December 7, 2019

Comecei a escrever as minhas primeiras notas sobre o balanço da última semana de futebol americano e o texto não saía. Tinha ideias sobre algumas noções que já podemos conseguir tirar das equipas, comentários engraçados sobre subversão de expectativas e até alguns gifs impressionantes a mostrar a abundância de talento nesta liga – mas não me sentia bem. O texto não saía. Vou tratar disso amanhã. Para já, não me é possível escrever sobre a glória do desporto quando temos esta sombra tão negra por cima das nossas cabeças. Falemos então. Falemos da escuridão necrótica que se esconde por trás das luzes da ribalta. Falemos da patologia sistémica que alguns, tantos, demasiados jogadores da NFL parecem sofrer. Falemos de violência doméstica.

 

Ray Rice, running back dos Baltimore Ravens foi suspenso por tempo indeterminado pela liga (e despedido pela sua equipa) depois de ter emergido um vídeo em que selvaticamente esmurra a namorada (agora mulher – e sim, esse é todo um sintoma da podridão desta cultura que parece não querer morrer) num elevador, deixando-a inconsciente. Greg Hardy, defensive end dos Carolina Panthers, está suspenso pela equipa na sequência de ter sido condenado por agressões verbais e físicas à sua namorada. E Adrien Peterson, running back dos Minnesota Vikings, está, de momento, suspenso internamente enquanto vai a julgamento por ter “disciplinado” o filho – o tipo de disciplina que deixa uma criança com marcas de sangue e vergastadas no corpo.

 

O problema não é de agora. Histórias de violência de atletas da NFL são tristemente comuns e uma simples vistoria por alguns números estatísticos básicos pintam um quadro assustador. Estes dados, do site FiveThirtyEight, mostram, por exemplo, que os números de criminalidade entre jogadores da NFL correspondem a “apenas” 13% da média nacional nos EUA entre homens dos 25 aos 29 anos. O que é perfeitamente natural, dado que a vasta maioria dos crimes são cometidos por pessoas em dificuldades económicas – algo de que os jogadores da NFL estão longe de sofrer. Francamente, estes números deveriam ser ainda inferiores. Mas se olharmos para os índices de violência doméstica, esta percentagem sobe para 55% da média geral. E estes números só reportam os casos em que os jogadores foram apreendidos pelas autoridades.

 

Porque acontece isto? Haverá alguma razão que possa justificar esta barbárie? Sendo que cada caso é um caso e é sempre um pouco absurdo tentar encaixar histórias pessoais numa coluna arrumadinha pronta a consumir pelas nossas desorientadas cabecinhas em procura de ordem no Universo, há algumas razões que podemos apontar para que isto aconteça. Primeiro, e custa-me escrever isto por que me sinto a tentar justificar o injustificável, por vezes sinto que o choque é que não aconteça mais vezes. Quando temos um desporto em que grande parte do trabalho dos treinadores é colocar à flor da pele todos os resquícios de agressividade que cada homem tem dentro de si e colocá-la toda em campo – e juntamos a isso a proliferação de lesões cerebrais – é quase inevitável que muita dessa agressividade transborde para as suas vidas pessoais.

 

Mas isto não conta a história toda. No caso de Adrien Peterson, o que temos aqui é simplesmente uma herança doentia de que é preciso bater uma criança para aprender valores. De que um bom açoite faz parte da disciplina. Não faz. É pura cobardia e facilitismo. É nojento – e o número de pessoas relativamente jovens que ainda acreditam nesse “método” de educação faz-me doer a alma. É incompreensível e medieval.

 

Já os casos de Ray Rice e Greg Hardy são dois gritantes exemplos de uma cultura ainda mais prevalente. A de que as mulheres são posse dos homens e devem manter a boca caladinha e não se atreverem a levantar a crista sob risco de “represálias”. É um abjecto espelho das relações de poder que ainda hoje se mantêm entre tantos homens e mulheres – de como o poderio físico é usado como forma de controlo de género. E não se deixem enganar por este palavreado fino retirado dos livros de Estudos Femininos. Este não é um debate académico. É uma luta diária pintada em vermelho-sangue e roxo-hematoma. O que se passa com estas mulheres que não conseguem parar de cair de escadas e bater com a cara em portas?

 

E chegamos finalmente à razão que me motivou a escrever este texto: estou assustado. Estou assustado porque depois de tudo o que lhe aconteceu, a namorada de Ray Rice tornou-se sua mulher e está agora a criticar a liga por ter “arruinado a carreira do marido”. Estou assustado porque ainda tantos acham que o facto de ela ter continuado com ele é sinal que não se passa nada e nós não temos de “meter a colher” – sim, Paul George, também estou a falar contigo. Estou assustado porque uma legião de mulheres fãs dos Ravens marcharam ao estádio envergando os números de Rice em apoio à sua “estrela”. Estou assustado porque um sem número de fãs deste desporto acham que as punições dadas a estes animais que batem nas mulheres foram “excessivas”. Estou assustado porque todos os dias o Twitter está povoado por adolescentes que defendem o Chris Brown e atacam a Rihanna. Estou assustado porque a Rihanna o perdoou. Acima de tudo, estou assustado porque, enquanto nós debatemos quantos jogos de suspensão devem ser dados a estas bestas, um sem número de mulheres estão a ser esbofeteadas, esmurradas, pontapeadas, mortas. No escurinho das suas casas, bem longe dos holofotes. Todos os dias. Todos os dias. Todos os dias.

 

É verdade que é hipócrita por parte da liga só terem atacado esta questão quando a pressão pública se tornou demasiado intensa? Claro que sim. Mas significa isso que estas punições são excessivas? Longe disso. Por mim deviam ser maiores, mais exemplares. Já basta de esperarmos que a sociedade chegue ao século XXI. Mais vale tarde que nunca e se for preciso arrastar estas poeirentas mentalidades à força para uma cultura de maior respeito e amor pelo próximo, que seja. Mas nada de fazer isto ao soco, ok? Isso é reservado para as mulheres.

 

Pedro Quedas

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