May 22, 2019

A sorte sorri aos audazes. E se há coisa que os Golden State Warriors foram durante a temporada 2014/15, é audazes. Convenhamos que, mesmo com os Cavaliers diminuídos, os Warriors tinham argumentos mais do que suficientes para ganhar a temporada, como acabaram por ganhar. É a meu ver injusto dizer que os rapazes conduzidos por Steve Kerr tiveram apenas “sorte”, como repetiram alguns jogadores da liga este verão. Seria não render justiça ao trabalho de anos levado a cabo por Mark Jackson a construir esta equipa, e sobretudo não respeitar a continuidade e brilhante execução que acabou por lhe dar Steve Kerr, treinador campeão da equipa da Baía de São Francisco.

Stephen Curry, diante das incessantes bocas sobre a “sorte” que a sua equipa teve de não jogar contra os Spurs, de não jogar contra os Clippers nos Playoffs, de jogar contra os Cavs diminuídos nas Finals, respondeu:

“Peço desculpas por termos sido saudáveis. Peço desculpas por termos jogado contra quem nos apareceu à frente. Peço desculpas por todos os elogios que recebemos, colectiva e individualmente. Peço as minhas mais sinceras desculpas por tudo isso, e vamos tentar rectificar essa situação este ano.”  

A resposta do capitão e líder dos Warriors foi bastante sarcástica, mas exprime todo o sentimento de injustiça de uma equipa que trabalhou imenso para chegar onde está, e hoje ouve por todo o lado que foi mera “sorte”. Se queremos contrariar o argumento da “sorte”, os dados falam por si, os números falam por si, e em tão grande e pomposa maneira que só um cego não vê que os Golden State explodiram com tudo na temporada passada. Ora vejamos:

 

Os Golden State Warriors Ganharam mais jogos durante a temporada regular do que qualquer outra equipa em 2014-15

 

O argumento pode parecer ligeiro, mas é importante  em todos os sentidos, e isto por duas razões essencialmente:

  • Os Warriors evoluem na conferência Oeste, que é bem mais difícil e disputada que a Este. Enquanto que os Cleveland, com mais ou menos esforços, estão quase assegurados de chegar às finais de Conferência no Este, o Oeste é um autêntico ninho de cobras, onde cada adversário é mais perigoso que o outro. O facto de Golden State jogar apenas dois jogos por ano contra cada equipa da conferência Este torna isto ainda mais impressionante. A maioria dos seus triunfos foram conseguidos contra as fortes equipas da sua Conferência, contra quem jogou 3 ou 4 vezes na temporada!
  • Os Warriors ganharam 67 jogos e perderam apenas 15. Por assim dizer, ficaram a 5 vitórias do histórico 72-10 dos Bulls mais incríveis que já se viu. Se o 72-10 é uma marca mítica, que precisaria de uma equipa quase perfeita para o bater, a proximidade de Golden State este ano  faz nos dar valor ao desempenho da equipa, e do seu treinador, que viveu a aventura 72-10 como jogador. Coincidência? Talvez. Sorte? Permitam-me duvidar um bocado.

Assim sendo, os únicos confrontos directos entre Cleveland e Golden State durante a temporada regular são irrelevantes. A 9 de Janeiro de 2015 os Golden State ganharam por 112-94 em casa, e a 26 de Fevereiro foi a vez dos Cavs de levar a vitória por 110-90. Não há grande informação a tirar daí, senão que cada uma das equipas conseguiu tirar o melhor partido do seu público e da vantagem de jogar em casa. Neste particular, Golden State foi mais uma vez a melhor equipa da Liga, perdendo apenas dois jogos em casa em toda a temporada. durante os restantes 39, a Oracle Arena foi uma fortaleza inexpugnável, onde os adversários sofreram a dura lei dos guerreiros.

 

Os Golden State Warriors foram a Melhor Equipa Defensiva da Liga em 2014-15

 

Para quem viu esta equipa evoluir em 2014-15, isto é tudo menos uma surpresa. Se com Mark Jackson a equipa começou a construir a sua identidade ofensiva, com Kerr afinou-a e consolidou a identidade defensiva, uma necessidade crucial para se tornar uma equipa vencedora. E assim o fizeram. A ajuda defensiva, as mudanças rápidas e constantes de jogadores para se desembaraçarem de ecrãs, a comunicação em campo são sectores em que os Warriors evoluíram bastante esta temporada, e o resultado está à vista:

 

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Golden State foi a equipa que concedeu menos pontos em 100 posses de bola na temporada 14-15. 98,2 pontos. Foi a aprender a ser solidários e a antecipar melhor as movimentações dos companheiros que os Warriors conseguiram de facto fechar a fortaleza. Quando todos os jogadores em campo se mantêm alerta e bastante móveis em fase de defesa, a coesão aumenta; quando todos os jogadores que saem do banco conhecem a sua missão, e mesmo num dia mau ofensivamente, conseguem manter a teia defensiva fechada, a equipa melhora as chances de ganhar; quando Draymond Green vem servir de tampão, consegue defender tanto no interior (sempre com ajudas quando o match up lhe é muito desfavorável) como no perímetro, e nenhum jogador fica apenas a olhar para os outros enquanto o adversário desenvolve o seu ataque, o resultado assemelha-se muito a isto:

 

 

 

Os Golden State Warriors foram a segunda Equipa Mais Ofensiva da Liga em 2014-15

 

Screen Shot 10-27-15 at 03.23 PM

 

Se olharmos para o quadro, vemos que só os Clippers tiveram melhor desempenho ofensivo, com 109,8 pontos marcados por 100 posses de bola. Os Warriors seguem de muito perto, com 109,7. Este fenómeno não há de ter escapado aos mais atentos de entre vós. Esta equipa passou de ter dois excelentes atiradores a uma equipa que podia fazer nascer o perigo ofensivo de qualquer lado, de qualquer jogador! 9016 pontos marcados. 883 dos quais foram triplos. Faz uma média de 110 pontos marcados, e 10,8 triplos por jogo (só os Houston Rockets fizeram melhor em termos de triplos, com 11,4 por jogo). E para os amantes de gráficos bonitos, eis uma visualização rápida do que foram os ataques bem sucedidos dos Golden State durante a temporada:

 

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(Clique na imagem para ampliar)

 

Esta bonita nebulosa dá-nos uma ideia das principais forças ofensivas dos Warriors, não explica quão bons eles foram este ano a trocar a bola, a posicionar-se em campo, a criar jogadas que libertassem 2 ou 3 jogadores para a estocada final. Os GSW foram autênticos Spurs, mas com percentagens de lançamento exterior completamente fora deste planeta. Quando vemos o quão bom foi o Draymond Green atrás da linha (33,7%), sendo ele um power forward que em fase de small ball até como poste jogou…

A verdade é que Golden State foi a equipa com o banco mais profundo da liga, e cuja rotação funcionou melhor. Isto deve-se muito à capacidade do treinador Kerr de acreditar na sua filosofia de jogo, variando as tácticas. O lançamento de três pontos foi uma arma essencial, mas não foi de todo a única usada por Kerr. As variações de ritmo foram constantes durante os jogos, e os jogadores que se revezavam pouco ou nada faziam descer o rendimento geral da equipa, permitindo-lhes alcançar os números que já referimos. E quando se conjuga ataque e defesa com esta mestria, o resultado acaba por pagar.

 

2014-150_GSW_Shooting_Chart

(clique na imagem para ampliar)

 

Um pequeno exemplo: nos dois jogos que Golden State perdeu (Game 2 e Game 3), Andrew Bogut, o poste de 2,13m de Golden State, marcou 2 e 4 pontos respectivamente. No fim do Game 3, Kerr senta Bogut e avança para o small ball: Steph Curry, Klay Thompson, Andre Iguodala, Harrison Barnes e Draymond Green. Esta formação muda completamente a fisionomia do jogo, e apesar da derrota, Golden State quase recupera de um défice de 20 pontos, perdendo por 96-91 apenas. No Game 4, Iguodala é promovido a titular, e desde então, não só Cleveland não voltou a ganhar, como as vitórias dos Warriors se tornaram francamente expressivas: 103-82, 104-91, 105-97.

 

Nos dois últimos jogos das Finals, os Cavs jogaram apenas com 8 jogadores. E quando Golden State passou para uma unidade mais pequena, Cleveland  deixou em jogo Timofey Mozgov, Tristan Thompson e LeBron James para tomar conta dos pequenos interiores móveis e assassinos dos Warriors… O desgaste destes jogadores foi evidente e pagou-se com as derrotas que se seguiram.

Quando temos o match-up Timofey Mozgov (2,16m) x Draymond Green (2,01m), e tendo em conta a capacidade do pequeno interior dos Warriors a lançar do perímetro, muitas jogadas de Kerr tinham como objectivo manter o gigante russo fora do garrafão. Uma vez alcançado isto, Curry tinha mais facilidade de penetração, e quando a defesa fechava, tirava a bola para Klay Thompson ou Iguodala, que com este simples esquema se tornou MVP das Finals. David Blatt não conseguiu contrariar este plano tão simples, pois não tinha os jogadores para igualar o small ball, e não conseguiu apostar em mais tamanho para asfixiar o interior, pois teria transformado as Finals em concurso de triplos para os Warriors. E caso Cleveland tivesse contrariado o small ball com mais tamanho, Golden State teria sempre um maior número de interiores disponíveis para provocar as faltas e sentar os adversários.

LeBron foi até ao limite do humanamente possível, depois de uma longa temporada onde não foi tão poupado quanto gostaria, e de playoffs onde perdeu os seus dois principais companheiros de ataque, Love e Irving. Mas o que Golden State fez ofensivamente durante toda a temporada, repetiu-o com toda a sua classe durante os Playoffs, adaptando-se ao adversário para o vencer com autoridade e segurança, fosse contra os Memphis Grizzlies, os Houston Rockets ou os Cleveland Cavaliers.

 

Para concluir, acho que todas as equipas precisam de sorte para conquistar qualquer coisa. A sorte de se manter em boa saúde. A sorte deter um adversário que tem um rendimento inferior ao que se espera. A sorte de se sair bem num jogo decisivo em que não se está tão bem. Mas a sorte é um elemento aleatório demais para explicar TODO o sucesso dos Warriors, durante a temporada regular ou durante os Playoffs. Eles trabalharam MUITO, quiseram MUITO e fizeram MUITO para levar para casa o troféu Larry O’Brien. Fizeram a melhor temporada de todas as equipas, o que lhes deu a possibilidade de enfrentar o oitavo qualificado da Conferência na primeira volta dos Playoffs, e de ter home court advantage contra absolutamente TODOS os adversários. Isso não foi fruto de sorte, mas de trabalho. E é isso que a história deve reter deste ano de 2015. Isso e os números históricos que esta equipa acumulou, o profissionalismo com que encarou cada jogo, a solidariedade de que souberam dar prova quando chegou o momento de vencer juntos. Esqueçam tudo o resto. Os Warriors 2014/15 são desde já uma das melhores equipas da história da NBA. Para o resto… Olha, desejemos melhor sorte aos outros, e sobretudo aos que cruzarem o seu caminho esta temporada, pois são os que mais vão precisar dela…

 


 

Fontes de estatísticas: www.stats.nba.com, www.basketball-reference.com, www.espn.go.com/nba, www.grantland.com

 

 

Ricardo Glenn Baptista

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