December 15, 2017

 

O mercado de transferências mais louco e gastador de que há memória finalmente terminou. Para que se tenha noção da barbaridade dos montantes envolvidos, três jogadores foram transferidos por mais de 100 milhões de euros. Até então, apenas dois haviam movimentado tais valores: Bale e Pogba. Mas, mais do que falar de Neymar ou da força que o PSG aparenta, assuntos já exaustivamente debatidos e escrutinados, importa partir das outras duas transferências “cem-milionárias”, dos franceses Dembélé e Mbappé, aqui tomadas como exemplo, para atentar sobre um fenómeno que tem passado um pouco ao lado do deslumbramento efémero que, ano após ano, durante o defeso, tolda os fãs: o crescente número de jogadores talentosos a aterrar nos tubarões europeus antes de atingir todo o seu potencial futebolístico.

 

 

Dembélé e Mbappé são apenas o culminar de um novo paradigma que parece conduzir os destinos das melhores equipas da Europa: tentar garantir o mais cedo possível as maiores promessas do futebol mundial. Ora, eu ainda sou do tempo em que a norma era os melhores jogadores chegarem aos clubes mais poderosos depois de comprovar a sua capacidade de se afirmar no imediato, e não antes – ou ao fim de uma época, ou meia época, como é o caso dos jogadores acima citados. Não está a ser colocado em causa o potencial de ambos os futebolistas. O que se questiona é se realmente justifica esta sofreguidão pela caça às promessas, quando, nos dias que correm, o potencial está tão ou mais caro que a certeza (o que, por si só, é também preocupante, e daria pano para outro texto). Mais do que alertar para os ouvidos moucos da UEFA sobre o fosso enorme que separa os tubarões dos restantes emblemas do velho continente, está aqui em causa algo muito mais elementar: proporcionar aos atletas um ambiente saudável e sustentável para o seu desenvolvimento desportivo – e isso leva tempo.

 

Precisamente tempo é coisa que estas equipas não têm – exige-se constantemente resultados para ontem. Por outras palavras, não há tempo a perder a potenciar talentos! Temos então a contradição fundamental em que se baseia este vírus: por um lado, o poderio financeiro faz com que, com maior ou menor dificuldade, estes clubes acabem por conseguir os jogadores jovens que bem entendem, e por motivos que muitas vezes não se entendem (por vezes é só mesmo para não deixar escapar determinado talento ou para o desviar dos rivais, sem que haja qualquer plano de integração previamente pensado). Por outro lado, a necessidade de resultados imediatos não combina com o desenvolvimento de jovens, o que leva a situações limite como a do Chelsea e a sua fábrica de emprestados talentosos, da qual tem feito um aproveitamento praticamente nulo.

 

A caixa de pandora, no que diz respeito a valores absurdos pagos por jovens que pouco provaram ao mais alto nível, abriu-se talvez com o francês Anthony Martial, que se transferiu para o Manchester United em 2015, à data com 19 anos, proveniente do Mónaco, por cerca de 50 milhões de euros. Passaram-se, entretanto, duas épocas, e continua por vislumbrar a afirmação deste extraordinário talento, por muitos considerado tão bom ou melhor que Mbappé. Trata-se de um dos muitos casos paradigmáticos de jogadores talentosos aliciados precocemente pelos maiores clubes do futebol europeu que, por dar o salto antes de consolidar o seu talento, até ver, se perdeu. Os grandes portugueses, que à escala europeia são bem pequeninos, também não escapam a esta síndrome: desde André Silva a Gonçalo Guedes, passando por Renato Sanches, todos eles, passe a gíria futebolística, ao fim de “meia dúzia de chutos na bola” cá em Portugal, saltaram de imediato para clubes de maior nomeada, em vez de ficarem mais um ou dois anos e, aquando da saída para um clube maior, estarem certamente mais capazes de se afirmar como titulares indiscutíveis – ao invés de andarem a aquecer o banco, como tem acontecido com André, ou a bancada, como aconteceu com Gonçalo e Renato na temporada passada.

 

 

Obviamente, os maiores talentos acabarão sempre, com naturalidade, por jogar nas maiores equipas. E, logicamente, há exceções à regra, como os casos de Cristiano e Messi, que desde muito jovens se conseguiram afirmar em colossos mundiais. É igualmente defensável e legítimo contra-argumentar que tanto há colossos que fazem uma gestão danosa dos seus jovens, como o já referido Chelsea, como outros que são capazes de garantir espaço de afirmação para os seus talentos, como em tempos foi o Barcelona e atualmente é o Real Madrid. Porém, a situação mais normal é que os jogadores precisem de tempo para errar, para trabalhar o seu potencial, para crescer mesmo enquanto pessoas (porque são humanos que jogam o jogo), de forma a não correrem o risco de sucumbir à pressão quando chegarem a um clube de topo. Os contraexemplos não são mais que exceções que só confirmam o padrão: os maiores clubes são, neste momento, paradoxalmente, os maiores incineradores de talentos do futebol mundial.

 

À margem de toda esta situação, a UEFA, do alto do seu poder inconsequente e submisso aos interesses económicos, vai atirando areia para os olhos dos clubes mais pobres com a treta em que redundou, sem surpresa, o fair-play financeiro, ao mesmo tempo que esfrega as mãos de contentamento (e de euros) com os contratos televisivos da Liga dos Campeões, enquanto aplaude os repetitivos finalistas e semifinalistas da mesma. Infelizmente, a selva em que se tornou o mercado já não pode ser corrigida apenas com medidas superficiais, e mesmo a já proposta limitação do número de jogadores nos quadros dos clubes se revelaria uma medida insuficiente para travar esta voracidade dos colossos em garantir tudo o que mexe. Exigem-se medidas drásticas, que passem por reequilibrar os orçamentos dos clubes, de maneira a que estes sejam capazes de manter os seus talentos por mais tempo, não coarctando assim as suas potencialidades enquanto futebolistas, ao dar um salto maior que a perna.

 

Por fim, resta desejar que tanto Dembélé como Mbappé “partam tudo” nos seus novos clubes, que cumpram com todo o imenso potencial que possuem, e que contrariem o que tem sido esta recente triste tendência. Contudo, independentemente de tal acontecer ou não, o ponto de retorno vai-se distanciando dia após dia, pelo que urge parar de se queimar uma dúzia de promessas para se aproveitar uma.

 

 

João Mendes

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE