December 14, 2019

 

Será Rui Vitória o treinador menos estético e mais eficaz dos últimos 30 anos do Futebol Nacional? Eis o retrato rápido, letal e fiel q.b. do obreiro de um dos melhores períodos do clube fundado por Cosme Damião. Se tudo correr como… correr, o SL Benfica sagrar-se-á Campeão Nacional já amanhã. Ao colinho, de fininho, por um bocadinho ou como quem vai ali apanhar solzinho, será o 36º título para os Encarnados. Desde os anos 60 que o Benfica não experimentava tal hegemonia, quando se sagrou campeão Nacional por 6 vezes (não consecutivas) e conquistou por 2 vezes (consecutivas) o título de Campeão Europeu de Clubes.

 

 

Liderar o Campeonato durante 27 jornadas não parece oferecer campo para discussão. O Benfica pode nem sempre ter jogado melhor, mas jogou o suficiente para não dar hipótese aos perseguidores directos. Com a arrancada prometedora do Sporting, e um início algo titubeante do Porto, o filme do Campeonato poderia remeter àquele que vimos na época passada. Com o aproximar da 2ª volta, o Sporting apagou-se – tal como é costume acontecer às equipas de Jorge Jesus, excepção feita a igual período da já referida época transacta – e o FC Porto começou a rugir com goleadas a murro. Parece não ter chegado, com penáltis discutidos e reclamados pelos três tristes do costume. Citando Octávio Machado, numa tertúlia não esquecida, quando perguntado sobre qual dos 3 clubes seria o mais beneficiado, a resposta espera-se que seja elucidativa para os leitores e leitoras aqui deste estaminé blogueiro que puxa pelo texto desportivo: “Todos chafurdam”. Touché. Se não sabem “do que é que eu estou a falar”, soubessem. Ou melhor, jantassem vocês com o Octávio como nós fizemos…

 

Ora, o sucesso recente e indiscutível de Rui Vitória parece, a nosso ver, ser resultado de vários factores. Vamos partir cada um deles com jeitinho:

 

1) ROTATIVIDADE ‘DAQUI’

 

Não existem os chamados Imprescindíveis de Serviço, algo que no Benfica de há uns anos era absolutamente impensável; com Vitória o estatuto de um jogador parece ser sempre adquirido, jamais atribuído. Este ponto poderá ser rebatido com os ocasos (por explicar pela imprensa de Carnide) de André Horta, Raúl Jiménez ou pelos eclipses de Lisandro López, só para citar de memória alguns casos mais evidentes. O treinador Ribatejano promove a união e a competitividade positiva, sendo relativamente imune a pressões externas/jogadores empurrados por empresários. Claro que já leva uns anos de Benfica e teve de fazer cedências, mas já irão perceber o que está aqui pelo ponto que se segue que começa pelo número…

 

2) SIMPLICIDADE DE CEBOLADA

 

Rui impôs as suas ideias tal como Jesus, ele que tem um backbone mais próximo da formação e do jogador jovem. Com ele, o ‘fantasma’ Maxi (‘Fantasmaxi?’ Err… não!) foi esquecido, o guarda-redes Oblak passou de incrível a “fica lá com isso que temos bem melhor” e, sobretudo, o core da equipa sempre girou em torno de um e do mesmo dople pulmão: Pizzi e Fejsa, dínamos do meio-campo, jogadores que preenchem na perfeição aquilo que Rui Vitória lhes pede… se pensarmos bem, nenhum deles seria titular de uma equipa de meio da tabela em Espanha, mas para os serviços mínimos de Liga NOS chegam e sobram. O Sérvio, p.e., não sabe o que é Não Ser Campeão. Pizzi, desde que assumiu a titularidade do Benfica ‘Vitoriano’, tem sido decisivo época após época. Repetimos de forma pragmática: são bons jogadores que Rui Vitória soube transformar em talento que se desdobra ao serviço do colectivo. Deslocados da filosofia e ideias de Vitória são medianos performers. Nem um nem outro são titulares das respectivas Selecções. Não são campeões das stats. Cumprem apenas o que lhes é pedido. Quem disse que ser um brilhante atleta e ter números incríveis significava o que quer que fosse no Futebol actual?!

 

3) COM ELE NÃO HÁ AVARIAS, HÁ ESTABILIDADE

 

Sai um nababo, entra outro. Não há um beltrano para acolá, chama-se o André Almeida. Pouco dado a desvarios e radicalismos tácticos, Vitória joga hoje como jogava há uns anos, sem segredos, sem poções mágicas nem intérpretes de classe superior. Todos sabem que jogadores vai trocar. Nem todos conseguem adivinhar quando é que Salvio passa 2 jogos seguidos no banco… Destacamos Éderson e Nélson Semedo, sobretudo porque estarão a cumprir os últimos jogos de águia ao peito e têm sido as estrelas mais brilhantes do plantel liderado pelo Xô Vitória. Tirando estes dois e Lindelof, tivemos menos Seixal este ano. O que sublinha que Vitória é de ideias simples, fixas e, até ver, vencedoras: nunca patrocinou a febre da formação, claramente empurrada pela imprensa Vieirista, e sempre soube pautar o seu modus communicandi de forma relativamente discreta. Passa a ideia de perder poucas vezes a cabeça, dando estabilidade e confiança à equipa. A sua mensagem é clara e transmitida sem ruído nem espalhafato. Tirando os casos (imperceptíveis) de Eduardo Salvio e Carrillo, o primeiro titular indiscutível, o segundo suplente ‘de luxo’ pago a peso de ouro, qualquer jogador sente que pode fazer uma pernita no Circo Éderson, Semedo, Fejsa & O Vesgo. Lindelof, após mais um raide falhado da imprensa e dos empresários para ser vendido ao preço do IKEA de Loulé, ficou para conquistar verdadeiramente o seu espaço, mesmo jogando do lado da defesa que menos gosta (ele que começou a lateral-direito na equipa B, tendo inclusivamente ganho uma final de caninas a Portugal pela Suécia a jogar nessa posição). O Sueco fez uma época que lhe garantirá uma transferência simpática e foi decisivo num dos tais jogos, o Sporting x Benfica que mais uma vez deixou os Sportinguistas à beira de um ataque de nervos.

 

4) A EQUIPA SUBIU DE FORMA NOS JOGOS A DOER

 

Neste ponto, Rui Vitória martelou. Quando muitos lhe apontavam medo, receio, “sempre a mesma substituição”, deu a ideia que o treinador do Benfica nem precisou de fazer grande coisa para passar nos ‘testes difíceis’. Nuno Espírito Santo foi jogar à Luz para não perder e Jorge Jesus achou por bem que empatar era simpático. A jogar em casa. Com Bruno de Carvalho a ver e a nação Sportinguista a encher o saco… Passa a ideia que os adversários ganharam um certo respeito – a.k.a. medinho – ao tricampeão Nacional e, mesmo com um futebol certamente mais directozinho (o de Nuno) ou flanqueado e bonitinho (Jesus) não conseguem ‘cair em cima’ do Benfica. Para isto terá também ajudado…

 

A) A teimosia reinante de Jorge Jesus, que aplica hoje os mesmos princípios de há… desde que o conhecemos a falar alto e grosso e do alto do seu espectacular corte de cabelo. Habilita-se claramente o treinador do Sporting a um final de carreira antecipado, sem chama nem glória para os amanhãs que não deverão cantar o seu nome.

 

B) A confirmação de mais uma aposta redondamente falhada de Pinto da Costa, que ou começa definitivamente a arrepiar caminho ou terá de ir pregar para outros baldios, que nos do Dragão nada cresce a não ser um post tótil do Casillas ou tiradas incríveis do Mestre Macaco. Outro nome ‘apareceu’ no seio do Dragão que pelos vistos tem ganho mais visibilidade que o Porto títulos nos últimos 4 anos e pico: Francisco J. Marques. Fixem bem o nome porque daqui a 5mins já se esqueceram… Nuno foi ‘tiro ao lado’, ele que parecia prometer após épocas de sucesso à frente do Rio Ave e de ter conduzido o Valencia à Champions League. Vítor Pereira ainda foi o melhor treinador Português que o Porto teve nos últimos anos (sim, metemos esta frase em negrito, o leitor não está a sonhar). E foi corrido. Ah pois é. Agora fala-se em Marco Silva. Onde estava a lista de prioridades de Pinto da Costa quando se lembrou que Lopetegui ou José Peseiro eram os homens certos para resolver os problemas do Dragão?!

 

 

Em suma, Rui Vitória parece basear o seu sucesso no TRABALHO, TRABALHO e mais TRABALHO. Dirá qualquer seguidor do tristonho Campeonato Nacional que até parece ‘fácil’ fazer o que Rui Vitória tem feito à frente do clube da Luz. Só que talvez não seja assim tão elementar, meus caros Watsons. É que o Benfica teve Guttman. Glória. Baróti, Eriksson e outros tantos. Que tentaram a chapa 4 de canecos e nunca lá chegaram. Com o Ribatejano a coisa anda à volta do trabalho, trabalho e trabalho. E a transpiração diz que compensa, por mais TED Talks que digam o contrário.

 

 

Os próximos anos serão decisivos em termos de Benfica e, em boa verdade porque estamos precisados de um novo boost de rankings da UEFA, em termos de visiblidade do Futebol Português. Somos Campeões Europeus em título, há uma Taça das Confederações para disputar este Verão e o Benfica, com uma estratégia mais virada lá para fora do que cá dentro – mesmo que isso lhe custe uma época longe do Marquês, algo impensável nos tempos que correm… – deve, a nosso ver, meter mais lenha na bonfire da Champions.

 

As questões que se colocam para os próximos Campeonatos parecem ser estas:

 

– Quando é que Luís Filipe Vieira deixa de sangrar meio plantel ano após ano para vender cada vez mais barato – e a valores já assumidos pelo próprio como flat, dependentes de minutos e outras artimanhas contratuais que servem apenas para fazer 24 capas n’A Bola e pouco ou nada adiantam em termos de ajuste de um passivo que é superior ao do Real Madrid, p.e.?

 

– Onde está o jornalismo Desportivo minimamente preocupado em perguntar coisas como “Porque é que o Benfica paga 30M em comissões e o FC Porto 6 e o Sporting 4?!”; daqui poderá surgir outra arma muito perigosa: com o Benfica repetidamente ganhador os Benfiquistas (e não só) serão sujeitos a ainda mais propaganda barata e gratuita powered by A Bola, CMTV e demais comentadores ou blogueiros de vão-de-escada.pt;

 

– Qual será o destino de um tal de Luisão durante a próxima época? E de Júlio César? O plantel do Benfica não se regenera desmantelando-se numa base constante. Do Seixal não nascem Hortas nem Sanches às 2ªs e 5ªs. Terá Rui Vitória pensado no seu Benfica daqui a 5 anos? Terá o Ribatejano outras ambições a curto prazo? Se sim, quais e a que custo ficará mais tempo no Benfica? Jesualdo Ferreira também repetiu Campeonatos Nacionais. E nem no Málaga se deu bem…

 

… e já que estamos nisto…

 

– Benfica + Jorge Mendes = como vai cobrar o empresário a parceria com o clube da Luz? Quantos jogadores da sua carteira vão obrigatoriamente circular pelo 11 do Benfica, sem que qualquer sócio de há 40 anos ou puto de 4 perceba os reais motivos?

 

– Há neste momento condições para se pensar num Benfica pós-Vieira ou os sócios e simpatizantes do clube da Luz já configuraram que o Benfica, desde 1904 até hoje, é Vieira, Rui Costa, Rui Gomes da Silva, Pedro Guerra e depois 11 gajos que jogam à bola?

 

– Por falar em Rui Costa… o que faz realmente Rui Costa na estrutura do clube? Qual a sua contribuição efectiva para o recente sucesso encarnado?

 

– Que resposta darão os rivais – e outros clubes – a uma nova ‘ordem da Luz’ no Campeonato, sendo que o Benfica tem sido, disparado, o clube mais estável e menos oscilante? Cadê o Porto bulletproof dos anos 90 ou o Sporting que tanto prometeu a época passada e esta época pariu um rato?

 

– Continuará o Benfica a acreditar que mais vale um Hugo Gil ou um Pedro Guerra a fazer furor pelo 2.0 do que campanhas deste calibre com muito mais pinta e rasgo criativo?

 

O futuro, esse, parece vermelho e feliz para os lados da Luz. Cabe ao Sporting CP (tentou e falhou até ao fim o ano passado) e ao FC Porto (tentou e já parece fora da corrida este ano) tentarem mudar a estória escrita por esse tal de Rui Vitória.

 

A ANÁLISE AO FUTEBOL PROPRIAMENTE DITO

 

A Cultura de Vitória, por mais incrível que pareça, não é consensual para os lados do Benfica. Ainda há quem diga que o futebol galopante de Jesus “é que era”, que com Koeman “íamos para cima deles no Dragão” ou que “Camacho dava ganas ao plantel”. Pura estupidez. É claro que estes Benficas deram tareias inúmeras no Sporting, vergaram Everton, Tottenham, Juventus em Turim, o Liverpool em Anfield com Beto no miolo ou o FC Porto no Jamor antes da final da Champions. Só que estes Benficas eram piores equipas e, acima de tudo, não tinham a mesma percentagem de sucesso. Poderão os adeptos de futebol considerar esta equipa do Benfica mediana, de futebol aqui e ali ‘simpático’ e pouco mais que isso? Talvez. E ficarão certamente contentes, porque a nota artística fica para quem dá saltos de cabeça e bunda para a piscina a contar para os Olímpicos. O Futebol, esse, quer-se práctico. Que o digam a Hungria. A Itália. A Alemanha. O Brasil de 94, a Espanha de 2010, o Brasil de 2002, a Grécia de 2004, o Brasil de 2006 e etc. Até a Portugal 2016! Ah-ah!

 

E vocês, o que acharam do futebol jogado pelo Benfica esta época? Que equipas mais surpreenderam pela positiva e pela negativa? Qual o melhor jogo deste Campeonato? E o melhor golo? Acham que foi uma Liga NOS bem jogada ou uma pasmaceira pegada? Digam de vossa justiça!

 

Manuel Tinoco de Faria

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