June 18, 2019



É hoje! O dia mais esperado por milhões de fãs de futebol americano, nos Estados Unidos e um pouco por todo o mundo chegou finalmente. Sim, estamos obviamente a falar do Super Bowl LIII, que este ano opõe os New England Patriots aos Los Angeles Rams. Como sempre os nossos dois especialistas na matéria, Pedro Quedas e Nuno Fernandes dão-nos as suas opiniões sobre quem tem o melhor ataque, a melhor defesa, quais as estrelas a ter em conta, o factor X que pode fazer a diferença, e claro, o prognóstico sobre o desfecho final. Ladies and gentleman, get ready to rumble.


QUEM TEM O MELHOR ATAQUE?


Bill Belichick e Tom Brady, a dupla mais ganhadora de sempre da história do Super Bowl


Pedro Quedas: Mais do que olhar para os talentos disponíveis de cada lado, o grande duelo neste lado do campo será estratégico. Os Rams são conhecidos por usarem essencialmente sempre a mesma estratégia, com uma de duas variações. A primeira opção dos Rams é o running game pelas faixas, usando a velocidade e instintos de Todd Gurley (embora essa estratégia tenha uma grande incógnita, sobre a qual falarei mais em baixo). Todas essas jogadas começam com um momento em que o quarterback, Jared Goff, tem a alternativa de colocar a bola nas mãos do running back ou reter a bola para um passe – o que é conhecido como play-action. Como as defesas têm de fechar as faixas ao jogo de corrida, usando os linebackers, isso abre espaço para passes de média distância para os velozes receivers dos Rams. É uma óptima estratégia. Já do lado dos Patriots, a estratégia é simultaneamente mais simples e mais complexa. Por um lado, Bill Belichick vai querer aproveitar as fragilidades dos Rams a defender o jogo pelo chão, com penetrações constantes pelo meio. Se os Rams tentarem colocar mais jogadores no meio, Brady fica com a bola e destrói a defesa com passes curtos – uns atrás dos outros. E o que torna este ataque mais complexo? É que é impossível saber para quem Brady vai passar. Será sempre o que se conseguir isolar – e ninguém o encontra com mais eficiência que o veterano líder dos Patriots. Será um duelo apertado, mas uma das equipas tem o Tom Brady. Vantagem Patriots.


Nuno Fernandes: Ambas as equipas presentes neste Super Bowl têm ataques muito fortes. Os New England Patriots por serem liderados por Tom Brady e os Los Angeles Rams por contarem com Todd Gurley e um jogo em passe capaz de sacar uma big play a qualquer momento. Os Rams foram o segundo melhor ataque da NFL, com médias de 32,9 pontos por jogo e 421,1 jardas. Por sua vez, os Patriots foram o quarto melhor ataque, com 27,2 pontos e 393,4 jardas por jogo. O jogo de ambas as equipas assenta no equilíbrio entre jogo em passe e jogo em corrida. Curiosamente, os Patriots têm mais jogadas em passe e em corrida por jogo do que os Rams, mas a turma de LA consegue em média ganhar mais jardas por tentativa. Isto deve-se ao modelo de jogo dos Patriots ser mais à base do método, passes curtos e precisos, corridas curtas de modo a gerir o ritmo do jogo e a desgastar as defesas adversárias. Brady é mestre a distribuir a bola e o jogo em corrida conta com várias armas, como o rookie Sony Michel, James White e Rex Burkhead. No jogo em passe as opções mais fiáveis continuam a ser Julian Edelman e Rob Gronkowski, ambos em destaque na final de conferência em Kansas City. Do lado dos Rams também há muita qualidade. Brandin Cooks, Robert Woods, Tyler Higbee, o já mencionado Todd Gurley e o quarterback  Jared Goff alimentam o ataque de alta voltagem e a esperança dos Angelinos. Um aspecto a ter em conta é o estado físico de Gurley, que viu a sua utilização em New Orleans muito limitada, embora o running back tenha negado a existência de problemas. No caso da menor disponibilidade de Gurley, avançará C.J. Anderson, que tem estado em alto nível nestes playoffs. Com todo este equilíbrio é difícil dizer qual o ataque mais forte, mas pelos números e pela explosividade, considero o ataque de LA mais capaz, nunca menosprezando Tom Brady.



QUEM TEM A MELHOR DEFESA?

Aaron Donal, o melhor defesa da liga


Pedro Quedas: No que a talento diz respeito, nem sequer há qualquer dúvida. Os Patriots têm jogadores acima da média, como Trey Flowers, Kyle Van Noy, Dont’a Hightower ou Stephon Gilmore. Já os Rams têm estrelas como Aaron Donald e Ndamukong Suh, na linha da frente, e Marcus Peters ou Lamarcus Joyner na linha secundária. Para além de vários jogadores bastante bons como Michael Brockers, Dante Fowler ou Aqib Talib. É um line-up impressionante de talento. Mas uma coisa aconteceu à medida que a temporada foi avançado: a defesa dos Rams foi deteriorando e a dos Patriots foi melhorando. De tal modo que, à chegada a este Super Bowl, estão quase equiparadas. Os Rams têm-se revelado especialmente frágeis a defender o running game adversário, em virtude de apostarem tanto no ataque ao quarterback, principalmente através do imparável Aaron Donald, que abrem brechas para corridas pelo meio e passes curtos para o espaço aberto entre a linha da frente e os linebackers – exatamente o que os Patriots adoram fazer. Já a defesa dos Patriots tem estado simplesmente… a jogar melhor. É mesmo só isso. Fizeram algumas mudanças nos seus esquemas de cobertura aqui e ali, mas o que tem melhorado é simplesmente a execução, ajudando a esconder as deficiências de talento defensivo. Mais uma vez, será uma luta relativamente equilibrada, mas a massiva vantagem de talento dos Rams faz com que eu lhes dê a vantagem neste lado do campo.


Nuno Fernandes: Quem tem um Aaron Donald, tem tudo, certo? Errado. O vencedor do prémio de Jogador Defensivo do Ano é o jogador da liga com mais sacks, mas a disrupção que a sua qualidade provoca não é quantificável só pelos números. No entanto o defensive end não teve muita ajuda durante a época regular, com os Rams a permitirem 24 pontos por jogo e 358,6 jardas. Enquanto isso, New England permitiu apenas 20,3 pontos por jogo, mesmo concedendo 359,1 jardas. Nos playoffs a situação foi mais animadora para os Rams, que sofreram em média 22,5 pontos e permitiram 299 jardas, contra 29,5 pontos e 312,5 jardas. Convém referir que os Patriots defrontaram os Chiefs e conseguiram limitar um extraordinário ataque a 31 pontos, abaixo da média de 35,3 que a equipa de Andy Reid registou durante a fase regular. Na equipa de LA destaco dois jogadores de quem se esperava mais do que produziram: Aqib Talib e Marcus Peters, ainda que o primeiro tenha passado algum tempo lesionado. Do lado de New England, destacam-se Trey Flowers, Kyle Van Noy e Duron Harmon, mas a unidade defensiva dos Pats vale pelo todo e, principalmente, por executar na perfeição o plano de jogo concebido por Bill Belichick para anular os pontos fortes dos opositores. Vantagem New England.


QUE ESTRELAS VÃO BRILHAR MAIS?

Aos 41 anos Tom Brady consolida a sua posição como melhor jogador de sempre da NFL


Pedro Quedas: Tom Brady. Quem vai brilhar mais é Tom Brady. Fim de análise. … … … O quê? Querem mais? Pronto, que seja. A razão porque esta resposta é simples é porque Brady vai ser o ponto focal de toda a narrativa quer jogue bem ou mal. Se os Patriots vencerem, Brady, do alto dos seus 41 anos, conquistaria o seu sexto anel de campeão e, presumivelmente, o seu quinto título de MVP das finais – ambos recordes. Será o cimentar definitivo do seu estatuto como melhor jogador de sempre da NFL. Já para os Rams conseguirem ganhar, a única solução será parar Brady, através de sacks repetidos. Ou seja, o aclamado quarterback estará sempre no centro das atenções neste jogo. Ainda assim, há um jogador nos Rams que poderá assumir o controlo da narrativa (e do título de MVP do Super Bowl) se o jogo lhe correr especialmente bem – Aaron Donald. O explosivo defensive end (que liderou a liga em sacks e é, de longe, o melhor jogador defensivo na NFL) poderá destruir os planos dos Patriots se conseguir perturbar Brady com alguma consistência ao longo de todo o jogo. Se os Rams vencerem, será por causa de Donald.


Nuno Fernandes: Falar de futebol americano e suas estrelas obriga-nos a falar de Tom Brady, o que é um problema, uma vez que já tudo foi dito sobre o quarterback dos Patriots. Aos 41 anos Brady continua igual a si próprio, destruindo equipas adversárias com a frieza e precisão reconhecidas.  Irá disputar o seu nono Super Bowl e tentar conquistar o sexto título! Notável! Do lado de New England destacam-se ainda Julian Edelman, que parece reservar sempre o seu melhor para a fase decisiva da época, Rob Gronkowski, que poderá fazer o último jogo da carreira no próximo domingo e os runningbacks Sony Michel e James White, por onde vai passar muito do jogo atacante dos Pats. Na equipa de Los Angeles o maior destaque (e maior incógnita) é Todd Gurley. Como já mencionei existem questões sobre o estado físico de Gurley que só durante o jogo serão desfeitas. O quarterback Jared Goff teve, ao terceiro ano, a sua melhor época na NFL, com 4688 jardas, 32 touchdowns e 12 intercepções. Mais do que os números, o jogo de Goff tem mostrado a evolução que os Rams esperavam quando seleccionaram o #16 com a primeira escolha do draft de 2016. Para isso tem contado com a imprescindível ajuda dos receivers, principalmente Robert Woods e Brandin Cooks. Na defesa dos Rams, além dos já mencionados Aaron Donald, Marcus Peters e Aqib Talib temos que contar ainda com Ndamukong Suh que, embora com uma temporada irregular, pode ser importante.


QUAL SERÁ O FACTOR X?


Todd Gurley


Pedro Quedas: Por norma, esta categoria é reservada a jogadores um pouco mais desconhecidos com uma importância que nem sempre lhes é reconhecida. Este ano é um pouco diferente. Vou falar de duas estrelas de cujos contributos não sabemos muito bem se podemos contar. Do lado dos Los Angeles Rams, todos os olhos estão virados para Todd Gurley. No jogo anterior dos Rams – uma vitória suada contra os New Orleans Saints – a estrela dos Rams mal jogou, cedendo muitos dos seus minutos ao running back suplente, C.J. Anderson. Muito se especulou sobre as razões para este papel reduzido. Seria lesão? Alguma espécie de questão disciplinar. Segundo todos os relatos “oficiais”, foi simplesmente uma questão de premiar quem estava a jogar melhor, mas, para bem dos Rams, Gurley tem de voltar a encontrar a sua melhor forma rapidamente. Anderson fez um trabalho competente no seu lugar, mas as esperanças do título ir para Los Angeles podem muito bem passar por uma exibição de elite de Gurley. Quando olhamos para os Patriots, temos de falar sobre o que podemos esperar do tight end Rob Gronkowski. Em tempos um dos jogadores mais imparáveis de toda a NFL, The Gronk é agora uma das maiores incógnitas na liga, fruto de anos e anos de lesões que têm limitado o seu potencial. Quando está saudável, Gronkowski é absolutamente incrível. Um monstro físico com boa capacidade de separação e ótimas mãos que os defesas contrários têm enorme dificuldade em colocar no chão. Ainda no jogo contra os Chiefs, quando Brady precisou de fazer um passe difícil para manter os Patriots em jogo, Gronkowski foi o seu alvo – e não desiludiu. Mas quantas vezes poderá Brady contar com ele? Em que condições físicas estará Gronk? Todas estas questões tornam esta ex-estrela um dos maiores fatores de incerteza à chegada à final.


Nuno Fernandes: Um factor que pode desequilibrar este Super Bowl é o desempenho das equipas especiais. Tanto Belichick como Sean McVay já nos habituaram a tirar coelhos da cartola neste departamento. New England terá que ter muito cuidado com os fake punts, uma vez que a equipa da Califórnia conta com Johnny Hekker, antigo quarterback nos tempos da faculdade e que coloca muito bem os passes, em situações de 4º down curto. Do lado dos Patriots a ameaça vem de Cordarrelle Patterson, que se especializou no retorno de kickoffs e de punts. Durante toda a época, incluindo playoffs, foi o único jogador de ambas as equipas a conseguir um retorno para touchdown e é o que consegue ganhar mais jardas por retorno, com 28,8 na temporada regular e 25,8 na fase a eliminar. Do lado de Foxborough é usual existirem também engodos vários, seja uma troca repentina da equipa ofensiva pela equipa especial, seja um snap mais rápido da bola, que tanto podem servir para apanhar o adversário em falta como fazê-lo queimar um desconto de tempo. Nesta área do jogo vamos estar bem servidos também.


QUEM SE VAI SAGRAR CAMPEÃO?

Os New England Patriots têm dominado a liga nos últimos anos


Pedro Quedas: Se estes jogos fossem decididos no papel, não teria grande hesitação em apontar a minha aposta nos Rams. No que a talento diz respeito, não há qualquer dúvida sobre as vantagens da equipa de Los Angeles. Os homens liderados por Sean McVay são mais rápidos e mais fortes em quase todos os sectores do campo. Sou um grande crente na importância de olhar para todas as ferramentas analíticas ao nosso dispor e não confiar apenas na “sabedoria popular”. Dito isso, este é um jogo que poderá muito bem ser decidido pelos intangíveis. Intangíveis como: Será que Jared Goff vai estar à altura do momento, na sua primeira viagem ao Super Bowl? Serão os Rams capazes de perturbar a absurda frieza de Brady nos grandes momentos? Poderá a “fome” dos jovens Rams superar a experiência dos veteranos Patriots? Estou confiante que este vai ser um jogo equilibrado mas, se se verificar um grande desnível na pontuação, tenho quase a certeza absoluta que será para o lado dos Patriots. Por mais fragilidades que o plantel dos homens de New England tenha, o que podem os adversários fazer se os Patriots pura e simplesmente nunca pararem de marcar pontos? Neste domingo, todos os olhos vão estar em Tom Brady. Já cometi o erro, em tempos, de achar que os seus melhores dias estavam no passado, mas gosto de pensar que sou capaz de aprender. Uma vitória dos Rams não me chocaria nem um pouco, mas, até acontecer, este título é de Tom Brady para perder.

Resultado Final: New England Patriots 31 – 27 Los Angeles Rams

MVP: Tom Brady


Nuno Fernandes: E eis que chegamos à pergunta do milhão de dólares! Por tudo o que foi exposto acima a minha escolha vai para os New England Patriots. Não vai ser fácil, como nunca é, mas após a derrota na última época, creio que os Patriots vão ser mais fortes, apostar no jogo em corrida e “comer” muito relógio. Os Rams não têm estado bem a defender o jogo em corrida, o que vai de encontro à força do ataque de New England, com Sony Michel, Rex Burkhead e James White a dividirem o grosso do trabalho. Quando isso estiver implementado, Brady pode abrir o jogo com os passes para as rotas interiores de Edelman e Gronk ou os passes mais longos para Chris Hogan. A fórmula é desgastar a defesa e manter o ataque na linha lateral. Da parte dos Los Angeles Rams a aposta irá ser também no jogo em corrida e estou curioso para ver o que o coordenador defensivo Wade Phillips, veteraníssimo, vai engendrar para enganar BB e Josh McDonalds. O arquitecto da defesa vencedora do Super Bowl 50 pode ter a chave do jogo, caso consiga que a sua linha defensiva assedie com frequência Tom Brady que, não sendo o quarterback mais móvel da NFL, sofre muito se for constantemente pressionado. Ainda assim, ninguém é melhor que o Head Coach dos Patriots a planear e a ajustar (vide Super Bowl LI e jogo em Kansas City, onde anulou quase por completo Tyreek Hill) e este vai ser o sexto anel para Tom Brady.

Resultado final: New England Patriots 31-24 Los Angeles Rams

MVP: Tom Brady

Nuno Fernandes

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