June 19, 2018

 

16 de outubro de 1985 “Batalha de Estugarda”, como disse o magriço José Torres “Deixem-me sonhar”, Portugal precisava de ganhar à toda poderosa RFA e a Checoslováquia tinha de perder na Suécia para garantirmos o apuramento para o Mundial do México. Parecia uma missão impossível, aqui começa a história que vos vou contar…


A Selecção portuguesa em 85

 

Fim de Verão, ano de 1988, comecei a ouvir falar de um nome marcante, um senhor de bigode, ideologista de esquerda trabalhista, sim esse que bateu essa poderosa Alemanha e que fez um golo que gelou Estugarda, o seu nome é Carlos Manuel.

 

 

Homem da Moita, orgulhosamente defensor do seu território a sul da ponte 25 de Abril. Ainda não vos contei mas o meu nome é Ivo Gonçalves, sou benfiquista, serei sempre, não foi uma escolha partidária como aquelas que fazemos quando já temos as ideias bem definidas, ou uma escolha numa loja de roupa, quando optamos por uma camisa vermelha ao invés de uma azul ou verde, mas foi algo intrínseco algo que vem de berço, como disse Mário Wilson “É qualquer coisa de brilhante, apaixonante, que vocês não tiveram oportunidade de sentir”, e talvez seja por causa de Carlos Manuel que sou benfiquista, não sei bem se por ele, se por toda a envolvência familiar, até estou confuso, mas isso é o menos importante. Sempre ouvi um dos meus irmãos a contar como tinha sido o golo de Estugarda, quando depois de uma finta para dentro o remate poderoso a trinta metros entrou no ângulo superior direito e bateu o gigante alemão Schumacher, talvez tenha sido por isso, o que interessa é que sou um orgulhoso benfiquista.


Os Magriços

 

Continuando esta história, desde  o tempo dos magriços de Eusébio, Coluna, Simões, Cavem, Zé Gato, Torres que não estávamos num mundial (1966), lembro-me de me contarem que mudaram o local do jogo à ultima da hora e que o cansaço nos fez perder aquela meia-final contra a equipa do agora Sir Bobby Charlton, as sensações mais próximas disso, tinham-se sentido em 1984 (França), e quando se fala no europeu de 84, inevitavelmente falamos de Benfica ou de Shéu, Diamantino, Chalana, Manuel Bento e Carlos Manuel. Não estava cá, não sei, não senti, mas é como tivesse sentido, fazendo um paralelismo, sabem quando somos pequenos e nos contam uma história antes de dormir, por vezes pensamos que estamos a vivê-la, é como me sinto ao falar destes momentos, com uma nostalgia indescritível, o que acaba por ser estranho, porque não o vivi, só mais tarde o vi em vídeo.

 

Ouvi histórias do meu pai, que contava que ia para um café ouvir o Mundial de 66 na rádio, lembro-me também do meu pai e irmãos me contarem que no Europeu de 1984 houve jogo em Marselha contra a França de Tigana e Platini, onde os rasgos de Chalana foram tão brilhantes como qualquer traço num quadro de Picasso (Calma! Não és o Luís Freitas Lobo, lá está a nostalgia que vos falava), se pagam milhões por uns riscos de Picasso, deviam fazê-lo para ver aquela cavalgada do ambidestro pequeno genial.

 


Seguiu-se o México 86 que não nos traz boas recordações, salve-se o golo de Maradona à Inglaterra de Sir Booby Robson, a quem até ganhámos na fase de grupos.

 

 

Este Mundial é princípio do declínio desta geração, e só nos vem uma palavra à cabeça: Saltillo, com isto o melhor é mudar a página.


Maradona no Itália 90

 

Falhámos o mítico Itália 90 devido ao declínio da geração de 1986, esse grande Mundial onde vimos numa meia-final disputada no San Paolo, os napolitanos apoiaram Maradona contra a própria Selecção…

 

 

onde vimos Roger Mila a ser o jogador mais velhos de todos os tempos a jogar num Mundial…

 

 

onde vimos numa tarde de calor em Turim, Branco beber água com laxante…

 

 

onde vimos a Argentina de Maradona ganhar ao Brasil de Mozer, Ricardo Gomes, Bebeto e Romário com um golo de Caniggia…

 

 

e onde vimos, acabar como muitas vezes se diz na gíria, “onze contra onze e no fim ganha a Alemanha”, sem a magia que gostamos no futebol, valha-nos Lothar Matthaus, Jurgen Klismann ou Rudi Voller, que dirigidos por Beckenbauer bateram a poderosa Argentina de Maradona no Olímpico de Roma.


Dinamarca, a vencedora surpresa do Euro 92

 

Voltámos a falhar em 92 na Suécia. A vitória foi da vizinha Dinamarca, órfã de Michael Laudrup, a grande estrela, mas com Brian Laudrup e Peter Schmeichel. Curiosidade: A Dinamarca não tinha sido apurada, mas devido à ausência da Jugoslávia, que se encontrava em plena guerra civil, acabou por participar e vencer.

 


Após esse Europeu surge depois a nova geração, a era de Futre e de uns miúdos que tinham ganho dois Mundiais de sub-20, em Riade e em Lisboa, comandados por um professor que reformulou a estrutura do nosso futebol na altura, Carlos Queiroz,  e que, goste-se ou não, foi parte importante no desenvolvimento desta geração.

 

O escrete campeão do mundo em 1994

 

Voltamos a falhar em 94, valha-nos Romário, Raí, Dunga Mauro Silva, Bebeto ou Taffarel, porque quando não participamos, acabamos sempre por ser um pouco brasileiros. Ficou na memória o confronto, debaixo de um tórrido calor na Califórnia, entre dois históricos do futebol mundial, que para sempre deixou a mítica frase de Galvão Bueno “Saí que é sua Taffarel”.

 

 

No fim ganhou o Brasil contra a Itália de Arrigo Sacchi, Maldini, Baresi e Baggio.


A Selecção nacional no Euro 96

 

Voltámos em 96 em terras de Sua Majestade, como diria Gabriel Alves, sobre o comando do génio como jogador António Oliveira, e com aquele equipamento “Olympic”, com a geração de ouro, aí sim, já sem Futre devido a lesão, mas com Figo, Rui Costa, João Pinto, Dimas, Paneira, e aquele que para mim foi o melhor 6 de sempre do futebol português, “Il Rigista”, Paulo Sousa, mas caímos aos pés da incrível República Checa com um golo de Karel Poborsky.

 

 

Um toque de génio a uma saída de Vítor Baía, que, de facto, nunca foi muito bom a sair entre os postes, mas reconheço-lhe o seu valor, apesar de ser benfiquista, não tenho o complexo de admitir o valor dos meus adversários, para mim foi o melhor guarda-redes do futebol português. Há quem defenda que foi Bento, Damas ou até Zé Gato, mas para mim foi Baía, não tenho dúvidas. Acabámos por sair com glória, mas com um gostinho amargo de boca.

 

Em cima da esquerda para a direita: Fernando Couto Vítor Baía e Rui Costa. Em Baixo também da esquerda para a direita: Paulo Sousa e João Vieira Pinto

 

Lisboa 1997, depois de tantos anos de ausência todos pensámos que estaríamos presentes no Mundial de 98, mas um senhor de nome Marc Batta não nos deixou, quando falo nesse senhor só me lembro de uma música de Eros Ramazotti, aí vocês perguntam onde estão relacionados um francês e um italiano, e eu respondo simplesmente Rui Costa, menino da Luz, Príncipe de Florença ou Rei de Milão.

 

 

Ai, Milão! Cronologicamente começo a ficar perdido a escrever este texto, desculpem, mas Milão faz-me lembrar Maldini, Baresi, Costa Curta, Albertini, ou os holandeses [Van Basten, Ruud Gullit e Frank Rijkaard], tenho de parar. Arrigo Sacchi que tanta falta fazes ao Calcio…

 

 

Incrível! Nesse tempo este miúdo que era um desconhecido em Florença, mas já era ídolo do terceiro anel, os italianos só o tinham visto e ouvido o relato na Rai de um italiano que disse “-Belíssimo, Belíssimo Ruiii Costa” depois de um belíssimo jogo contra o Parma nessa noite de Taça das Taças. Rui Costa fez uma incrível carreira, um pouco ou tanto romântica, como já não existem nos dias de hoje, fez dupla com o meu avançado preferido de sempre, Gabriel Batitusta. Foi príncipe que davas recitais de maestro como se estivesses a dirigir uma orquestra que toca Schubert no encanto da cidade de Florença , com passes a cinquenta e sessenta metros para serem finalizados com a beleza e a frieza das paragens que ouvimos no tango argentino.

 

O XI do Brasil em 98

 

Estamos em 1998, França, aquele Mundial que falhámos, onde a Croácia de Suker, Boban ou Bilic espalhou futebol total, deixem-me também falar da belíssima Itália e da incrível Holanda, que cai ao pés daquele que é, para mim, o melhor Brasil que vi jogar, Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, Edmundo “O animal”, Bebeto, Denilson entre outros, normalmente as melhores equipas nunca ganham, tal como o Brasil de Sócrates, Zico e Rivelino em 1982, ganhou a desconhecida França de Zidane, Henry, Trezeguet, Petit, que geração!


Portugal no Euro 2000

 

Depois de um apuramento imaculado voltamos a estar presentes num Europeu. Holanda e Bélgica receberam-nos de braços abertos, receberam também a maturidade da geração de ouro, sobre o comando do central histórico do meu Benfica, Humberto Coelho. Começo por falar do primeiro jogo, onde nos vimos a perder por 2-0 com a Inglaterra, e depois de um golo fantástico de Luís Figo demos a volta ao jogo com golos de João Pinto, sem clube depois de Vale e Azevedo o ter dispensado, e Nuno Gomes, que jogava esse jogo devido à lesão de Sá Pinto, e a partir daí nunca mais largou o lugar.

 

 

Seguiu-se a Roménia de Popescu e Hadgi a quem ganhámos com um golo do, até então, desconhecido Costinha, selando o apuramento. Na última jornada defrontámos a Alemanha com segundas escolhas e o irreverente Sérgio Conceição marcou um hattrick, deixando-nos no primeiro lugar do grupo, e selando o fim de uma grande geração do futebol alemão. Seguiu-se a Turquia de Hakan Sukur nos quartos de final, a quem ganhámos com um bis de Nuno Gomes.

 

Vou terminar esta crónica com a dramática meia-final de 2000, num jogo que foi, para mim, o primeiro grande desgosto em termos futebolísticos. Entrámos em campo cheios de esperança contra a campeã do Mundo, a França, até começámos a ganhar com um golo de Nuno Gomes, mas acabámos por cair aos pés de um penalti marcado por Zidane no prolongamento com golo de ouro. Que injustiça! Acho que todos nos sentimos injustiçados, aqui morreu um pouco a magia do futebol para mim, desse futebol total, com estrelas em todas as equipas e sem egocentrismos.

 

Na segunda parte desta crónica temporal vou passar-vos a minha visão de outras grandes competições passadas depois do Euro 2000.

 

Ivo Monteiro

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