December 13, 2019

Na passada terça-feira, o Benfica perdeu em casa com um adversário que havia despachado tranquilamente ainda há dois ou três anos. Jardel voltou a mostrar que quem nunca soube é como se esquecesse sempre. Artur adicionou mais um momento a um acervo que pairará na memória colectiva (e no YouTube) muito para lá do dia em que deixar Lisboa para assinar um contrato de uma época, por objectivos, com o Al-Shabab. Hoje em dia, lembrar as comparações iniciais com Roberto é revisitar aquela piada sobre a rivalidade entre o Michael Jackson e o Prince (pois foi, no fim ganhou o Prince).

 

Escassas 24 horas depois, a Europa pasmou quando dois jovens empreendedores a viver em Portugal se apresentaram na Eslovénia com um jogo que revolucionará a indústria do lazer: o pinball humano. Nenhum deles é português, pelo que não haverá Prós & Contras sobre o drama dos jovens que têm de ir lá para fora para mostrar o seu valor. E sendo assim, aplaudo: o pechisbeque importado pode custar mais que a prata da casa, mas uma noite sem Fátima Campos Ferreira não tem preço.

 

Tudo isto é triste, tudo isto existe, tudo isto é fado. Será?

 

Parece-me que sim. Como os peixes a quem Medina Carreira pregou, fechámos os olhos aos sinais de que a marabunta ia ter de parar. E agora começamos a bater de frente com a realidade: nenhum clube português tem condições para competir de forma sustentada (sublinho “sustentada”) ao mais alto nível na Europa. Não dá. Money talks, e nós somos dez milhões (e pobres). Mas sobre isto já se disse e escreveu muito.

 

O que me parece mais interessante [se estão perguntar-se se este texto vai a algum lado, segurem-se que é agora, mais ou menos] é a forma como, enquanto adeptos, reagimos a tudo isto. Não é só na existência de um buraco financeiro que o futebol português reflecte Portugal. Reflecte-o ainda mais na reacção do público à existência desse buraco.

 

Alguns (bons) cronistas exploraram já o paralelo entre a nossa reacção colectiva à crise e os cinco estágios do luto: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Ao “talvez a troika não venha” seguiram-se as manifestações mais ou menos violentas, as quais deram depois lugar ao “se A, B e C, já havia dinheiro”, e por aí fora. No futebol, o processo é exactamente o mesmo. Só que, tal como as jornadas decisivas da Taça da Liga, não começa em todo o lado ao mesmo tempo.

 

Se tiverem esta ideia em mente ao ler o que se vai escrevendo nos jornais e na internet sobre o presente e o futuro dos Três Grandes, identificam logo várias ideias típicas de quem está em determinada fase. De momento, a coisa oscila entre a negação, a raiva e a negociação (“se não tivéssemos ido buscar A, se calhar tínhamos dinheiro para B”, etc.), dependendo do clube e do adepto.

 

E o que é que isto tem a ver com a chapelada na Luz e com o Saurricídio do Sporting em Maribor? Simples: para os adeptos dos grandes de Lisboa, a Champions deste ano vai fazer avançar o processo. Quem está em negação vai passar em breve à raiva, e para quem ainda reduz a perda de competitividade a uma ou duas contratações infelizes, aproxima-se a depressão.

 

Mas não é o fim do mundo. Pode ser que cheguemos rápido à fase da aceitação e acabemos todos juntos a ver o derby num sítio qualquer. Tem é de ser barato.

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PS: E pergunta Guilherme Aguiar: “Então e o Porto, cará?!”. O Porto? A equipa de luxo deve permite manter a negação por mais uma temporada. E aquele Brahimi é um player do caraças. A manter o nível, é menino para render ao Porto 20% de uma venda porreira daqui a uns tempos. Ou talvez ainda venhamos a descobrir que afinal rasgar contratos com a Doyen é um acto de boa gestão.

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(Nota: O autor tenta escrever os seus textos na ortografia antiga)

 

Pedro Bizarro

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