December 13, 2019

 

Não irei falar de futebol”, me repetia uma, duas, três vezes, sozinho, enquanto pensava nestas linhas. Falaria sim das suas ‘extensões’: o menino brincando na rua de bola no pé, o torcedor vestindo a camiseta do seu time a caminho do estádio, a noite em branco do profissional antes de um jogo importante.

 

Ou então falaria da afirmação de uma pequena cidade do sul do Brasil, Chapeco, no estado de Santa Catarina – quase invisível perante as grandes metrópoles do resto do país – através do Futebol e com o Futebol. Acompanhando as glórias do time local, a Associação Chapecoense de Futebol, na sua primeira final numa competição internacional: sete anos atrás a Chapecoense encontrava-se ainda na Série D do Campeonato Brasileiro.

 

Saí de casa com todas essas ideias na cabeça, procurando uma nova forma de expressão. O Rio de Janeiro estava de um cinza incomum, diferente dos azuis e verdes habituais na cidade maravilhosa. No café em Botafogo onde tomo meu café-da-manhã, a televisão relatava o horror.

 

Em poucas horas, as imagens deram a volta ao mundo. No local, funcionários e clientes discutiam o acontecimento com voz mansa e um tom visivelmente perturbado.

 

Noutro dia qualquer, entre gritos e xingamentos, estariam comentando do jogo do Flamengo, dos endémicos problemas do Vasco ou de mais um campeonato medíocre do Fluminense. Ontem o tema era o Palmeiras, mais recente vencedor do Brasileirão, depois de ter derrotado em São Paulo o próprio Chapecoense.

 

No táxi que peguei indo para o trabalho o taxista comentava o golo do Palmeiras, a expressão incrédula do goleiro Danilo, que com os braços levantados culpava uma distraída zaga, com certeza mais preocupada com o próximo jogo na Colômbia do que com o atual em São Paulo. O mesmo Danilo que na semi-final da Copa Sul-Americana, na Argentina, garantiu o acesso à primeira histórica final da Chapecoense, sacudindo com o pé direito um chute de Blandi, do San Lorenzo.

 

Numa flash após o jogo – uma daquelas que revistas nos fazem questionar a amarga ironia do destino – Danilo afirmava “A minha felicidade é que ele não chutou muito forte. Não foi uma defesa de grau altíssimo [de dificuldade]. Mas foi uma defesa importante, uma das defesas mais importantes da minha carreira.”

 

Como olhar para tudo isso hoje, horas depois da tragédia… a comoção dos jogadores, a comemoração de toda uma cidade ao se tornar pela primeira vez protagonista de uma competição internacional?

Como contar umas das historias mais lindas do Futebol, a Cinderela catarinense que, como o FC Porto de Mourinho ou o Leicester de Ranieri, nos quis ensinar que continua sendo a paixão e a humildade que alimentam o Futebol?

 

Como escrever hoje de um sonho terminado em horror, num país como o Brasil, onde o futebol não é apenas um desporto, mas também um caminho pelo qual passam os sonhos de inúmeros jovens que tentam fugir da precariedade?

 

Como não falar de futebol perante um time, a Chape, que nos fez apaixonar ainda mais por essa experiência tão linda que é ver uma bola correr no verde relvado dos estádios?

kids-playing-having-fun

 

Luca Fazzini

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE