December 8, 2019

A minutos do mais apaixonante torneio de ténis dos Quatro Magníficos, pairam tantas dúvidas como bolas no ar: conseguirá Nadal debelar os problemas físicos que lhe têm minado o regresso ao topo? Confirmará Djokovic o seu início de época de sonho? O que podemos retirar dos primeiros títulos de Andy Murray em terra batida? O Entre vai de volley a estas e outras questões, se não chegar lá não tem problema. Egalité no seu serviço.

 

Nada como introduzir Roland Garros falando de igualdade. Foi o primeiro torneio a abrir as portas a jogadores profissionais e amadores, em 1968 (curioso o ano). Foi também o primeiro ganho por atletas de origem Africana (Althea Gibson em 1956 e Yannick Noah em 1983). Foi o primeiro a introduzir a terra batida no circuito Internacional (1928) e, ao contrário do que muitos pensam, Roland Garros nunca na vida jogou ténis (agora passamos da igualdade para a aviação, o Entre também sabe fazer lobs), foi antes um piloto de caças durante a I Guerra Mundial e o primeiro Europeu (nascido em Reunião, um daqueles apartados Franceses espalhados pelo Índico) a fazer a travessia aérea do Mar Mediterrâneo.

 

Roland_Garros

 

Cheio de sangue na guelra (há quem diga que não era grande piloto, ainda assim abateu quatro aviões Alemães, vão lá vocês tentar fazer melhor, ainda por cima na I Guerra…), Roland Garros não se ficou por aqui, criou também um sistema que lhe permitia disparar através das hélices dos aviões, revestindo-as de placas de metal. No fundo, Roland era um doido. Um doido que ficou na História por ir de nariz espetado a disparar contra os Alemães. E quem conhece um Francês ou dois sabe como eles gostam de quem trata assim essa gente.

 

Feitas as apresentações para quem achava que Roland era apenas um parolo de raquete de madeira na mão e cabelo arranjado à la Marion Cottilard, vamos agora falar de jogadores. Uma escovadela rápida por 2014 permite-nos ver que houve ar fresco pelo top-10, com dois outsiders dos Fab Four (Djokovic, Federer, Murray, Nadal) a sagrarem-se vencedores de Slams que não o Francês: Wawrinka levou o caneco Australiano e um surpreendente Marin Cilic conquistou o USOpen. Entretanto, outras revelações da próxima geração disseram presente a jogar contra os ‘papa-Slams’ do costume (incluímos Murray não porque tenha dois Slams, é mais pela medalhinha nos Jogos Olímpicos): jogadores como Nick Kyrgios (finalista vencido do Portugal Open 2015), David Goffin, Grigor Dimitrov, porque não Borna Coric (o mais jovem tenista de sempre a integrar o top-100, 18 anos de idade, actualmente #54 do Mundo).

 

Bem, quatro ases na mão. Quem é que vai chegar à finalíssima e fazer como Rafa, na sua primeira vez, em 2005? Comecemos pelos virgens no torneio, Andy Murray e Novak Djokovic.

 

 

ANDY MURRAY

 

murray-and-nadal-008

 

É uma imagem que raramente se vê. Murray a dar pauladas em jogadores do top-10 em terra batida. Só o tinha feito por uma vez antes de marrar no maiorquino na final do Masters de Madrid. Para rever e apreciar:

 

 

O Escocês já foi semi-finalista em Roland Garros e se continuar a jogar desta forma merece um daqueles Un Certain Regard que se dá em Cannes.

Parece mais solto em courts e menos à espera de iniciativa do lado de lá da rede. O primeiro serviço está forte, a abertura de ângulos é uma cena que agora lhe assiste (um estilo de jogo a que Nadal está habituado mas que lhe causa alguns problemas quando lhe castigam ‘desmasiado’ a esquerda) e parece que temos um forte candidato a chegar bem longe no Frenchie.

Claro que, como falamos de Murray – o jogador com melhor toque de bola do circuito a seguir a Federer -, já sabemos como funciona aquela cabecinha. Ainda esta semana retirou-se do Masters de Roma alegando “fadiga” (já que começou finalmente a ganhar títulos em terra batida, porque não capitalizar o momento?!) levando com comentários da blogosfera do calibre de “Lazy Scot” ou “Naughty Moany McMoanbag!”.

 

Se se concentrar menos nesta imagem…

 

Andy-Murray-008

 

e mais nesta

 

murray001

 

confiamos que o Escocês terá tudo o que é preciso para ser feliz em Roland Garros.

O jogo sempre esteve lá. Que tal, Andy? Será desta?

Por isso não percam o próximo Grand Slam “porque nós… também não!”

 

NOVAK DJOKOVIC

 

Djoker tem estado intratável desde o final da época passada (provavelmente não achou muita piada a uma final do USOpen disputada entre Cilic e Nishikori) e este 2015 tem sido um “fartar, vilanagem” de títulos por aqui e por ali. Em 34 jogos perdeu apenas dois, conquistando Indian Wells, Miami e Monte Carlo (neste último Nadal coleccionou mais uma paulada em terra batida).

O problema com Novak Djokovic, actual líder do ranking Mundial (a discussão andará ali mais entre o #2 e o #3, com Murray a ameaçar um pouco mais o topo da pirâmide), é que quanto mais confortável se sente no trono e mais favoritismo lhe dão, pior se torna o seu ténis. O nervosismo vem ao de cima e a apatia toma conta do seu jogo. Ele sabe, bem melhor que nós, o quão importante será conquistar Roland Garros este ano.

 

 

Com Nadal a lutar por regressar à melhor forma, com Murray como grande amigo cujo jogo conhece de ginjeira e com Roger Federer a dar os cartuchos que restam por um último Grand Slam ao sol, Djokovic tem uma oportunidade de ouro de perder o cabacinho na rainha das superfícies, naquela que melhor se adequa ao seu estilo de jogo (por mais que digam que hard court é a sua casa, Nole seria um habitual vencedor de Roland Garros não estivesse no seu caminho Nadal; se chegaria ou não à palette de títulos de Borg isso já são contas de outro rosário).

A terra batida castiga os jogadores de serviços fulminantes (“alô Telemarketing daqui fala Sampras”; “prima 2 para falar com Andy Roddick”) e leva o físico dos tenistas ao limite. Dominar como nunca o fundo de court (escola Espanhola) sobrepõe-se e muito a um ténis mais técnico (escola Francesa) ou directo (escola Americana). Há uns anos, houve um exercício interessante chamado Battle of Surfaces que espelha bem o grau de exigência desta superfície:

 

 

Djokovic precisará de Roland Garros para se afirmar como #1 absoluto e possível candidato a figurar nos Melhores de Sempre da modalidade? Sampras nunca precisou. E Federer venceu RG com Nadal de malas aviadas por um Robin Soderling que entretanto morreu para o jogo. A discussão poderia durar horas a fio quanto aos critérios mas a verdade é que o Sérvio tem caminho aberto para prolongar o seu domínio em 2015.

Terá de ter em conta as primeiras rondas, nas quais habitualmente joga a meio gás. De resto, não vemos actualmente nenhum jogador (tirando talvez o momento de forma de Murray ou um Federer in the zone) que lhe possa causar grande comichão.

 

ROGER FEDERER

 

 

Longe vão os tempos destes épicos duelos. Arte vs trabalho, génio vs suor. Enquanto Nadal parece pagar a factura de épocas a fio a jogar nos limites, Roger mantém a pura classe, o talento, a finesse em estado puro aos 33 anos de idade.

O título em Istambul frente a Pablo Cuevas foi o primeiro em terra batida desde 2009, ano em que conquistou Roland Garros.

Roger sabe que o relógio não pára e que tem de resolver os jogos rápido mas não será fácil. Tem o público do seu lado (os Franceses adoram Roger, ao contrário de Djokovic, que apenas respeitam), tirando se apanhar um Gael Monfils desta vida.

E, por falar em jogadores da casa, convém sempre espreitar o que Monfils poderá ser capaz de fazer…

 

 

Todos sabemos que Federer ainda é aquela masterclass de ténis quando o jogo está apuradinho. Aquele bailado no compasso certo ninguém acompanha. Aos 33 como aos 18 e até aos 52. Venha quem vier. Mesmo que sue mais um bocado eles vão todos ao chão.

Terá em Djokovic o alvo a abater. E, mesmo que ele deteste ouvir estas coisas, se perder numas meias-finais poderá dar-se por contente porque é sinal que ainda é capaz de oferecer excelente ténis.

N’oublie pas… Roger é o #2 do Mundo.

 

RAFAEL NADAL

 

Para quê deixar para o fim alguém que já venceu por nove vezes RG?

Nem nós sabemos. Afinal, falamos da sua casinha.

 

 

Nadal já esteve sete meses no estaleiro e voltou para conquistar dois Grand Slams e ganhar 65 de 69 jogos. Rafa é assim. Com ou sem a tendinite que o persegue. Com ou sem o tratamento de plasma rico em plaquetas. O Espanhol é sempre mais máquina que homem. O problema é que a máquina também falha e, no caso do Espanhol, ao ritmo físico que ainda parece estar longe do ideal (está lá a sua direita típica e o serviço parece ter melhorado), acresce o facto de mentalmente entrar nos jogos sem o seu intratável espírito guerreiro.

Rafa poderá conseguir a proeza de fazer double digits num só Grand Slam sem falar sequer uma palavra de francês. É de facto incrível.

No resto, pouco mais há a dizer. Nadal conhece os cantos à casa. Aqueles courts têm o seu cheiro.

A questão é que mentalmente débil convida os adversários ao “estou aqui, vence-me por favor”. E isso vai contra tudo aquilo que costumava deixar em court: “estou aqui e se quiseres ganhar esta porra só se me matares”.

 

Prevemos um torneio engraçado para o Espanhol porque vai reencontrar a alegria de jogar na sua zona de conforto. Uma eliminação precoce de Nadal poderia significar a sua queda no ranking para lugares que desconhece.

 

“Como sempre deixámos o melhor para o fim”…

 

 

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Acompanhem o torneio na Eurosport, de 19 de Maio a 7 de Junho

[o autor opta por escrever segundo o Velho Acordo porque o Novo é, pardon my french, para pandulas]

 

Manuel Tinoco de Faria

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