August 25, 2019

 

Lembro-me do momento como se tivesse acontecido ontem. Nas altas horas da noite de 3 de Fevereiro de 2008 (ou nas primeiras horas do dia 4, se quisermos ser mais exatos), eu e um grupo de amigos estávamos reunidos à volta de uma mesa de um bar em Campo Ourique, entretidos a beber umas cervejas enquanto acompanhávamos um jogo que nos fascinava mas ainda não compreendíamos totalmente. Na tela improvisada num dos cantos do bar passava o Super Bowl XLII.

 

A lutar pelo galardão máximo do futebol americano estavam os New England Patriots, indiscutíveis favoritos que, após 18 vitórias seguidas (contando com a temporada regular e os playoffs), estavam com uma vantagem de 14-10 a cerca de três minutos do fim do jogo e a um passe falhado dos New York Giants de virtualmente garantir o troféu. Talvez por isso, a juntar-se ao avançado da hora e à névoa do álcool, a nossa atenção já estava um pouco dispersa. Foi então que tudo mudou.

 

Depois de receber a bola, uma falha gritante na proteção que lhe devia ser dada pela sua linha ofensiva deixou o ‘quarterback’ Eli Manning completamente desamparado, com três defensores gigantes dos Patriots prestes a cair-lhe em cima. Um deles agarrou-o pelo ombro, enquanto o outro lhe puxou a camisola para o derrubar ao chão. A jogada estava terminada, o título estava entregue. Mas, sabe-se lá como, Manning conseguiu soltar-se do sufoco em que parecia estar irremediavelmente preso e lançar um passe em frente. À sua espera estava um herói inesperado – David Tyree, um jogador pouco utilizado pelos Giants mas que se iria tornar um dos maiores heróis do ‘franchise’.

 

Pressionado por outro defesa dos Patriots, Tyree começou por agarrar a bola no ar com as duas mãos mas logo sentiu a bola a escapar-lhe. Sabendo que tinha de ter a bola segura quando tocasse no chão para o passe ser considerado válido, improvisou, segurando a bola entre a mão direita e o capacete. Foi um momento que teve tanto de estranho como de mágico. Momentos mais tarde, Eli Manning conseguiu fazer um passe para ‘touchdown’ para dar a vitória aos Giants, num dos mais monumentais ‘upsets’ da história da NFL.

 

O bar ficou em momentâneo silêncio, seguido do mais chocado júbilo. Ninguém conseguia acreditar no que tinha visto, esperando por cada uns múltiplos ‘replays’ para confirmar o inacreditável. Nenhum de nós tinha a total noção do impacto daquela vitória dos Giants. Nenhum de nós sabia que o “Helmet Catch” se iria tornar parte da mitologia do desporto americano, que iria ser considerada por muitos como a melhor jogada de sempre num Super Bowl. Mas não conseguíamos falar de outra coisa no incrédulo regresso a casa.

 

A partir daí, instalou-se o vício. Todos os anos, a contagem decrescente para o espetáculo global do Super Bowl tornava-se cada mais insuportável. Cedo, um jogo de futebol americano por ano deixou de ser suficiente. Comecei a ver mais jogos da temporada regular. Comecei a estudar os feitos passados de equipas lendárias como os Green Bay Packers de Vince Lombardi ou a química mágica de jogadores como Joe Montana e Jerry Rice. Comecei a perceber melhor a enorme complexidade táctica do jogo. De como a linha ofensiva pode ser reajustada para um jogo de passe longo, passe curto ou transporte de bola com ‘running backs’. O que motiva uma equipa a organizar a sua defesa para um sistema de pressão no ‘quarterback’ ou de maior proteção na linha secundária. Até escolhi uma equipa pela qual iria passar a torcer (os Carolina Panthers – ninguém me pode acusar de ter escolhido um dos favoritos), numa tentativa de me dar um ângulo de entrada no desporto número um dos EUA. Em suma, tornei-me um fã.

 

O modo como um jogo de futebol americano se organiza serve como um espelho perfeito para compreendermos a diferente sensibilidade norte-americana no que a desporto diz respeito. Se os europeus tendem a preferir modalidades como o ‘rugby’ ou o futebol, nas quais o relógio quase nunca para, o fã norte-americano está disposto a aturar uma parada interminável de descontos de tempo e intervalos para publicidade se isso significar uma elevação exponencial da importância de cada momento. Os americanos gostam de saborear cada jogada. Aliás, mais do que o momento de magia em si, o fã de futebol americano tira o maior êxtase do silêncio gritante daquela pausa segundos antes do momento começar.

 

Há algo de inexplicável nessa fração de segundo em que a faísca se acende. De viciante e contagioso. Que o digam todos os fãs convertidos à saída daquele bar em Campo de Ourique numa madrugada de Fevereiro em 2008.

 

 

Pedro Quedas

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