December 8, 2019

Reza a Lenda que há no Wisconsin, na região dos grandes lagos americanos, uns veados mágicos. Estes majestosos cervídeos têm a capacidade de fazer campeões NBA… derrotando-os! Não está claro, pois não? Pois bem. Vamos a uma pequena explicação.

 

Os Milwaukee Bucks foram criados em 1968. Muito cedo, tiveram a sorte de contar com os préstimos de Lew Alcindor, que se tornaria um dos melhores jogadores da História da NBA, e ainda hoje o melhor marcador de sempre da liga. Se não foi campeão desde a sua temporada de rookie (1969-70, o segundo ano de existência do clube), foi uma situação corrigida desde o ano seguinte, com a chegada de outro notório grande jogador que responde ainda hoje pelo nome de Oscar “Big O” Robertson. Com o veterano e Robertson e o novato Alcindor, a equipa tornou-se campeã NBA no seu terceiro ano de existência, batendo todos os seus (jovens) records. Inclusive estabeleceram o record (na altura) de mais longa série de vitórias na Liga: 20. Falamos do ano de 1970-71, uma temporada antes dos Lakers de Jerry West, wilt Chamberlain, Pat Riley & co. eclipsarem esse record com 33 vitórias consecutivas, marca ainda por bater nos dias de hoje.

wilt_chamberlain_1972_04_01

 

Pois bem. Os Veados do Milwaukee foram enfraquecendo ao longo dos anos, e nunca mais conseguiram voltar à glória dos primórdios, nem ao título NBA. Porém, mantiveram neles a combatividade necessária para serem os desmancha-prazeres preferidos das equipas NBA. Desde que vissem uma série de vitórias que atingissem as 10 consecutivas, os Bucks começavam a afiar os chifres: “quando é que jogamos contra estes gajos, mesmo?” e começou logo no ano seguinte ao seu record. Assim que os Lakers decidiram entrar em beast mode, os Bucks (ainda uma das equipas mais fortes da NBA) fizeram questão de parar a irresistível ascensão daqueles que viriam a ser a equipa de Alcindor (já sob o seu nome actual) poucos anos depois.120-104. Em 1973, idem. Os Boston Celtics teriam gostado de continuar a sua série de vitórias, mas à 13ª enfrentaram os Veados do Winsconsin. Falta de sorte.Os Sixers em 1983 tiveram a mesma sorte (14 vitórias); os Spurs em 2007, idem (13 vitórias); os Dallas Mavericks em 2011, bis repetita (12 vitórias). Tal o Gandalf na jornada para Mordor, os Bucks erguiam-se como streak stoppers, e foram-se especializando neste feito ao longo das décadas, com uma pontaria quase infalível. E isto quando tinham equipas bem menos intimidantes quanto a dos anos 70.

 

Mas um facto extremamente curioso é que, TODAS AS EQUIPAS cuja streak de 12 ou mais vitórias foi parada pelos Bucksse tornaram campeãs NBA nesse ano. Todas. Confira se quiser. Todas. Coincidência? Talvez. Mas os Deuses do desporto raramente deixam estas coisas ao acaso. Superstição? Pode até parecer. Mas como dizia o grande ‘Sheed: “ball don’t lie”.

Bucks2016

 

Fast forward para os dias de hoje. Quem saiu sábado à noite, porque estava uma linda noite para ir sair com os amigos e começar a entrar no espírito natalício, certamente terá perdido o evento do ano na NBA: a primeira derrota dos Golden State Warriors. Em casa dos Milwaukee Bucks. Os tais veados matadores de séries. Os tais que fazem campeões, derrotando-os (já faz mais sentido agora, não faz?). Terceira equipa da Conferência Este a contar do fim, os veados não estão propriamente na forma anunciada por muitos no princípio da temporada. Esta equipa tem jovens de qualidade e com os quais certamente poderá construir um caminho interessante. Mas hoje, a impressão que tenho é que a derrota dos Warriors se deveu um pouco à capacidade dos Bucks, e ao facto de terem efectivamente jogado bem colectivamente, mas muito ao cansaço extremo dos campeões em título. No seu sétimo jogo de um road trip pela Conferência Este, depois de um duplo overtime contra Boston na véspera, de uma viagem para o Winsconsin de madrugada, os Warriors, ainda privados de Harrison Barnes e com um Klay Thompson a voltar de um entorse, já vinham acusando cansaço há alguns jogos.

 

Não é segredo nenhum que um road trip longe de casa é sempre uma prova extenuante para os jogadores. 7 jogos em 2 semanas, dos quais 6 no Este. Um back-to-back depois de um jogo extenuante para os nervos e os corpos face aos Celtics. Nisto tudo, os Veados têm o seu mérito. Greg Monroe fez um excelente jogo (28 pontos, 11 ressaltos, 5 assistências), Jabari Parker (19 pontos, 7 ressaltos), OJ Mayo (18 pontos) e Michael Carter-Williams (17 pontos) deram o seu contributo no ataque, Giannis Antetokounpo foi o facilitador (11 pontos, 10 assistências). Mas num dia normal, estes Bucks não chegavam para os Warriors. Mas aí está. A um momento dado eles teriam que perder. E eles não vão ter só jogos nas melhores condições possíveis, com dias de descanso, poucas horas de viagens nas pernas, etc., etc. Era inevitável que estes jogadores “caíssem” contra alguém. e vão voltar a cair, talvez mais uma boa dezena de vezes na temporada, quem sabe. Mas perder por perder, mais vale que seja contra uma equipa conotada como um presságio positivo como são os Veados do Winsconsin. E se os Warriors, conhecedores da história e dos números da NBA (“strength in numbers”, remember?!) tivessem “escolhido” (as circunstâncias ajudando) perder contra estes Bucks? até se tinham vestido de preto para a ocasião… Derrotas que “dão” campeonatos, sendo verdade ou superstição, todos nós poríamos todas as chances do nosso lado, não?

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Ricardo Glenn Baptista

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