December 10, 2018

 

Título original: He Got Game (EUA – 1998)
Realizador: Spike Lee
Argumento: Spike Lee
Protagonistas: Denzel Washington, Ray Allen, Rosario Dawson, Milla Jovovich


Ray Allen reformou-se. Pode parecer uma evidência para muitos, já que há 2 temporadas que não era visto nos terrenos da NBA, mas só agora, a 1 de Novembro de 2016 é que Walter Ray Allen Jr., escolhido em 5ª posição do Draft de 1996 pelos Minnesota Timberwolves e imediatamente enviado para os Milwaukee Bucks, deu como definitivamente encerrada a sua carreira profissional. Apesar de não ser o nome mais sonante do basket da sua geração (que conta com Allen Iverson, Kobe Bryant, Steve Nash, saídos do mesmo draft), foi certamente um dos jogadores com mais sucesso, acabando a carreira com dois títulos da NBA, 10 participações no All Star Game, uma vitória no concurso de triplos e o recorde de número de triplos marcados durante a carreira, fazendo dele o artilheiro mais eficaz da história da Liga de trás da linha; com a Selecção americana ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000. Ray Allen ficará na história da NBA como um excelente atirador, e um excelente jogador com uma ética de trabalho exemplar.

 

Mas um elemento muito particular do seu legado não veio dos campos da NBA. Foi realizado em 23 dias durante o verão de 1997, e veio a conhecimento do público em maio de 1998 sob o título “He Got Game”. Um filme escrito e realizado por Spike Lee, um apaixonado por Nova Iorque e por basquetebol. Não foi o primeiro jogador da NBA a enveredar pelo cinema (Dr. JKareem Abdul JabbarShaquille O’NealMichael Jordan já tinham passado por aí, com resultados mais ou menos convincentes), mas Ray Allen foi, na minha opinião, o melhor que se viu no grande ecrã.

 

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Ray Allen, Spike Lee e Denzel Washinton encontram-se anos mais tarde numa visita dos Miami Heat ao Madison Square Garden. O realizador tem vestido a camisola de Jesus Shuttlesworth

 

O filme relata a história de Jesus Shuttlesworth, aluno de high school e o mais promissor jogador de basket do país, que deve escolher a universidade na qual pretende continuar o seu percurso escolar e desportivo. Submetido a inúmeras pressões (colegas, amigos, treinador, namorada, família), Jesus debate-se em paralelo com um drama familiar que volta à tona com o súbito reaparecimento do seu pai, Jake, condenado a vários anos de prisão pelo assassinato da sua mãe. Neste drama intimista, Spike Lee filma com bastante justeza os meandros do desporto “pré-profissional” nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que ajuda a perceber o quanto pode pesar para um jovem de 17 ou 18 anos carregar as expectativas de toda uma família / bairro / cidade/ estado. Mostra-nos o desporto como um escape, como um parêntesis encantado num mundo cuja realidade pode por vezes ser cruel.

 

Spike Lee abre com uma magnífica sequência de jogadores solitários a treinar em diferentes pontos do país. Um jogador, uma bola, um cesto. Seja numa quinta em Indiana, num terreno baldio com um cesto improvisado e Nova Iorque em pano de fundo, à frente da garagem de uma confortável moradia nos subúrbios, num playground no coração da selva urbana de Chicago ou no pátio da prisão de Attica, a paixão pelo jogo transborda. E de um passamos a dois jogadores, de dois a um jogo, duas equipas, na rua, num ginásio, adultos, crianças, homens, mulheres. A música de Aaron Copland, tocada pela London Symphony Orchestra, serve de fio condutor a todas as cenas de jogo, seja a de abertura ou as dos desafios entre Jake e Jesus Shuttlesworth, no presente ou no passado, assim como a todas as cenas onde o lado mais sensível do espectador é posto à prova. O que contrasta com o rap de Public Enemy, que se ouve ao longo do filme em cenas mais triviais, mais brutas, cruas e nuas.

 

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A capa do single dos Public Enemy que figurou na banda sonora do filme

 

Passamos da poesia à rudeza, da harmonia do jogo ao caos da vida quotidiana. E acabamos por nos identificar com Jesus, querendo ficar presos nas magníficas cenas de jogo, longe das pressões, dos conflitos, das dúvidas, das decisões. He Got Game é, a muitos títulos, uma referência do género de filme desportivo, pois trata com sensibilidade assuntos com os quais o grande público não-americano só está confrontado uma vez a cada geração, com o aparecimento de um jovem prodígio que ultrapassa fronteiras. Aliás, em muitos pontos esta história é bastante próxima da de LeBron James, que passou do high school para a NBA em 2003, sem passar por nenhuma universidade. No filme, a jornalista desportiva Robin Roberts até se refere a Jesus como “The Chosen One”, uma alcunha da qual se apropriaria LeBron James alguns anos depois. Life imitates art imitating life…

 

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Denzel Washington no papel de Jake, o pai de Jesus que sai da prisão para o influenciar na escolha da equipa que irá representar no futuro

 

O pai que empurra Jesus desde pequeno, treinando-o até ao limite, pressionando-o a ser sempre melhor que os outros, os agentes que querem fazê-lo assinar um contrato para o prender, as universidades que esperam atraí-lo com benesses, prendas e promessas que podem pôr a perder tudo (pois é ilegal um atleta do secundário aceitar prendas como meio de pressão para o “orientar” nas suas escolhas), a família que começa a gastar dinheiro que ainda não tem com base na perspectiva de um futuro brilhante (mas incerto, pois o sonho pode-se tornar num pesadelo com uma simples lesão), o círculo íntimo que tenta usar da sua influência para orientar o jogador naquela que todos repetem que será “a decisão mais importante da sua vida”…

 

Se Ray Allen foi tão bom a interpretar este papel, talvez tenha sido porque aos 22 anos, na altura em que filmou He Got Game, esse percurso ainda estava bastante fresco na sua mente. Tinha acabado de jogar a sua primeira temporada na liga profissional. O mais caricato é que Spike Lee inicialmente tinha convidado Kobe Bryant, o rapaz maravilha do momento, para ser o protagonista do filme. Kobe já tinha uma pequena experiência como actor na série Moesha, onde contracenava com a cantora Brandy Norwood, logo, parecia ser a pessoa ideal para o papel. Mas o Laker, que, como Ray Allen, tinha acabado de jogar a sua primeira temporada NBA, decidiu passar o verão a trabalhar no seu jogo, após a eliminação da sua equipa pelos Utah Jazz, na altura uma das melhores equipas da liga. E assim foi que Ray Ray herdou o “bebé”, e aceitou sem pestanejar!

 

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Ray Allen com o jersey #34 do Lincoln High School, a camisola do seu alter-ego

 

Apesar de a sua vida familiar ter sido muito diferente da de Jesus Shuttlesworth, o episódio desportivo terá sido bastante similar. Allen conseguiu, sem nenhuma experiência como actor, interpretar os conflitos de um filho que odeia o pai, mas ao mesmo tempo lhe deve a paixão pelo jogo e a ética de trabalho que faz dele uma estrela montante; a sua performance, num filme onde o amor pelo basket e a história contada estão em perfeito equilíbrio (o que nem sempre é fácil de obter, sobretudo com actores-jogadores), valeu-lhe os aplausos da crítica e conferiu ao filme o estatuto de clássico do cinema desportivo. A performance do jovem jogador quase suplantou a do veterano Denzel Washington (que, por sua vez, se esmerou por apresentar o seu melhor basket diante das câmaras).

 

Para os fãs da modalidade, este filme é, além de uma crónica muito bem composta, um autêntico Who’s Who do basket americano dos anos 90, com participações de treinadores, jogadores e comentadores reais. Rick Fox, na altura jogador dos Los Angeles Lakers, interpreta o papel de um jogador universitário que tenta convencer Jesus a juntar-se a ele. Michael Jordan, Charles Barkley, Reggie Miller, Shaquille O’Neal, algumas das maiores estrelas do basket na altura, vieram testemunhar, em jeito de entrevista, a sua admiração pelo promissor Shuttlesworth. Dean Smith, Rick Pitino, e outros treinadores da NBA ou do campeonato universitário prestaram-se ao jogo, teceram enormes elogios a Jesus, e em determinado  momento podia-se confundir a personagem com o jogador real.

 

Felizmente, Ray Allen foi também coroado de sucesso na sua carreira, como referi no início. O que torna mais fácil (re)ver este filme, 18 anos depois, e imaginar que o percurso de Ray e o de Jesus se confundem. A carta que escreveu para o The Player’s Tribune, “Letter to My Younger Self”, podia ter sido escrita não para o Ray de 13 anos, mas para o Jesus de 13 anos. Podia ter sido escrita pelo seu pai, Jake, e à diferença de alguns detalhes da vida privada, podia ter servido de guia, de motivação para ele e para qualquer jovem apaixonado pelo jogo, e disposto a dar tudo para realizar o seu sonho. É fantástico constatar a que ponto hoje, 18 anos depois, o filme mantém a sua relevância, e continua a fazer eco aos sonhos, aspirações e frustrações de milhões de crianças, não só nos Estados Unidos, mas no mundo inteiro, que sonham em um dia pisar a madeira de um campo da NBA com o seu nome numa camisola. Tal como o fez o Ray Allen durante a sua longa e impressionante carreira. Tal como imaginamos que Jesus tenha igualmente feito. Aliás, reza a lenda que, há duas temporadas atrás, foi visto um jogador com o número 34 dos Miami Heat a jogar com o nome J. Shuttlesworth nas costas…

 

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Ray Allen usou esta camisola por duas vezes em 2014 ao serviço dos Miami Heat e pode ser adquirida AQUI

 

Ricardo Glenn Baptista

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