December 10, 2018

 

O comentário futebolístico no nosso país, como muitas outras formas de produzir opinião, está agrilhoado a lugares-comuns e conceitos gastos e vazios de reflexão crítica dos quais não pode e não se quer livrar. O seu modelo discursivo construído ao longo das últimas décadas é, hoje mais do que nunca, afunilado e cinzento, de tal forma que leva mesmo a crer na existência desse livro mítico de folhas amareladas e capa de couro já cansada que há anos vem sendo passado entre mãos, o manual simplista e simplório do comentador do “pontapé na bola” em Portugal, fundamento obrigatório para saber o que deve ser dito em cada situação, espartilho de pensamento para evitar que algum alvitreiro mais incauto tenha pretensões a fazer uma apreciação ou julgamento dissonante da cartilha.

 

Poderia falar da horda de acéfalos certificadores do óbvio que perante uma equipa que está a vencer 3-0 aos 10 minutos afirma que esta entrou muito bem no jogo; num lance em que um jogador aparece sozinho na pequena área e encosta para um golo fácil, assevera que isto se deveu a uma falha de marcação da defesa adversária, ou quando Messi finta meio Osasuna e passa a Neymar para ele brincar também, acredita na pertinência de avisar os espectadores de que o Barcelona está repleto de grandes individualidades. Devemos agradecer a estes iluminados. Que seria de uma transmissão futebolística sem a inefável análise destes bacocos?

 

Mas irei debruçar-me sobre outro tópico, ciente da sua complexidade e das suas muitas ramificações: a tendência do comentador desportivo pela exacerbação do demérito, negligenciando e rejeitando o elogio do mérito. Para explicar a que me refiro, importa aludir a uma evidência que permitirá o seu enquadramento: o tratamento diferenciado que os media portugueses dão aos “três grandes” e aos restantes emblemas, factor que tem uma colossal influência nesta questão.

 

Vejamos. Que análise fará o comentador patusco de um jogo em que um dos grandes não foi capaz de bater uma equipa teoricamente acessível? Invariavelmente, a cassete que acompanha o manual acima mencionado ensina que deve debitar qualquer coisa como, “a equipa apresentou sempre uma fraca dinâmica na circulação da bola, a defesa mostrou-se pouco coesa e permeável aos ataques do adversário, algumas unidades do meio-campo não jogaram com a intensidade necessária, os alas desinspirados nunca conseguiram criar desequilíbrios no último terço, a pouca movimentação dos atacantes não lhes permitiu aparecer em situações de finalização”, e por aí fora.

 

Ou seja, a razão para o resultado negativo é sempre a fraca prestação do favorito Benfica, Porto ou Sporting, seja qual for o canal que escolhermos para ver o resumo ou o rescaldo do jogo. A preocupação é encontrar bodes expiatórios que arquem com as responsabilidades. Nenhum freitas-bobo deste mundo vai arriscar ser excomungado cometendo a loucura de considerar que a excelente exibição do adversário teve alguma coisa que ver com isso. Nunca, jamais.

 

Não há tempo de antena para elogios ao David, o paradigma é sempre o de demonizar o Golias por não ter feito o que se esperava e ter dado uma cacetada no garoto, pouco importa se o garoto era rijo e obstinado e com uma estratégia ardilosa para derrubar o gigante.

 

Entre esta gente, é unânime que recentemente o Sporting e o Benfica foram perfeitamente miseráveis ao deixarem-se empatar 3-3 respectivamente com Vitória de Guimarães e Besiktas depois de estarem a ganhar 0-3. Nenhum mérito é atribuído à óptima recuperação por parte do adversário, porque essa aconteceu única e exclusivamente devido à inoperância dos jogadores dos dois clubes lisboetas. E porque carga de água o Porto não logrou marcar um golo ao Belenenses em 180 minutos ainda há uns dias? Só poderá haver uma explicação, a gritante incapacidade ofensiva dos dragões. Em nenhum momento é posta na equação a qualidade do processo defensivo dos azuis do Restelo.

 

O que temos aqui é uma perfeita desvirtuação do princípio basilar de que o futebol é um jogo entre duas equipas. Para esta cáfila, o futebol é um jogo de um dos três grandes com outra equipa de papalvos reduzidos ao estatuto de meros figurantes de um monólogo. Analisar um jogo de futebol e ignorar a prestação de uma das equipas intervenientes é como ver um filme mas tapar os olhos sempre que o vilão aparece em cena, fazer a resenha de um concerto mas passar metade do tempo no bar a provar cocktails mas só com metade dos ingredientes, faxavor, em nome da coerência.

 

É isto jornalismo? Tenho as minhas dúvidas. É sim uma enorme falta de respeito pelas instituições, jogadores e dirigentes, mas principalmente pelos espectadores e adeptos de futebol. Mostra também a desonestidade intelectual dos seus perpetradores que só prejudica um debate que se quer plural, abrangente e verdadeiro. O que sobra é o que assistimos hoje, horas de gládio acerca de um pretenso fora-de-jogo e um infinito bate-boca rasteiro e mesmo pueril em volta de banalidades que numa discussão séria não ocupariam mais do que cinco minutos. É por isso que costumo dizer que a generalidade dos programas sobre futebol na TV portuguesa fazem mal ao futebol. Fomentam o conflito e não o debate, antagonizam adeptos e promovem o baixo jornalismo e a baixa televisão, deixando para segundo ou décimo-quarto plano a magia que é o futebol jogado.

 

Cabe-nos a nós, consumidores, sermos filtradores da informação e da opinião que é substancial e sincera, varrendo a soleira da porta de discursos infectados de clubite e agendas e dessa incorrigível falta de coragem e de consciência crítica para dizer o que deve ser dito.

 

Até à próxima. Viva o futebol.

 

Rui Teixeira

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