December 15, 2017

 

Caro Javier Tebas,

 

Não falo espanhol, mas acho que a gente se entende. Não me conhecerá, decerto. Falo em nome de um povo. Relaxe. Não é o da Catalunha. Lá iremos. Para já fica só com a nota de que sou um aficionado incondicional da Liga a que preside. A liga dos melhores dos melhores. A que faz os chineses estarem acordados às três da manhã. A que tem o privilégio de contar com os dois melhores praticantes de futebol de que há memória. A (ou, pelo menos, certamente uma das) que gera mais receitas em todo o mundo. Acho que já percebeu a ideia.

 

Certamente saberá do problema que tem em mãos. Um dos dois clubes mais rentáveis da sua Liga está prestes a fazer parte de outro país. Metade do foco de interesse da sua Liga está prestes a abandonar o barco. E o que o senhor faz? Do alto do seu nacionalismo paradoxalmente bem rasteirinho, reitera que não quer catalães na sua Liga. É claro que seria injusto cingir-me ao Futbol Club Barcelona. Também Espanyol e Girona saltariam fora. Porém, sejamos sinceros aqui entre nós, financeiramente o impacto da saída destes dois últimos é irrelevante.

 

Não sei se sabe, caro Javier, como surgiu o futebol. Foi em Inglaterra, junto das classes operárias. Há todo um socialismo e uma democracia subjacente ao futebol que nem o senhor nem ninguém, pode ignorar. E com xenofobia gratuita, muito menos. Se há alguém que pode tomar uma decisão não é o meu caro e os seus pares, mas a Federação de Futebol da Catalunha. Se eles quiserem sair, é lá com eles.

 

Pense um minuto. Faz sentido, de livre e espontânea deliberação, excluir do seu campeonato um dos dois clubes que mais dinheiro gera? Que mais estádios enche? Que mais receitas televisivas e publicitárias proporciona? É verdade que a rivalidade madrilena entre Atlético e Real continua a ser um atrativo monetário de nível planetário (agradeça a um tal de Diego Simeone, e de joelhos de preferência). É verdade que há equipas como Athletic Club, Real Sociedad, Sevilla ou Valencia que têm um bom mercado na Europa, mas sabe que tal não se compara a um Real Madrid vs Barcelona, certo?

 

Como disse no início, falo em nome de um povo: o povo do desporto. Não nos prive, por sua iniciativa e vontade, de um espetáculo como El Clásico. Não nos prive dos passes sem ver de Messi que isolam um colega na cara do golo, das cabeçadas implacáveis de Cristiano, da calma e classe de Modric, Isco ou Busquets, ou das arrancadas furiosas de Bale que só terminam no fundo das redes.

 

Julgo que já percebeu onde quero chegar: é do interesse de ambas as partes que as equipas catalãs continuem na Liga Espanhola. Historicamente. Financeiramente. Mas, sobretudo, desportivamente. Vai continuar a deixar-se toldar pela ignorância e pela falta de visão só para agradar politicamente a uma facção maioritária?

 

Sabe como se diz cá no burgo? Não seja Inácio, Javier.

 

Cumprimentos,
João Pedro Mendes

 

João Mendes

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE