e depois esperar pela retribuição do mesmo em campo.

 

No Benfica, são os jogadores que complementam o modelo de jogo. No Porto, não. São os jogadores que individualmente têm de estar bem para a locomotiva andar. E aqui não é Nuno Espírito Santo o principal culpado. Não lhe foi dada a hipótese de treinar com todos, de escolher o plantel a seu bel-prazer. Hoje, o Porto são 11 e pouco mais. E os que entram normalmente estão uns furos bem abaixo dos habituais titulares. O ponta-de-lança Depoitre espelha por inteiro este paradigma: o belga, com poucos minutos de utilização, é já crucificado e apelidado de flop. Nuno poderia dar-lhe mais tempo de jogo, é certo, mas a obsessão dos portistas por André Silva é desmedida. O jovem avançado é indubitavelmente um bom jogador mas não está a produzir, no momento, o que se exige a um matador de equipa grande. A aposta em Depoitre e consequente ida de André para o banco seria o indicado a fazer.

 

No Benfica, Gonçalo Guedes iniciou a época passada a todo gás mas aos poucos foi perdendo fôlego. E sentou. Deixou de fazer parte das opções iniciais e, esta temporada, voltou em força. Não foi dispensado na pré-época porque treinador e estrutura entenderam que há picos de confiança que devem ser respeitados. No Porto isso não acontece. E por muitos desenhos e explicações que haja, por muito bode expiatório que se tente encontrar, no Porto urge estabilidade. O futebol não é uma ciência assim tão grande: quem joga são os jogadores. E estes precisam de confiança para jogar.

 

Pedro Manuel Magalhães

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