September 19, 2019

 

Depois do espetáculo épico protagonizado no Jamor no final da temporada passada, a espera foi longa. Correu sangue, suor e lágrimas. Houve de tudo – Jesus passou a Judas, Maxi passou de guerreiro para caceteiro. Isto na perspectiva dos que ficaram órfãos do seu ídolo. Do outro lado Jesus passou a Salvador e Maxi a “um jogador à Porto” (vá-se lá saber qual o índice de correlação entre ser-se jogador à porto e o espírito guerreiro e caceteiro do lateral uruguaio) e várias perguntas ficaram no ar. Mas vamos por partes.

Importa primeiramente saber o que de mais importante se passou nos 18 clubes da nossa Liga neste defeso, e para isso vamos começar pelos novatos: Tondela e União da Madeira. Chegam à 1ª Liga e trazem consigo dois curiosos factos. A Madeira passa a ter 3 equipas na nossa Liga – feito raro para uma região não muito grande, mas que se compreende fruto do investimento do Governo Regional. Por outro lado, temos um clube do interior do país na nossa Liga. Era importante que outros clubes da 2ª Liga o conseguissem este ano.

 

união da madeira

O União da Madeira vai participar pela 6ª vez no principal escalão do futebol português. Já assegurou 14 reforços e o plantel ainda não está fechado. Isto deriva do facto de dos nove jogadores mais utilizados na época passada, quatro terem saído – destaque para Pedro Trigueira que reforça a Académica, Mendy regressa ao Estoril e Barnes ao Paços de Ferreira. Norton de Matos deve assegurar a continuidade do 4x3x3 que Víctor Oliveira deixou. Os destaques vão para Diego Galo que vem trazer experiência, Miguel Fidalgo que poderá dar ainda mais golos e assistências sem Mendy na equipa e Élio Martins que com 15 golos na temporada passada, promete não ficar por aqui.

 

tondela

O Tondela estreia-se na Liga e logo com direito a estádio novo, o Municipal de Aveiro. Também com muitas mexidas no plantel (16 contratações e a somar…), Vítor Paneira estreia-se já hoje frente ao novo-poderoso Sporting. Conseguiu um dos jogadores emprestáveis mais interessantes do mercado – John Murillo. Uma torre para a baliza chamada Matt Jones, experiente Guarda-Redes vindo do europeu Belenenses. E o experiente Kaká, que já actuou em clubes como o SC Braga, Herta de Berlim e Deportivo da Corunha. Tudo isto serão ingredientes que dificilmente perceberemos qual será o resultado, ainda para mais se tivermos em conta que perderam a sua maior figura – Tozé Marreco. Paneira apostará num sistema 4x2x3x1, que dê equilíbrio à equipa, e velocidade nas transições.

 

arouca

Entramos no lote de equipas que permaneceram na Liga NOS. E começamos pelo Arouca – mudou de Pedro Emanuel para Lito Vidigal, que vinha a fazer uma época estrondosa no Belenenses e acabou por ser forçado a abandonar o barco a meio da temporada. É um dos técnicos que mais aprecio, e acredito que terá uma época tranquila ao comando de jogadores como David Simão, Rafael Bracali e Nuno Coelho. Veremos se se confirma o valor de Lito e do seu 4x3x3, ou se volta a ter uma época com a corda na garganta como na temporada passada.

 

academica

José Viterbo entrou como um furacão no final da temporada passada para salvar a Académica da descida. Este ano, mantém os pés no chão e diz que o plantel lhe dá todas as garantias que o objectivo da permanência será mantido. A sua figura algo cómica e desajeitada contracena com o seu 4x4x2 rápido e consistente que conseguiu deixar o país a aplaudir o seu toque mágico numa equipa que parecia mais deprimida que o António Costa desde que soube que os seus cartazes tinham histórias inventadas. Ricardo Nascimento, Rui Pedro e Fernando Alexandre são o pilar desta equipa, mas deixo aqui uma boa notícia – Pedro Nuno pode vir a ser uma das boas surpresas da Liga. A sorte é que no final da época ninguém vai ler este artigo e colocar em causa a minha reputação.

 

setubal

O Vitória FC é o próximo da lista. Orientado por Quim Machado que jogará num 4x2x3x1, apostando no regresso de Diego, na consistência de Paulo Tavares e na irreverência de Suk, e contando com a entrada de mais de uma dezena de reforços, parece ter a vida novamente complicada este ano. O plantel dos rivais foi mais apetrechado, mas Quim Machado é um treinador já com alguma experiência e que poderá ser o homem certo a levar o Vitória à tranquilidade, depois de ter ganho a 2ª Liga com o Tondela.

 

boavista

O Boavista FC era o patinho feio da Liga NOS 2014/2015. Apontado por todos como 1º a ser sentenciado com a descida, não só garantiram a manutenção, como o ainda conseguiram ficar em 13º Lugar. Culpado disto? Petit. O treinador boavisteiro levou um conjunto jovem, com pontuais jogadores cheios de experiência na principal Liga, a uma época tranquila, fazendo do seu relvado artificial um porto de abrigo no coração da invicta. Este ano, com tapete natural, os jogadores podem transformar-se ainda mais à imagem do seu timoneiro, e passar a comer a relva. Nem tudo são más notícias portanto. Agarrado ao 4x2x3x1 – um sistema bastante equilibrado, conta com a experiência de Paulo Vinícius, Tengarrinha e Mika, e um reforço que promete – Uche Nwofor, ponta de lança nigeriano internacional pelo seu país. Outra dica minha, acompanhem este jovem. Ou não, tanto faz. Eu não mando em vocês. Desculpem.

 

estoril

Fabiano Soares será o treinador, auxiliado por Hugo Leal, para esta temporada no Estoril-Praia, depois de ter passado a treinador principal com a saída de Couceiro. Esta dupla desfaz-se e Fabiano coloca em si toda a pressão, afirmando que este ano, finalmente, poderá pôr em campo as suas ideias. Vê-se orfão de Tozé e de Kleber, mas por enquanto mantém Diogo Amado e Bonatini. Esiti promete continuar a crescer e Sebá a dar força ao ataque. Montados num 4x2x3x1, a bola está do lado estorilista que pretende voltar aos sucessos de Marco Silva quando foi por duas vezes às competições europeias.

 

moreirense

O Moreirense FC conta com um dos melhores técnicos da Liga, Miguel Leal. Sem grandes alaridos conquistou o 11º lugar de forma tranquila. Um 4x3x3 suportado pela dupla Vítor Gomes e Filipe Gonçalves e com Cardozo na frente, espera-se mais uma época tranquila em Moreira de Cónegos. Resta saber se conseguem dar um passo em frente, consolidar o clube na 1ª Liga e acabar na 1ª metade da tabela.

 

Rio ave

Depois de uma época de difícil gestão (o sucesso inicial com a entrada na fase de grupos da Liga Europa, refletiu-se no final da época que terminou com 56 jogos), o Rio Ave de Pedro Martins prepara-se para atacar novamente os lugares cimeiros e jogar cara-a-cara com os clubes da Madeira, do Minho, e o inusitado Belenenses. Perdeu pedras influentes como Ederson, Diego Lopes, Tiago Pinto, Prince e Dell Vale, mas manteve Ukra, Tarantini, Hassan e… Roderick?! A equipa reforçou-se bem, sendo que destaco o extremo Kizito, vindo do Covilhã, como mais uma possível surpresa (lá está ele, estão vocês a pensar. Agora a sério, este é jeitoso, prometo).

 

maritimo

A época passada começou com Leonel Pontes ao comando do Marítimo. O sucesso foi tanto que entrou em cena Ivo Vieira à 26ª Jornada. E o seu trabalho foi recompensado com a continuidade do técnico de Machico. Para Ivo Vieira o pensamento na Europa tem de estar sempre presente, e é dessa forma que a equipa está a ser preparada. Perde Danilo Pereira para o FC Porto, acompanhado pelas saídas de Luís Olim, Bauer e Bruno Gallo. Será interessante ver como se adaptará a uma remodelação parcial do 11 e que papel terá reservado a Marega, e a um jogador que conhecemos dos confrontos contra a Arménia – Ghazaryan, um jogador incansável e com qualidade técnica suficiente para provocar estragos na maioria dos estádios portugueses.

 

paços de ferreira

O Paços de Ferreira voltou a dar uma hipótese a Paulo Fonseca e os resultados estão à vista. Terminou em 8º Lugar, longe dos lugares de aflição. Aflição que Jorge Simão quer a todo o custo evitar esta temporada. Para este recém-chegado treinador à Liga NOS, o objectivo este ano é mesmo esse, o da permanência. Dos 10 jogadores mais utilizados 5 abandonaram o clube, com claro destaque para Sérgio Oliveira que reforçou os azuis-e-brancos. Contudo, viu reforçado o ataque com Christian, vindo do Nacional, jogador bastante interessante, e manteve Bruno Moreira (o seu melhor marcador), Paolo Hurtado e a intensidade que Cícero entrega nos jogos. O 4x2x3x1 de Jorge Simão promete golos, boas jogadas e acima de tudo… não sei o que dizer mais. Ok, desculpem, prometo que não volta a acontecer.

 

nacional

O que é Nacional é bom? Mais ou menos. Não é “Europa” bom, mas acabar em 7º lugar não é vergonha nenhuma e Manuel Machado não deve estar tão preocupado com a nova temporada, como costuma estar com o vocabulário empregue na circunstância profissional do mundo futebolístico em que se insere, o qual, com todo um manancial de perniciosas metáforas e alegorias, descreve todos os fins-de-semana perante o olhar impávido e sereno de 95% dos agentes desportivos que não percebem 95% do que transmite. Mas as suas equipas jogam bem, apresentam sempre muita qualidade e competitividade e jogar na Choupana é sempre um cabo das tormentas. Continuará a ser este ano com a manutenção da estrutura e do 4x3x3 da época passada. Interessante perceber como irá sobreviver sem Marco Matias que facturou 17 golos.

 

belenenses

Sai um Pastel de Belém, que os azuis do Restelo voltaram em grande à Europa, com boas chances de integrar a fase de grupos da Liga Europa. Antes de mais uma nota – só portugueses no plantel. Uma vénia a Rui Pedro Soares. Conseguir resultados indo contra a maré. Provar que é possível o que muitos dizem impossível, é meio caminho andado para torcer que corra tudo bem ao Belenenses (nota: sou adjunto e analista de desempenho dos Juvenis A deste histórico clube com tamanho prazer, que quero deixar aqui para que todos o saibam). Perderam Pelé, mas ganharam Tonel! E por aqui me fico. Agora a sério. Uma equipa com Sturgeon, Dálcio, Ventura, Miguel Rosa, Ruben Pinto, Vilela e Carlos Martins, capacidade de trabalho nunca faltará no Restelo, e Sá Pinto não prescinde disso mesmo – de lutar até ao fim insistindo no 4x3x3 muito virado para a transição rápida.

 

guimarães

A época não começou bem para Armando Evangelista, no “seu” Vitória SC. Com a eliminação precoce da Liga Europa, muito foi colocado em causa. Substituir Rui Vitória não será fácil (excepto se virmos o desempenho do SL Benfica esta época, claro). Manteve o grosso do plantel, perdendo André André, mas ganhando Licá e Montoya. O homem da terra manteve o 4x2x3x1, mas a equipa ainda se sente refém da ausência do seu médio referência e até encontrar solução para esse problema, teremos um Vitória animicamente muitos furos abaixo do que vimos durante a temporada passada.

 

braga

Paulo Fonseca, perdido geograficamente, mas futebolisticamente com alto sentido de orientação, assume o comando do Sporting de Braga, depois do combate do século entre Sérgio Conceição vs Resto do Mundo. E não será só no campo que se notarão diferenças. Na estratégia comunicacional Paulo Fonseca será o polo oposto de Sérgio nas conferências do clube de Estrasburgo na abordagem à comunicação social sueca. Agora a sério, com o ex-treinador do Porto, fora os erros geográficos, teremos motivos para sorrir e ouvir falar de futebol, contrastando com Sérgio que, apesar de muitas vezes ter razão, se tornou demasiado intempestivo. Com este registo mais discreto, aliado ao excelente reforço da equipa (Alef, Rui Fonte, Joan Roman, etc.), teremos um Braga forte, coeso e a jogar um futebol atrativo, típico do treinador que comanda agora a equipa.

 

E entramos na parte barulhenta da tabela classificativa. Não vou escrever sobre os planteis de Sporting, Porto e Benfica. Todos sabemos quem saiu, quem entrou. Quem já ganhou títulos do lado de lá da 2ª circular e quem já os perdeu. Vou apenas registar algumas coisas que acho importantes.

 

porto

A primeira é o facto do treinador do FC Porto, Julen Lopetegui, (ou como diria Paulo Fonseca, o Treinador do Schalke. Ou como diria Jesus, o treinador do Porte, ou como diria Rui Vitória, tratem-no por Julen) ter de se decidir quanto ao que pretende a curto prazo. Concordo com a visão de que devemos fazer um plantel a médio longo prazo, com jogadores que nos dêem rendimento imediato. Mas isso não foi o que se verificou na temporada passada. Com tantos jogadores emprestados, e Jackson com saída prometida, a equipa não estava a ser construída para o futuro. Daí que este ano, e apesar de ter contratado Osvaldo, Maxi Pereira, Cisokho, Iker Casillas, Bueno, Imbula e Danilo Pereira, afirma que a equipa precisa de retoques e de tempo porque se está a reconstruir. Não é dessa forma que vejo um planeamento a longo prazo. O FC Porto é, de longe, o melhor plantel do campeonato. Tem obrigação, aliás, tem o dever, de ser campeão. Ter um 11 base com Casillas, Alex Sandro, Maicon, Marcano, Maxi, Imbula, Danilo, Herrera, Brahimi, Tello e Osvaldo e não ser campeão é simplesmente Obsceno.

 

sporting

Quanto a Jesus e ao “seu” Sporting CP, é o esperado. Já todos conhecemos a forma de trabalhar do mister verde-e-branco. E ninguém duvida que este mandou mesmo SMS aos jogadores. O fair play é uma treta, e quando se goza do estatuto, da liberdade e do poder que Jorge Jesus tem na estrutura do Sporting (dada pelo seu Presidente, que ainda hoje afirma que encontrou uma “alma-gémea” no seu treinador), só poderia desencadear estas situações. Este ano vai valer tudo. E será interessante verificar a “luta” entre Porto e Sporting neste aspeto. Por outro lado, Jesus teve direito a tudo – Teo, Bryan, Naldo, João Pereira, renovação de Slimani e João Mário (e Carrillo, eventualmente), manutenção de todo o plantel e ainda reforço do mesmo. Se não apresentar resultados tem uma atenuante – teve de apostar em portugueses e portanto, passado um ano, já só terão de nascer 9 vezes. Se ganhar é o rei da selva e dêem uma poltrona ao mister que ele bem a merece. Curioso verificar as comparações com o Sporting dos últimos anos quando as condições são abismalmente diferentes.

 

benfica

Por fim o SL Benfica. Acabaram o ano a gritar “o Campeão voltou”. Mas agora que iniciou a época anda tudo à sua procura. Rui Vitória pensava ter o Monte Olimpo para escalar. Mas quando se depara com o estágio na América, a perder Lima e sem reforços à vista, percebeu que afinal tem o Evereste à sua frente, sem direito a máscara de oxigénio. A situação alterou-se com a chegada de Mitroglou e Jiménez, mas continua a faltar Meli e um lateral esquerdo que convença as hostes benfiquistas que este ano não será um passeio da vergonha. E Vitória já foi apresentado há 2 meses…

 

Agora, prognósticos? Para mim será, finalmente, a Liga Normal! Porquê?

Porque a luta é a três, ao contrário do que aconteceu nos últimos 6 anos. Porque não há dois, mas sim três candidatos como é normal. Esta celeuma toda à volta da luta a três a mim surpreende-me uma vez que é assim que devia ser. SEMPRE. Agora vamos descansar. O texto é longo e as piadas são fracas. Mas dos fracos não reza a história, e os mais fortes vêem-se dentro de campo. E já hoje. Os rituais voltaram, e o Nosso Amor também.

Boa época a todos.

 

Mauro Saraiva

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE