January 22, 2020

Esta semana continuamos a visitar jogadores obrigatórios que não aparecem nos replays. Fazemos máximos a quem nos dá os mínimos de qualidade para desfrutar do beautiful game como deve ser. Da Alemanha à Itália, passando até por Portugal, ficam aqui alguns dos nomes que devem constar do manual ‘Então Queres Aprender A Ver Bolinha Não É?’.

#5 AIMAR, PABLO

Sobre ele disse El Pibe “pago bilhetes para vê-lo jogar”. Mais tarde admitia Messi, um dos Aliens do Futebol Moderno, dos árbitros de baliza e das repetições em super slow motion, que sempre fora um dos seus “ídolos”. Pablo Aimar, é, foi e sempre será recordado como um Incrível, um Mago, alguém capaz do ‘melhor ainda’ quando outros já faziam bem.

Começou petiz no River Plate, mostrando futebol de adulto para quem tinha acabado de fazer 17 anos e sonhava com uma carreira em Medicina. Em boa verdade, o Mundo perdeu um médico mas ganhou um escultor. Três Aperturas (96, 97 e 99) e dois Clausuras (97 e 2000) deram-lhe o passaporte que precisava para a Europa, antes de ser coroado com o título de Melhor Jogador Argentino em 2000.

Acabado de festejar o seu 21º aniversário, de futebol explosivo e a pedir novos palcos, Pablo Cesar Aimar fez as malas e partiu para Valência, a troco de 22 kilos. Rafa Benítez, à altura técnico de uma fortíssima equipa pejada de sul-americanos, foi quem atirou Pablito às feras, fazendo do argentino maestro daquela equipa campeã de Espanha na longínqua época de 2001/2002. Algo que já não acontecia ao Valencia desde os anos 70. Pablo jogou 33 jogos, marcando quatro golos. Nunca precisou de facturar muito. Qual é o verdadeiro número 10 goleador? Não recordo muitos. Eles estão lá para pensá-los. Não ficam na fotografia, apenas são responsáveis pela luz, foco, posição, revelação, enfim, tudo o que é preciso para a polaroid ficar perfeita. Aimar, tal como Maradona antes dele, fazia furor em Espanha.

Foi durante a temporada de 2003/2004 que Aimar chegaria mais longe do que nunca. Mais um título Espanhol, a Taça UEFA e a Supertaça Europeia (às custas do FC do Porto) representam o zénite de títulos que El Mago amealhou. Parece pouco… embora talvez não seja, se recordarmos o Valencia como um clube outsider que lentamente se foi impondo na Europa futebolística. Os títulos conquistados em Espanha ainda hoje são recordados com saudade, aquele Mestalla cheio era vibrante e temível para os visitantes que, quando ouviam isto, tremiam:

Pablo, Pablito Aimar

Que la gloria volverá

Como Kempes e Piojo

Otro Pibe imortal!

Infelizmente, não puderam saudar o argentino muito mais tempo. O clube che passou por uma grave crise financeira, sangrava dinheiro por todos os lados e foi obrigado a destroçar o plantel. Aimar foi transferido para o Real Zaragoza, onde perdeu tempo durante dois anos. Após oito anos em Espanha, parecia ter perdido a chama. Era tempo de mudar, mas para onde?

Um processo negocial que se arrastou durante meses – e talvez uma das raras ocasiões em que Rui Costa se destacou como dirigente – terminou com o acordo entre El Mago e o Sport Lisboa e Benfica, na época que se seguiu à retirada de Costa, César Manuel Rui. Ambos partilhavam o gosto por ter a bola nos dois pés, jogar de cabeça levantada e comandar a equipa. E partilham ainda hoje o nome César, que só é dos Grandes, não é para os comuns.

Tal como Rui, Aimar vestiu e suou o 10 como poucos. Ainda hoje uma das (pequenas e médias) questões que podemos colocar é qual deles jogou melhor pelo Benfica? É certo que Rui Costa jogou pouco tempo, partiu cedo mas quantos golos decisivos marcou?! E quanto a Aimar? Com Jorge Jesus, quem não se recorda da sua entrega e liderança em campo?

A questão não importa muito quando falamos de títulos conquistados, que até foram mais ou menos semelhantes. Aimar conquistou aquele de Jorge Jesus e voltou a ter palco de Champions, espalhando magia em jogos como o da época passada contra o Barcelona, em casa. Mesmo fisicamente debilitado, perdura na retina a forma como driblava, lia o jogo, explorava os espaços vazios para libertar o seu passe venenoso, a sua assistência primorosa. A maneira como progredia em campo, de bola colada. A protecção de bola, a conquista de faltas, a raça, o protesto com o árbitro. Aimar foi Benfica e vice-versa durante determinado período de tempo. Tal foi possível devido também ao emparelhamento com o seu ex-colega de tropelias Javier Saviola, também ele resgatado à Liga BBVA. Os dois combinavam vendados, jogadas mil de recorte técnico incomparável. Jogavam noutro Sistema que não o Solar. Juntos, estavam à parte… outros viam jogar, eles faziam acontecer. Os benfiquistas – e, de uma forma geral, boa parte dos Portugueses – agradecem, ainda hoje, a passagem de Pablo Aimar pelo nosso Futebol.

Pela selecção do seu país, Aimar não teve sorte, apesar de pertencer a uma geração que deixou saudades. Foi internacional mais de 50 vezes, tendo marcado oito golos e participado nos Mundiais de 2002 e 2006. Jogou ainda numa Taça das Confederações (2005) e numa Copa América (2007). Nunca viu um chavo, tirando o título Mundial de sub-20 em 1997, conquistado na… Malásia, onde hoje actua, numa colectividade chamada Johor DT, desfrutando de um salário anual à volta dos dois milhões e meio de EURs.

Aimar. Agarrem-se, porque o espectáculo vai começar.

Pablo Aimar

#4 LAHM, PHILIPP

“Talvez o jogador mais inteligente que já treinei, está noutro nível”. Não é Quinito quem diz isto, é Guardiola, o que é revelador de toda a experiência e sapiência deste veterano jogador germânico.

Até nem foi no seu Bayern que começou a dar nas vistas. Foi no Estugarda de Felix Magath, ao lado de Mario Goméz, Kevin Kurányi, Hakan Yakin, Fernando Meira e Krasimir Balakov (!) que se destacou, fazendo duas épocas fulgurantes que levaram o seu clube até dois quartos lugares, hoje coisa impensável na Bundesliga que corre. Esse Estugarda sabia jogar Futebol e muito devia a Lahm pela consistência defensiva. Jogou na Champions por sete vezes, 31 para o Campeonato. Cumpria-se a profecia: “se Lahm não chegar à Bundesliga, mais ninguém chega!”. Palavras de Jan Pienta, que o fez capitão da equipa de júniores do Bayern de Munique.

A chamada do Allianz foi mais forte e os talentos de Philipp requisitados. Após o namoro não concretizado com o Manchester United, o Bayern chamou-o de volta do empréstimo e a partir de 2005 a vida de Lahm andou mais ou menos à volta disto:

– Equipa do Torneio Mundial 2006

– Melhor Em Campo, Alemanha-Polónia, Mundial 2006

– Equipa do Ano UEFA: 2006, 2008 e 2012

– Melhor em Campo, Turquia-Alemanha, Euro 2012

– Equipa do Torneio Euro 2008 & Euro 2012

– Equipa do Ano FIFA, 2008

– Equipa do Torneio, Mundial 2006 & Mundial 2010

– 5 Bundesligas

– 1 Liga dos Campeões (2012)

– 1 Supertaça Europeia (2013)

Não é fácil ser-se Lahm certo? Certíssimo. É um defesa dificílimo de bater, raramente apanhado fora de posição ou batido pelo ar, apesar da baixa estatura. Dá-se bem à esquerda ou à direita do eixo defensivo, apesar de jogar preferencialmente de pé direito. Esta polivalência – aproveitada por vários treinadores que com ele trabalharam – conheceu um upgrade com Guardiola, que o desafia a explorar a meio-campo defensivo. A facilidade com que navega pelos corredores, e sobretudo a sua facilidade em entender o jogo, fizeram dele o jogador com mais assistências do Bayern durante a época transacta, suplantado apenas por Ribéry (!). Foram onze. E normalmente fruto de movimentações para o centro antes da assistência, não necessariamente “piscinas verticais”. Guardiola, atento, experimentou-o ao lado de Toni Kroos como tampão e garante de posse de bola no meio-campo adversário. Pelo que já se viu, a coisa tem dado resultado.

Apesar de transformado, Lahm ainda é um dos melhores defesas do mundo e talvez o melhor lateral da última década, pelo que tem conquistado e convencido. A Alemanha deve-lhe muito (103 internacionalizações), o Bayern outro tanto pela lenta afirmação (e afinação) do seu futebol. Porque há Robben e Ribéry, que também sabem fazer a diferença. Mas quem levanta primeiro as Taças é Philipp. Ah, e também é o capitão já agora… afinal, os defesas “também” sabem jogar à bola!

Líder de balneário, activista que não papa de grupos (é um defensor dos direitos dos homossexuais, por exemplo), embaixador do Dia Mundial da SIDA, estamos perante um jogador de classe mundial e um ser humano notável.

E não é todos os dias que a Alemanha produz seres humanos notáveis…

Vielen Dank Philipp!

 Philipp Lahm

#3 MUNTARI, SULLEY

Invocar Muntari é deixar a aguarela de lado e pegar no lápis de carvão. 2H, de preferência. Há jogadores assim, em todas as equipas. O defesa mauzão. O avançado matador. Já não há o clássico 10 (daí eu ter puxado Aimar para esta selecção, mesmo tendo poucos títulos e uma carreira menos brilhante), e, com o upgrade físico do futebol, quanto menos bonito se souber jogar, por vezes maior a utilidade.

Nesta equação esteticamente proibida de entrar no Guggenheim entra Sulley Muntari, 29 anos, centrocampista do AC Milan. Do Milan que já não é tubarão, do pós-Sacchi/Capello, esse sim, uma máquina devoradora de títulos e de saber jogar à bola. Com o resultado e com o público.

De África diz-se, num apriorismo um tanto redutor, que os jogadores trazem… “aquela magia”. Talvez. Mas também há excepções e por vezes complementos que vendem mais do que simples prestidigitação: suor, transpiração, entrega, raça, querer, ganas e sentido colectivo, que podem não decidir jogos, mas entregam títulos.

A carreira de Sulley, hoje imprescindível no onze de Allegri, diz tudo. Alternou Inglaterra com Itália, em fases diferentes. De Udine a Portsmouth. Do Sunderland ao Inter. Sempre com aquele pé esquerdo inconfundível e ginga algo trapalhona. E ainda capaz de sacar coelhos da cartola, com passes a rasgar de fazer inveja a jogadores tecnicamente mais dotados.

Muntari é um portento físico, alguém que dá a cara, corpo, alma e ossos pela equipa. Para Sulley, antes dele estão os outros dez mais o clube, os adeptos e o hino. Em 2009 conquistou o Palladino D’Oro, que distinguiu o Melhor Jogador da Serie A, época feliz no Inter de Mourinho que também o consagrou como Campeão Europeu de clubes. Meses depois, levantaria o Campeonato do Mundo… também de clubes. Pela Selecção, ficou na retina aquele timaço que fez sonhar todo o continente africano – e não só – frente ao Uruguai. Alturas houve em que era cool torcer-se pelo Gana. Sempre foi uma potência futebolística, daquelas que ora dá box-to-box de alta rotação ora oferece avançados completos, móveis e fisicamente pujantes. Verdadeiros atletas.

Muntari, com ou sem Montolivo ou à sombra de Balotelli, é, para lá de um jogador útil, um exemplo de inteligência, de saber estar e reagir em campo. Cobrir espaços, compensar, progredir, temporizar. Tem “cabecinha pensadora” e os pés mínimos que lhe permitem raramente comprometer. E, quem vê futebol hoje, sabe que as melhores decisões tomadas antes de tempo fazem a diferença numa equipa.

Muntari, longe de ser apaixonante, cansa ver jogar. É um verdadeiro metrónomo.

Se ninguém quiser comprar, mandem vir!

Muntari

#2 ALONSO, XABI

Não é Fernando, é Xabi. Alguém que admitiu há uns anos ter “saudades de Liverpool” e que via em Gerrard, seu ex-colega em Merseyside, “uma qualidade incrível, um jogador impressionante”. É verdade que Stevie G é um dos grandes. Talvez até devesse figurar aqui. Mas, convenhamos, de grandes craques ingleses não rezam os manuais de Vamos Tornar Este Desporto Inesquecível. A geração de Matthews, Styles ou dos Charlton já era. Giggs é galês. E Best da Irlanda do Norte. De Inglaterra? Ficam-nos as célebres e românticas imagens de Gazza ou Lineker no Italia 90. Essa geração prometia. Mas… estamos aqui para falar de outra geração, a que conquistou. A de Puyol. Casillas. Xavi. Torres. Villa. Senna. E, make way, Xabi Alonso, o cérebro, o puppetmaster.

Ao ouvir bitaites de Xabi, cresce-se como amante do beautiful game: “Quando estava no Liverpool lia aquelas entrevistas típicas a jogadores da cantera. Perguntavam-lhes coisas como ‘idade, referências, pontos fortes’. Eles diziam ‘remate e tackling’. Eu não percebo como se pode olhar para o carrinho como uma qualidade, algo que se ensina, uma característica do teu jogo. Como é que podemos olhar para o futebol assim?! Não percebo o futebol nesta linguagem. O desarme em carrinho é um último recurso, vais precisar dele, mas ninguém aspira a dominá-lo, não é um estilo específico, é apenas uma arma que escolhes usar.”

Talvez alguém que saiba dizer porque a Inglaterra nunca foi dominadora e, agora sim, justificar a minha entrada deste texto com referências ao insucesso dos Three Lions: “A mentalidade no Reino Unido é quase impossível de se mudar. A maior parte dos duelos individuais, ganhos ou perdidos, é aplaudido. Quando perdes uma bola não podes ouvir palmas!”

Xabi, percebe-se, não é o típico futebolista. Não mora em La Finca como o resto da pangaiada merengue. Mudou-se para o centro de Madrid. É fácil encontrá-lo no Cafe Comercial ou em qualquer outro restaurante do bairro de Salamanca. Prefere o Prado em vez do Joy Eslava e recomenda exposições via twitter, onde tem para cima de quatro milhões de followers. Mas eu não estou aqui para ir buscar entrevistas de VanityFair e traduzi-las, fazendo-me passar por um jornalista desportivo de cybercafé, de bóina, cigarros de enrolar e cheio de trivia para partilhar.

Eu sou colaborador do Entre Linhas, logo sou forçado a falar de futebol. Fora de FMs, FIFAS e coisas que tais. O que vemos em Xabi Alonso quando passa um replay de um dos seus estrondosos passes longos? Que características sobressaem do seu jogo? Onde pode melhorar? Bem, deixem-me só acabar a parte light da coisa dizendo que o basco gosta imeeeeeeenso do Homeland e que ouve Leonard Cohen. Contentes? OK, segue jogo. Sobre Xabi, conta Arbeloa “é um típico basco. Distante, discreto. Olha para ti, observa-te, avalia-te e demora a ganhar confiança. Acho que ninguém o conhece verdadeiramente. Ele sabe o que mostra mas esconde muitas coisas. Eu tenho sorte em contar com ele e saber que ele está do meu lado, para sempre.”

Não, Xabi não é homossexual. Vejam só a mulher dele. A sério, espreitem só!

Bem, resumidamente, Alonso começa tarde a carreira de futebolista – profissionalmente, aos 17 anos estreia-se pela Real Sociedad – e, passados cinco anos e 15 internacionalizações com La Roja, faz as malas para Mersey, na zona Docks. Tendo o First Certificate e passado dois Verões na Irlanda, não teve dificuldades em adaptar-se à língua. No meio-campo do Liverpool, e com um espanhol no banco a dar-lhe ordens, foi feliz. Considera Valerón – apesar dos elogios a Gerrard lá atrás – o melhor jogador com quem já trocou a bola. De três grandes competições de Selecções (Xabi é Campeão Mundial em título e bi-campeão Europeu) a uma Liga dos Campeões, uma Supertaça Europeia, Copa Del Rey, FA Cup, Liga Espanhola, terá faltado a Xabi um título nacional pelo Liverpool, que quando fazia miséria pela Europa vacilava internamente, na gestão mais bipolar de plantel que alguma vez vi. Patética campanha interna. Futebol apaixonante fora do Reino Unido.

Alonso representa – sozinho, porque não?! – o melhor do double pivot, algo que Cruyff publicamente detestava nas Selecções Holandesa e Espanhola mas que permitia a automática criação de triangulações através dos dois volantes colocados à frente do eixo defensivo. Ficando um desses médios com a missão puramente destrutiva, a seu lado ficaria alguém responsável pela ligação de pontos, ou seja, recupera, entrega que eu leio e a partir daqui bola no ataque. No Liverpool, tornou-se inesquecível porque foi ELE quem eliminou o Chelsea nas meias-finais e é DELE o último castigo máximo que dá o caneco aos reds.

No Real Madrid, foi-se o espaço que lhe permitia dar asas ao seu futebol directo. Xabi também sabe jogar curto e bem mas é quando levanta a cabeça e arqueia os braços – uma trademark  do seu jogo – para fazer aqueles passes de 40m, que nos deixa incrédulos. Conheço apenas dois jogadores que fazem isto com igual mestria: um deles dava pelo nome de Ronaldinho (único nas longas diagonais a encontrar jogadores de trás para a frente a surpreender os defesas) e um italiano que prefiro não revelar…

Xabi Alonso pode já não ser o dínamo que foi no Liverpool mas ainda assim a sua carreira e consistência falam mais alto. É um ganhador nato, um batedor de bolas paradas temível, alguém com uma meia-distância de meter respeito aos guarda-redes (tal como o seu pai, também ele centrocampista), visão de jogo binocular e passing ao alcance dos Intocáveis. O ano passado, a eficácia roçou os 83%. Cinco recuperações por jogo. Dois passes de morte. A contratação de Illarramendi – supervisionada ou não por Ancelotti – parece fazer sentido porque na época passada foi também decisivo e teve números semelhantes. Não é à toa que o Real Madrid quer controlar, ter mais a bola, ao mesmo tempo ganhando mais cobertura defensiva.

Alonso gosta de controlar o jogo e é a definição da pura – e não simples, atenção! – estabilidade colectiva.

Cesc.

Xavi.

Xabi.

Tratar e ter a bola (e nós com Rúben Micael).

Xabi, a meu ver, só pode melhorar numa coisa: deixar de ouvir Leonard Cohen.

 Xabi Alonso

#1 PIRLO, ANDREA

“Eu acredito finalmente em Deus porque até mete vergonha o que Pirlo é capaz de fazer”. As palavras são do também veteraníssimo e campeoníssimo Gialuigi Buffon, “parede” entre os postes da Juventus, orquestra bianconera tocada por dois homens, um italiano e um chileno. É do primeiro que vamos falar aqui, sem demorar muito.

É fácil dizer o que Pirlo faz com e sem a bola. Mais fácil é dizer o que ele não faz: falhar passes. Decidir mal. Bater livres que não causam perigo. Uma nulidade autêntica no que toca a todas as bolas paradas. Não ocupar e ler bem todos os espaços do terreno de jogo. Isto é precisamente o contrário de tudo aquilo que Andrea faz depressa, bem e melhor do que ninguém. Depressa? Não necessariamente. Mas nunca ninguém disse, mesmo neste futebol de Cristianos, Messis, Neymares e Bales, que ser rápido contava para alguma coisa. Porque Roberto Carlos também era velocíssimo e tinha um remate inconfundível. Mas era Zidane quem mais encantava…

Pirlo é um reminder de futebol dos tempos dourados. É puro vintage. Na época de estreia pela Juve, 13 assistências em 36 jogos. O regista puro. Os adversários tentam, mas o handoff e a protecção de bola de Andrea é de fazer escola (trademark) e os seus passes, teleguiados, certeiros e mortíferos são, invariavelmente, sinónimos de assistências.

A campanha da Itália no Euro-2012 viveu muito da magia que Andrea empregou em campo. A sua performance no jogo inaugural (o 3-5-2 que Prandelli não arriscou na final) meteu Sergio Busquets literalmente no bolso e, consequentemente, a Espanha em sentido. É sua a assistência para o golo de Di Natale. Foi o princípio da estória do costume: Andrea, passe/remate, golo. Foi assim contra a Irlanda (marca o canto). O mesmo contra a Croácia (marcou o livre). Quem não duvida da classe pura deste verdadeiro génio é o inglês, que viu pela TV uma panenkada a Joe Hart como tão cedo não esquecerá. Ah, os ingleses e a eliminação via penaltis… dava um documentário!

A final contra a Espanha, infelizmente, foi a coroação que faltou a Pirlo. Na minha opinião, foi o melhor Jogador do Euro-2012, prémio que viria a distinguir Iniesta.

Há quem diga – agora vamos a clubes – que, para as equipas italianas, a Champions League não passa de um sonho. Foi o próprio Conte quem, após o jogo contra o Bayern, o admitiu: “Não há hipótese”. E talvez seja verdade. As equipas italianas jogam um futebol muito seu e pouco marketable. Por isso é que os direitos de transmissão da Premier League valem o dobro. Um Sunderland – Aston Villa pode ser mais entusiasmante do que um Juve-Milan hoje em dia? Não pode, é! Aos 34 anos, a pedalada do homem pode já não dar para muito mas… em Itália agrada. E na Europa, como se viu o ano passado, encantou o Mundo. Esquecemos por vezes que é graças a Pirlo que podemos visualizar, em vez de Vucinic na frente, um Boniek ou um Platini a tomar conta dos espaços que ele solicita. São 34 anos de saber. De classe. Dos seus pés brota a golden age mais apaixonante. Está lá o improviso dos anos 80. A maestria dos Comandantes dos anos 90. As fintas de corpo e a escola física dos anos 70. Tudo… Pirlo é uma timeline de saber perceber e jogar o jogo.

Deixo-vos com um parágrafo da wikipedia que me parece revelador de alguma coisa (nota: o autor não é fã do referido site e raramente consulta. Pareceu-lhe, no entanto, que para efeitos de ênfase, deveria fechar este trecho com uma citação porque Andrea merece todos os elogios, sejam eles de treinadores, venham eles via wikipedia):

“Andrea Pirlo (Flero, 19 de maio de 1979) é um futebolista italiano que atua como meia. É considerado o maior e melhor meio campista da história da Itália e um dos melhores jogadores Italianos de todos os tempos. Atualmente, joga pela Juventus.

Pirlo é conhecido por genial movimentação em campo com dribles curtos e maestria em assistências, dono de um preciso remate de media-longa distância, é especialista em bola parada, é considerado pela FIFA como maior passador de bolas da década e também ele é um dos líderes da Azzurra.”

Embrulha Xavi. És pontuação na frase que Andrea escreveu. Perdão, és uma vírgula.

Manuel Tinoco de Faria

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