September 22, 2018

LeBron James é o melhor jogador de basket conhecido e em actividade no mundo.  Depois de uma carreira de 15 anos na NBA, 3 títulos de campeão, 4 de MVP, 2 ouros Olímpicos, inúmeros records e feitos dantescos, LBJ já não tem nada a provar a ninguém em matéria de basquetebol. O único título que lhe falta é o Mundial de Basket (ganhou o bronze em 2006), mas não penso que seja algo que lhe faça perder o sono.

A questão é: para alguém que já ganhou tudo, que já provou que não há quem o supere em termos de talento bruto neste planeta, what’s next?

 

A resposta a esta pergunta, LeBron deu-nos dia 1 de Julho de 2018: Purple & Gold. Como fã dos Celtics, tenho tudo para AMAR (saiu da Conferência Este, abrindo um bocadinho mais a possibilidade de a minha equipa chegar às finais) e ODIAR (foi reforçar o rival histórico!!!) esta decisão. Mas vou tentar fazer abstracção dos meus sentimentos enquanto fã, e usar a cartola de “analista” para ajudar a fazer luz sobre o que significa esta mudança para o próprio, para a NBA e para os fãs.

 

I – LeBron out of Cleveland

 

O episódio The Decision está esquecido, morto e enterrado. LeBron, ao voltar para Cleveland, e mais ainda ao dar o primeiro título de sempre à equipa, reconciliou-se com a cidade, com o Estado de Ohio, com o Dan Gilbert, com todo o mundo. James fez por Cleveland o que nenhum outro atleta tinha feito até então: deu-lhe um título. E não só ganhou um título como levou a cidade a 3 Finais da NBA. O orgulho que conseguiu transmitir a todos os habitantes de um Estado considerado desde sempre como um loser state só se entende quando se vive o desporto como nos Estados Unidos. Se LBJ concorrer algum dia a Governador do Estado, podem ter a certeza que ganha.

 

Mais do que o título, LeBron sempre se implicou muito em trabalhos em prol das comunidades mais desfavorecidas da sua cidade natal. Através da LeBron James Family Foundation, o King tem, ao longo dos anos, ajudado imensas crianças e jovens a desenvolver o seu pleno potencial, oferecendo bolsas de estudo e ajudas de todo o género, desde a construção de terrenos de desporto a ajuda a famílias em grande dificuldade. E o seu último projecto do género foi a “I Promise School” (IPS), uma escola pública totalmente financiada por James, oferecendo condições excepcionais para crianças e famílias em dificuldade social. Refeições gratuitas, bicicletas, enquadramento pós-escolar, empregos para os pais, bolsas para a Universidade de Akron para todos os alunos que terminarem o secundário… O homem é dotado de uma generosidade fora de série! E não é só em dinheiro. Ele também dá o seu tempo e disponibilidade para estar com essas crianças, dar a cara em todos os projectos, mostrar que, apesar de ir jogar para L.A., ali é e sempre será a sua casa, e onde ele tem o seu coração. A IPS foi uma prenda de despedida, de agradecimento, mas também uma forma de dizer que ele nunca vai realmente embora daquele que é o seu lugar.

 

 

 

II – LeBron in the West

 

Pela primeira vez desde que está na NBA (2003) LeBron James vai jogar na Conferência Oeste. Isto tem uma importância muito grande, visto que nos últimos 10 anos, os únicos Campeões que nos vieram do Este foram os Boston Celtics ou as equipas onde jogou o LeBron (Miami Heat e Cleveland Cavaliers). E se tivermos em consideração que o título dos Celtics foi há 10 anos exactamente, podemos dizer que a única força capaz de contestar a hegemonia da conferência Oeste na NBA nos últimos 9 anos foi The King himself. Indo para o Oeste, junta-se a uma guerra sangrenta, contra equipas que ano após ano se mostraram mais competitivas que as suas congéneres do Este. Golden State Warriors, Houston Rockets, San Antonio Spurs, Utah Jazz, Oklahoma City Thunder… Uma competição mais renhida do que contra Toronto Raptors, Boston Celtics, Philadelphia 76ers ou Milwaukee Bucks, certo…?

 

Para  ser sincero… ainda é verdade, mas parece condenado a ser cada vez menos. As equipas do Este estão repletas de jovens talentos em desenvolvimento à espera do momento certo para explodir. Os Celtics levaram os Cavs de LeBron a 7 jogos na Final de Conferência, liderados pelo rookie Jayson Tatum, já que tinham perdido Gordon Hayward e Kyrie Irving durante a temporada regular. Os Sixers são uma armada jovem e motivada, com Embiid, Simmons e Fultz enquadrados por veteranos como Belinelli e JJ Redick. Os Raptors, que acabaram a temporada com o melhor record da Conferência, contrataram o melhor two way player da Liga (ainda que por um ano) na pessoa de Kawhi Leonard. Os Bucks (que foram eliminados em 7 jogos na primeira volta dos playoffs) estão a crescer à volta do seu Greek Freak… O Este está a cozinhar coisas boas para o futuro!

 

Quanto ao Oeste, com excepção de Golden State e Houston, a maioria das grandes “casas” está em reconstrução. Os Spurs envelhecidos perderam o seu go-to-guy, Utah ainda não descobriu o roster perfeito para tirar partido do imenso jogador que é o Rudy Gobert, OKC conseguiu dois milagres numa offseason (impedir que Paul George fosse para os Lakers e mandar o Carmelo Anthony pastar para outra pradaria), mas continua a ser a equipa que joga para o Westbrook fazer triplo-duplos e pouco mais…

 

Ainda assim, não leiam mal a minha análise. Não considero de todo que LeBron fugiu da ascensão dos jovens do Este e foi para um Oeste envelhecido e mais fácil de vencer, porque não é DE TODO O CASO! LeBron foi muitas vezes “acusado” de ter tantas Finais consecutivas por jogar no Este, a Conferência “fácil”. Ir enfrentar os titãs do Oeste, nomeadamente o seu Némesis dos últimos anos – Golden State Warriors – foi, de certa forma, sair da sua zona de conforto. Podia ter ido para Philadelphia, e jogar com um roster BRUTAL, bem melhor que o que ele teve nesta última temporada nos Cavs, ou do que terá nos Lakers. Com a sua influência, muitos role players de valor teriam seguido (como seguem sempre, onde quer que ele vá), e a probabilidade de sucesso imediato seria bem maior, na minha opinião. Pois apesar da forma física absurda que apresenta, James vai fazer 34 anos em Dezembro, e o tempo que lhe resta a jogar no seu melhor nível não será suficiente para estabelecer uma dinastia. Acredito que desportivamente, LeBron contava ter um bocado mais de ajuda, nomeadamente com Paul George e Kawhi Leonard, que os rumores davam como certos em LA com o King na próxima temporada. Mas nem tudo correu conforme planeado: Paul George foi convencido pelo front office de OKC a renovar o contrato, e Kawhi Leonard foi enviado pelos Spurs para Toronto, contrariando assim os planos de ambos os jogadores (LBJ e KL). O ex Spurs foi traded e vai cumprir o seu contrato de 1 ano, mas a probabilidade de renovar é muito muito muito muito remota, já que o jogador exprimiu CLARAMENTE a sua intenção de jogar nos Lakers. Foi só um adiamento, e no próximo verão, quando for Unrestricted Free Agent, deve dar o salto para o Sunshine State. Algumas almas mais cínicas diriam que a saída de Larry Nance Jr. e Jordan Clarkson dos Lakers para Cleveland a meio da temporada foram feitas “a pedido” de LBJ para libertar cap space para os purple & gold poderem, na temporada seguinte, acolher o King e a sua corte… Mas como eu acredito em bons sentimentos, nunca hei de pensar que ele possa ter calculado esse golpe com tanta antecedência, nem que teria a anuência da equipa para o fazer (ele nunca foi pessoa de influenciar decisões do front office…). Foi uma feliz coincidência!

 

III – LeBron in the Lakers

 

LeBron James não está numa situação ideal do ponto de vista desportivo, nos Los Angeles Lakers. Não me levem a mal: Kyle Kuzma, Brandon Ingram e Lonzo Ball têm toda a carreira pela frente para provar o seu valor, e reforços como Rajon Rondo JavaleMcGee e (até) Lance Stephenson são bem-vindos numa equipa extremamente jovem, pois trazem experiência em momentos cruciais. Mas a menos que Luke Walton se revele ser um autêntico feiticeiro, o jogo dos Lakers vai repousar a 60% sobre os ombros de um só homem, como o de todas as equipas por onde ele passa (sim, em Miami ele teve um Dwayne Wade e um Chris Bosh em boa forma durante muito pouco tempo. O bom é que eram jogadores que, com metade do seu rendimento mais elevado, eram melhores que muitos jogadores de elite. Isso ajuda). Com 34 anos, isso começa a pesar um bocado… Até se encontrar a dinâmica desta equipa, até começar a fluir o jogo, até se desembaraçarem do contrato de Luol Deng ($36 milhões para as 2 próximas temporadas), estes Lakers não serão imediatamente EQUIPA. Isso pode exigir um esforço tremendo da parte do King, que já nos habituou a estas façanhas; com toda a certeza fará subir o rácio de vitórias bem acima dos 50% e colocará os seus em posição de disputar os Playoffs com chances iguais às de qualquer outra equipa de chegar à Final de Conferência. Porque ELE É O LEBRON JAMES.

 

Por mais que isso exija um esforço titanesco dele, é o que ajuda a construir a sua narrativa de chosen one. Muito me perdoem os fãs dos Heat e dos Cavs, mas os Lakers, com a sua história rica na Liga, são o palco ideal para testemunharmos a grandeza do melhor jogador do mundo actualmente. Segunda franchise mais vencedora da liga, casa que albergou alguns dos maiores nomes do jogo (Kareem Abdul Jabbar, Magic Johnson, Jerry West, Kobe Bryant, Wilt Chamberlain, Shaquille O’Neal, Smush Parker, Kwame Brown…), home of the showtime… LeBron tem as condições ideais para ser consagrado no Panteão do basquetebol americano, fechando a carreira numa das equipas mais icónicas de todos os tempos. Nem seria justo falar de “seguir as pegadas de…”, pois as dele já estão num nível estratosférico. Mas inscrever-se entre os melhores dos melhores é diferente de ser o melhor onde todo o mundo é mauzinho! (e aqui eu é que fui… mauzinho! [insert smiley face])

 

IV – LeBron in Los Angeles

 

LBJ é “just a kid from Akron”, como ele próprio se definiu. A simplicidade e discrição que lhe conhecemos desde sempre fazem com que Los Angeles enquanto cidade-universo seja a antítese do que LeBron professa como valores. Homem de família, leal aos seus, muito reservado quanto à sua vida privada, LeBron catapultou-se para a cidade mais EXPOSTA do mundo em todos os sentidos. Los Angeles, a capital do entretenimento, do cinema americano, terra das estrelas e paraíso dos paparazzis, é muito diferente da calma e sossego de Cleveland. Claro, LeBron já viveu em Miami, não vai chegar a L.A. como um provinciano deslumbrado, até porque é milionário desde os 18 anos de idade, e tem duas casas na Cidade dos Anjos. Para mais, nada lhe impede de manter o estilo de vida que sempre o caracterizou. Mas não deixamos de nos perguntar: WHY L.A.? O prestígio dos Purple & Gold, sem dúvida. Digo e repito, se os Lakers são historicamente a única equipa da Liga que pode rivalizar com os Boston Celtics, é porque alguma coisa fizeram certo a algum momento dado! Junte-se a isso o Magic Johnson (ídolo de infância de LBJ) como Presidente de Operações, o Luke Walton no banco (o senhor que substituiu o Steve Kerr como treinador quando ele teve problemas de costas, e que esteve no banco dos Warriors durante maior parte da temporada em que eles ganharam 73 jogos!) e jogadores promissores a quem servir de mentor, isto é o cenário ideal para um ride to the sunset… Tão bom que poderia dar um filme!

 

Falando de filme, a malta ouve falar de um reboot de Space Jam com o LeBron há anos e anos, alguém sabe em que pé isso está?

 

V – More than an athlete

 

A verdade é que LeBron está, como ele próprio diz, a viver um sonho acordado. Além de todas as conquistas desportivas, ele realizou alguns objectivos pessoais, e está a colher os benefícios de uma vida de trabalho e disciplina. Mas quando ele nos diz que é mais do que um atleta, é bom que tenhamos consciência disso. LeBron é um homem de negócios muito inteligente e bem aconselhado. Além da fortuna que ganha em salário ($154 milhões para 4 anos é… simpático), tem também um contrato vitalício com a Nike (num valor nunca publicamente declarado mas que se estima superior ao bilião de dólares), e inúmeros outros contratos de publicidade (Beats, Intel, Sprite, Kia) que lhe dão por ano $55 milhões. Junte-se a isso a pizzaria de que é sócio, os 2% de acções do Liverpool FC que hoje valem mais de $30 milhões, a marca de roupa e sapatilhas de que é sócio, a sua companhia de conteúdos multimédia que em 2015 recebeu $15 milhões da Warner Bros. para colaborar em diversos projectos (Space Jam 2? Há malta aqui à espera, pessoal! Desde 2010 que andam a anunciar isso, e NADA!)…

 

Tudo isto nos permite ver que LeBron Raymone James é um personagem “larger than life”, conforme a expressão consagrada pelos americanos. O homem é um Midas, que transforma tudo o que toca em ouro. Desportivamente, em termos de negócios, a decisão de ir para Los Angeles faz cada vez mais sentido se nos pusermos a analisar as coisas no seu todo.

Os 4 anos que ele vai dar aos Lakers vão ser de alta qualidade, dado o extremo cuidado que ele tem com a sua preparação física*. Enquanto isso, os seus projectos continuam a crescer, e Los Angeles é o sítio ideal para promover todos os seus empreendimentos, nomeadamente a UNinterrupted, que é uma plataforma inovadora onde ouvimos e vemos o quotidiano dos desportistas de alto nível na primeira pessoa. Documentários, podcasts, filmes (What’s up, doc?)… este projecto ambicioso precisa de LeBron em Los Angeles para realmente crescer e tornar-se no Netflix for sports fans!

 

A família James, habituada a seguir o patriarca onde quer que a sua carreira o leve, vai continuar a beneficiar da sua atenção e apoio, sem que as suas vidas sejam afectadas negativamente. Já tinham uma casa em L.A., onde passaram várias vezes as férias, e acredito que a adaptação não seja muito difícil. O filho mais velho, LeBron Jr., vai ter uma série de excelentes escolas onde desenvolver o seu potencial como jogador de basket.

LeBron fez uma jogada que, se tudo correr bem, vai assegurar a perenidade do seu nome numa das maiores equipas de basket de todos os tempos, e permitir uma vida plena e atarefada no pós-basket, que costuma ser um problema para muitos ex jogadores profissionais. Até lá, vamos-nos todos deleitar com a presença do King no seu novo Reino, e salivar de antecipação pelos jogos contra Golden State. Pois ninguém me tira da cabeça que esta super equipa é ainda uma obsessão na cabeça de LBJ, e jogar mais vezes contra eles durante a temporada pode ser uma forma de melhor os ler e encontrar a forma certa de os vencer. Mas shhhhh… isto é matéria para outro artigo!

 

 

*LeBron tem um autêntico exército à sua volta, desde preparador físico a nutricionista, biomecânico (!?!?), até uma câmara de crioterapia (o homem expõe o corpo a temperaturas negativas para ajudar a recuperação… coisa de ficção científica!). Tudo isto torna mais compreensível a alegada soma de $1,5 milhões de dólares/ ano que ele gasta em cuidados com o corpo.

 

Ricardo Glenn Baptista

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