December 13, 2019

 

A 10ª jornada do campeonato nacional presenteou os adeptos de futebol com um clássico electrizante decidido até aos minutos finais. Num jogo com muita juventude no relvado, foram poucos os momentos em que se viu a bola a “pastar” no meio-campo sob a tutela de jogadores cerebrais, os chamados patrões do meio-campo. A bola andou a rolar no Estádio do Dragão quase a mil à hora.

 

Nuno Espírito Santo sabia que este clássico era mais importante para o F. C. Porto do que para o Benfica. Com a sua equipa a cinco pontos de distância do rival e com exibições sem grande magia, o treinador azul e branco começou a preparar o clássico há duas semanas atrás, na célebre conferência de imprensa em que puxou do quadro e de um marcador para explicar o que era jogar “à Porto”. Depois, na conferência de imprensa de antevisão do jogo com o tricampeão nacional, recordou um dos seus objectivos principais: transformar o Estádio do Dragão numa verdadeira fortaleza. Apesar do resultado pouco positivo, a mensagem de Nuno Espírito do Santo foi entendida pelos seus jogadores. No Domingo, os jogadores azuis e brancos mostraram raça, entrega e vontade de vencer o tricampeão nacional.

 

Nuno Espírito Santo, um treinador “à Porto”

 

Se havia dúvidas na ambição do F.C. Porto em atacar o grande rival, essas dúvidas dissiparam-se quando a lista do onze titular começou a ser distribuída pelo Estádio do Dragão. Na antevisão do jogo grande da jornada, a maior parte das bolsas de apostas previa que a zona central do meio-campo fosse composta por Danilo e Herrera ou por Danilo e Ruben Neves. No entanto, o treinador português surpreendeu tacticamente ao apresentar no centro do meio-campo Danilo acompanhado por três jogadores de características ofensivas, Oliver Torres, Octávio e Corona, situados atrás de dois avançados, André Silva e Diogo Jota.

 

André Silva e Diogo Jota dois talentos portugueses à solta no Dragão

 

Do lado do Benfica, Rui Vitória tinha mais uma vez a missão de pegar na linha e na agulha e de inventar remendos para as ausências dos titulares lesionados. O polvo Fejsa, o jogador da equipa mais disciplinado tacticamente, estava de baixa para o clássico. O F. C. Porto aproveitou a sua ausência e o Benfica viu-se atrapalhado para acertar o equilíbrio da equipa. O grego Samaris não é Fejsa na sua forma de jogar, e o médio Pizzi tentou fazer no campo as funções do sérvio e as suas, mas nenhuma das tarefas lhe saiu bem.

 

Grande parte do jogo ficou marcada pela ideia ofensiva patente no meio campo dos azuis e brancos e pelo grande buraco existente entre os homens da defesa encarnada e os seus médios. As trocas rápidas de bola, o ataque dinâmico, os lançamentos em profundidade para as costas da defesa e as transições rápidas, foram os ingredientes utilizados pelo F. C. Porto e que fizeram tremer a equipa de Rui Vitória durante vários momentos.

 

Procura-se lateral direito encarnado…

 

O médio internacional português Pizzi esteve perdido e demorou a encontrar-se. Os extremos argentinos Salvio e Cervi fizeram uma pressão macia ao portador da redondinha. Os avançados Mitroglou e Gonçalo Guedes estorvavam pouco a primeira fase de construção do F. C. Porto. Por fim, o guarda-redes Ederson não afinou devidamente o seu “pé-bazuca” antes do jogo e transformou meia-dúzia de reposições de bola em prendas para a equipa azul e branca. O internacional brasileiro terminou o jogo com uma percentagem de eficácia de passe a rondar os 45%.

 

Os adeptos do Benfica passaram um mau bocado com a criatividade e a irreverência de Oliver Torres, Corona, Octávio, Diogo Jota e de André Silva. Adivinhava-se um F. C. Porto ofensivo, mas não se adivinhava um Benfica com tantas dificuldades a jogar em posse de bola, em efectuar transições defensivas e em ganhar segundas bolas. O guarda-redes Ederson e os defesas-centrais Lindelof e Lisando Ezequiel López foram determinantes para evitar que o Benfica sofresse mais golos no Dragão.

 

O FC Porto criou sempre perigo quando explorou as subidas de Nélson Semedo

 

Mas um jogo de futebol tem vários momentos. A entrada em campo do médio centro André Horta ao minuto 58, que substituiu Cervi, foi muito importante para alterar o momento do jogo, fundamentalmente por dois motivos. Em primeiro lugar, a capacidade de recuperação de bolas da equipa melhorou bastante. Em segundo lugar, com a presença de Horta, Pizzi cresceu no campo, passou a ter mais oxigénio para respirar e o Benfica passou a ter mais posse de bola. Com a substituição de um extremo por um médio a equipa passou a atacar melhor.

 

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Depois da entrada de André Horta o Benfica começou finalmente a ganhar a difícil batalha travada a meio-campo

 

Com o F. C. Porto a vencer o tricampeão nacional por 1-0 e com uma boa exibição perante 50 mil adeptos em delírio no Estádio do Dragão, Nuno Espírito Santo começou a pensar em solidificar a zona central do terreno. Por isso, aos 65 minutos mandou entrar o jovem Rúben Neves para o lugar de Corona. No entanto, o mexicano, apesar das suas correrias desenfreadas no campo, ainda tinha gás para dar ao jogo. Com a saída de Corona, o Benfica deixou de ter que se preocupar com a marcação de um jogador rápido e imprevisível nos últimos dois terços do relvado.

 

A verdade é que, aos poucos, os encarnados foram ganhando mais confiança. As vozes dos 3 mil adeptos encarnados presentes no estádio do Dragão eram escutadas cada vez mais alto. A entrada de Raúl Jiménez em campo fez com que os azuis e brancos tivessem mais dificuldade em sair a jogar na primeira fase de construção. Com a equipa de Nuno Espírito Santo a recuar no relvado à medida que se aproximava o final da partida, os jogadores do Benfica foram acreditando que, apesar dos momentos complicados que passaram, era possível sair do Estádio do Dragão com um empate. E assim foi.

 

A responsabilidade do médio Herrera pelo resultado final é idêntica à responsabilidade dos seus colegas que não conseguiram antecipar-se ao cabeceamento do defesa central argentino no lance do golo do Benfica, e também é idêntica à responsabilidade dos seus colegas que não aproveitaram os desequilíbrios do adversário para aumentar a vantagem no marcador. Perante as oportunidades de golo criadas pelos miúdos do dragão, faltou discernimento na hora da finalização.

 

O jogo muda, fundamentalmente, com a entrada de Horta, e é do seu pé direito que sai o cruzamento com conta, peso e medida para o espaço perdido entre Danilo e Alex Teles, onde Lisandro López aparece para carimbar o empate.

 

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A festa do golo dos encarnados

 

Para o Benfica, tendo em conta a lista de jogadores titulares lesionados e a história do jogo, o empate foi um resultado óptimo. O tricampeão nacional continua a sua caminhada sem derrotas no campeonato.

 

Para o F. C. Porto, uma vez que as exibições dos últimos jogos estavam a ser pouco convincentes, era muito importante que a equipa melhorasse a sua atitude e convencesse os adeptos no jogo com o Benfica. A mentalidade ofensiva e a solidariedade entre os jogadores na hora de defender estiveram presentes. O treinador do F. C. Porto talvez tenha feito as substituições certas cedo de mais. Mas feliz é aquele que não toma decisões, porque esse nunca falha. Depois da roleta russa de treinadores que a equipa teve desde a saída do bicampeão Vítor Pereira, apesar do empate, os adeptos do F. C. Porto estão agora um pouco mais perto de ter uma equipa “à Porto” para enfrentar os próximos jogos da época. Cabe ao treinador Nuno Espírito Santo saber aproveitar o momento e “agarrar” a sua equipa.

 

Como em tudo na vida, é uma questão de ver o copo meio cheio.

 

Abel Teles de Andrade

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