December 8, 2019

Sempre que posso, sou um pacificador, um aglutinador, e julgo, um motivador. No futebol uma bola na barra pode decidir um jogo, um golo em fora de jogo pode definir um campeonato, um estádio cheio pode definir uma hegemonia. Como adepto responsável, e um que está sempre presente, não posso, nem devo, reagir a quente. Primeiro abandono-me aos sentimentos que são próprios de cada jogo, culmine ele em vitória ou não, depois, racionalizo o que sinto, e só depois exponho o que me vai na alma.

Sempre fui dos mais optimistas. Dos meus amigos Benfiquistas e dos meus companheiros de bancada, sempre fui o que mais depressa recuperava de uma derrota, o que teima em não desistir, e acredita que há sempre por onde inverter a situação. Não sou um Ricardo Araújo Pereira que afirmou que bastava um golo em Vigo para que acreditasse na reviravolta em Lisboa, mas não ando muito longe disso.

Vivi a época passada do primeiro ao último minuto. Dei tudo o que tinha para dar pela minha equipa, não me poupei em nada. Vivi as vitórias em euforia, e percorri a recta final em lágrimas. Passei o mês de Junho em luto, mas já certo de que chegada a pré-epoca, voltaria em grande, empurrado pela força de uma equipa que foi enorme e que tudo tinha para voltar com tudo.

Acontece que perdemos em Paris e o que sinto desconcerta-me, por não reflectir nem o Benfiquista nem o homem que sou: um perturbador desprezo por todos – ou quase todos – os que compõem a cúpula técnica e directiva do meu Benfica. Estou de rastos. E com a sensação de que os últimos 3 anos e meio acabaram de me cair todos em cima.

Agradeço a Luís Filipe Vieira os primeiros anos de causa Benfiquista. A sua importância é irrefutável e qualquer oposição que o negue, tem à partida o seu nome cortado. Como escrevi noutro texto, o Benfiquista reconhece quem já deu ao Clube, e aos primeiros anos de Luis Filipe Vieira aponto grandes obras. Tornámo-nos mais profissionais, demos projecção à nossa marca e construímos bases para um regresso às conquistas. Semeámos no Seixal as sementes para um projecto de formação e somos hoje a equipa que mais jogadores fornece às camadas jovens da Selecção Nacional. Temos qualidade e quantidade. O futuro praticamente assegurado, caso o queiramos.

Suficiente? Não. Nunca. O Benfica que em tempos idos representou a única democracia em Portugal, não é hoje um clube democrático. Tem uma direcção que repudia qualquer oposição. Que os alicia, que os compra, que os critica e os desfaz na praça pública. O Benfica que outrora agregava respeito de todos os quadrantes é hoje uma criança mimada, malcriada, com mau perder e sem quaisquer valores. O Benfica que outrora respeitava os seus adeptos hoje em dia mente e engana. Não lhes passa cartão, apesar de viver desse mesmo cartão. O Benfica que outrora vivia para ganhar, hoje em dia vive para fazer e para captar negócios. Já não investimos para ganhar no futebol, investimos para ganhar fora dele. O Benfica equilibrado, bem gerido, com futuro, é hoje um clube com um passivo de mais de 500 milhões de euros, que acumula prejuízo em prejuízo, mesmo quando vende os seus melhores activos. Onde está o Benfica que não teria que vender mais jogadores para sobreviver? Basta! Não quero ler nem mais um comunicado carregado de insultos e de mentiras. Não quero ler nem mais um comunicado a anunciar receitas recorde, omitindo mais um ano negativo. Não quero ler nem mais um comunicado de crítica ao sistema que tanto nos afunda, quando somos os primeiros a ajudar esse mesmo sistema a chegar às posições de destaque e de decisão no futebol em Portugal. Não quero. Não posso. Não aguento.

Basta! Estou farto de ter um presidente populista, um presidente mentiroso, um presidente incapaz de reconhecer qualquer falhanço e a sua incapacidade para encarar e superar o desafio que tem pela frente. Estou farto de ter um presidente limitado, um presidente ordinário, um presidente que desconhece os pergaminhos democráticos e vitoriosos do Benfica. Luís Filipe Vieira corre riscos sérios de se tornar no pior presidente da historia do Benfica e por incrível que pareça, isto não o preocupa minimamente. Não há maior gesto de benfiquismo do que o de um presidente que abdica daquilo que falta do seu mandato, por não se considerar à altura. Benfiquismo puro, amor incondicional pela causa. É isto que falta ao Benfica.

Tenho 30 anos. A primeira lembrança que tenho do Benfica foi de ver na televisão a final da Taça dos Campeões Europeus de 1990 contra o Milan. Infelizmente não vivi os tempos áureos deste nosso clube, mas tenho-os bem presentes sempre que penso no Benfica. Ignorar tudo aquilo que Jorge Jesus trouxe ao Benfica é de uma injustiça pura. Não o faço. Emocionei-me com as equipas de 1992/1993 e de 1993/1994, mas tinha 9 e 10 anos e um pai que não padece do mesmo fanatismo que eu, e por isso, apesar de amar o clube, não o vivi como podia nessa fase. O Benfica de Jesus foi o melhor Benfica que alguma vez acompanhei. Percorro Portugal e a Europa há já vários anos sempre no encalço do meu Benfica, e confesso que desde que o faço, este Benfica, o Benfica de Jesus, foi o melhor Benfica que vi jogar. Não esqueço, não tenho a memória curta. Éramos uma equipa apática, uma equipa pouco ambiciosa, uma equipa perdida na sua grandiosa história. Jesus soube inverter isto. Jesus soube trazer agressividade, vontade e espírito vencedor. Jesus tinha tudo para ter sido fantástico. A culpa é toda dele? Não, óbvio que não. A Jesus faltou muito uma estrutura que o apoiasse, que o guiasse, que o organizasse, que o recriminasse sempre que necessário. Isto de treinar o maior clube do mundo não é para todos. Somos exigentes e somos apaixonados, um cocktail explosivo quando ganhamos… e claro, quando perdemos. A culpa não é toda dele, mas mesmo assim basta! Basta! Estou farto do quase, estou farto dos erros, estou farto das teimosias. Estou farto dos processos extra futebol, estou farto da negação, estou farto de um ego desmedido, um ego do tamanho da Amadora num clube do tamanho do mundo. Adeus e obrigado. Tenho a certeza que vais ser muito feliz no Porto.

Não creio que a época esteja perdida. Muito longe disso. Julgo que temos tudo para terminar bem, em alta, mas acho que chegou a altura de nos movimentarmos e de nos fazermos ouvir. Um campeonato ganho este ano não pode eliminar os fracassos das épocas passadas. Não nos podemos deixar cegar com isso. Como também não podemos voltar a acreditar em velhas promessas de novos ciclos, depois de mais uma de tantas revoluções no departamento de futebol, revolução esta que pode determinar um substituto de Jorge Jesus. O problema não é, nem nunca foi o treinador. Antes fosse. Era tão simples.

Somos um clube do povo, de origens humildes, empreendedores na nossa essência. Nunca nos deram nada, tudo foi conquistado com suor e trabalho. Voltemos às Assembleias Gerais e à mobilização de quem não se contenta com o mediano. Voltemos a acordar este monstro que nos enche e que nos sufoca. Não é tarde. Nunca é tarde. O Benfica sobreviveu ao adeus de homens como Duarte Borges Coutinho, Maurício Vieira de Brito e Fernando Martins. O Benfica sobrevive a tudo e a todos. Acordem Sócios! Acorda Benfica!

Miguel Cunha

2 Comments

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    31 de Maio de 2017

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  • Responder
    14 de Maio de 2017

    Paula comentou em 5 de janeiro de 2011 às 15:47. Querida, eu posso passar algum condicionador nas cerdas? Se sim, vc me recomenda algum?Houvi dizer que toda vez que agente usa um pincel temos que limpa-lo… ou lavando, ou com um limpador inaƒÃntst¢neo.Isso procede? Ou posso ir usando e lavar só no final do mês?

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