December 8, 2019

Qualquer fã de basket regurgita uma quantidade de estatísticas n vezes superior ao fã de futebol. Todo o mundo sabe disso. No futebol contam-se os golos, assistências, faltas, duelos ganhos, e pouco mais. No basket temos os pontos, percentagem de lançamentos, percentagem de triplos, percentagem de lances livres, ressaltos (ofensivos e defensivos), assistências, roubos de bola, perdas de bola, bloqueios… enfim, temos de saber tudo e mais um par de botas. Literalmente. Para quem não tem coragem de ver jogos de madrugada, ou para os que só conseguem ver dois ou três numa noite, a tabela das estatísticas é uma boa maneira de ver “como correu o jogo”. Uma vista de olhos aos highlights, às estatísticas, e estamos habilitados a falar do jogo como se o tivéssemos vivido intensamente. Mas como é de esperar, as estatísticas não dizem tudo, por mais completas e minuciosas que sejam. Não podemos resumir uma modalidade como o basket a números, mesmo se no fim, são eles que ficam para a história. Para ilustrar o que digo, um  exemplo mais do que eloquente é o que segue:

 

– As stats do Derrick Rose na vitória de Chicago contra Golden State (terça feira 27 de Janeiro de 2015)

Depois de dois anos “de molho”, de um verão balbuciante com a Team USA, Derrick Martell Rose voltou aos seus Bulls na posição de El Rey D. Sebastião, o esperado herói que é suposto levar os seus à terra prometida…  Tal profeta bíblico, o base de Chicago procura desde o início da temporada a melhor maneira de conduzir o seu rebanho, de lhes incutir fé no objectivo supremo, de lhes fazer sentir que está de volta como em 2011. A organização dos Chicago Bulls também o ajudou bastante na tarefa, recrutando inteligentemente (bye-bye Boozer, hello Gasol, Mirotic e McDermott vindos do draft e trade respectivamente). Bom cinco com Jimmy Butler a fazer a sua melhor temporada em carreira, Taj Gibson fiel ao posto como sempre, Noah com altos e baixos, mas a responder presente sempre que pode, as condições estavam reunidas para que Rose voltasse com o mínimo de pressão possível, e o máximo de margem para voltar ao seu rendimento habitual.

 

Nesta temporada, Rose  só ficou abaixo dos 10 pontos 4 vezes nos 36 jogos em que participou. Chicago perdeu os quatro jogos. Por outro lado, das 14 vezes em que marcou 20 ou mais pontos, os seus Bulls ganharam 11. Podemos dizer que Chicago beneficia de um Derrick Rose forte a nível de scoring. Neste contexto, vejamos as estatísticas de Rose no jogo contra Golden State:

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Num jogo que foi a prolongamento, Derrick Rose foi o Bull que jogou mais tempo – 42:55; foi o Bull que mais lançou (mais do que o Gasol, Noah e Hinrich juntos); foi o Bull que teve mais bolas perdidas (11, contra apenas 10 para o resto da equipa toda); e para um jogador que ocupa a posição de base, organizador do jogo, “floor general”, uma assistência aparece como algo insuficiente…

 

Porém, se olharmos para a fisionomia do jogo, uma coisa fica bastante clara: o que Derrick Rose fez frente aos Splash Brothers em termos ofensivos, foi o que permitiu a Chicago levar o jogo a overtime e ganhá-lo. Rose fez face ao backcourt mais eficaz da liga esta temporada. Os dois capazes de criar os seus lançamentos, letais atrás da linha de três pontos como poucas duplas no basket. Chicago não dispõe de uma linha ofensiva capaz de responder com a mesma moeda a estes dois. O que Rose fez, foi usar a sua capacidade de penetração para furar as linhas adversas, e quando não o conseguia ,por encontrar engarrafamento, punha a bola fora.

 

“Mas então ele punha a bola fora e acabou com 1 assistência?”

SIM! Porque ao pôr a bola para fora, o jogador que a recebia (várias vezes Gasol ou Noah) podiam fazer mais um passe para o jogador mais isolado, que este marcava. Rose, contra uma equipa destas, teve que jogar o seu papel de desequilibrador, focalizar a defesa em si, e por vezes mesmo tentar o impossível. Falhou 20 lançamentos? Sim. Mas marcou 30 pontos sem um único lance livre.  marcou tantos triplos quanto o Splash Bro. mais prolífico da noite, Klay Thompson. Este último acabou o jogo com 30 pontos, 13 lançamentos marcados igualmente (em 27 tentados), e 4 triplos, como o Rose. Onde foi então que Rose marcou a diferença? Permitindo ao seus dois interiores marcar 18 pontos cada um. E isso só foi possível por ele ter sido uma ameaça constante, uma dor de cabeça constante para o garrafão de Golden State. Rose polarizou a bola. Teve-a como ninguém, e perdeu-a como ninguém. Mas foi isto que o manteve no foco da defesa adversa o tempo todo. Se Curry fez os seus passes essencialmente perto da linha de três pontos, onde ele atraía a defesa dos Bulls, deixando livres David Lee, Klay Thompson & co., jogou muito no olho do ciclone. Também tentou muito os três pontos, mas sabemos que não é o ponto mais forte do seu jogo. E não menos importante, Rose manteve Steph Curry a 9/23 em lançamentos, e 2/9 da linha de três pontos, enviando-o à linha de lances livres apenas uma vez.

 

Rose perdeu a bola muitas vezes por precipitação, errando passes ou deixando-se encurralar pela defesa dos Warriors, mas não nos esqueçamos que em face, revezavam-se Klay Thompson e Steph Curry para “tratar” dele. Se 11 perdas de bola não é desejável, nem defensável, o esforço que ele demonstrou em momentos para manter a equipa no jogo quase sozinho, esses fazem dele o imenso jogador que é, e deste jogo tudo menos um fiasco a nível pessoal. Em comparação, Klay Thompson, que acabou com números muito similares aos de Rose, não marcou durante os últimos 8 minutos de jogo, e falhou o último lançamento, que podia ter dado a vitória a Golden State. E ainda assim, não fez um mau jogo DE TODO!

 

Claro está, não podemos encher este post de vídeos a ilustrar tudo isto, mas podem ficar com os highlights da partida.

Para mais, a (pen)última jogada, aquela mais comentada e criticada da semana, em que Rose lança quase da linha de triplos com o Klay Thompson a marcá-lo de perto, é tipicamente daquelas que não se explicam por estatísticas. Rose falhou 20 lançamentos no jogo, a maioria deles de longe. Os adeptos de estatística pura e dura seriam pois favoráveis a que ele criasse uma acção para um dos colegas, à maneira de Jordan, que o fez para o Paxson e para o Kerr no seu tempo. Pois. Mas o que é preciso saber é que, para duas jogadas tornadas famosas porque deram o título a Chicago, Jordan teve inúmeras em que decidiu lançar. E falhou metade, como nos diz este site “especializado” em all things Jordan.

 

Mas vejamos juntos a jogada em questão:

 

Rose fez o que devia fazer, na minha humilde opinião. Reafirma-se a cada dia que passa como o patrão dos Bulls, e para tal, é primordial que assuma os destinos da equipa, que assuma as responsabilidades que todos os esperamos ver assumir em fim de jogo. E ele asim o fez. Se tivesse falhado, falar-se-ia de um jogo falhado, de um jogo egoísta pois marcou 30 pontos, falhando 20 vezes e passando pouco. Mas quem viu o jogo (e o reviu, como eu), viu Derrick Rose a jogar para a equipa. A ser a alma da equipa. A criar jogadas que, por serem a penúltima ou antepenúltima antes da marcação do cesto, não “viraram estatística”. E por mais que tenha perdido imensas bolas, ele foi o elemento decisivo para esta vitória. E é o que se espera de um MVP, de um Franchise Player, de um Líder. Este parece estar de volta a Chicago. E pelo crescendo de ritmo e intensidade do seu jogo, não vai demorar muito até ele voltar a fazer-nos acreditar que a sua afirmação mais controversa pode vir a ser verdade…

 

Ricardo Glenn Baptista

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