August 25, 2019

Os Portland Trail Blazers são conhecidos por muitos como a equipa de underdogs que, liderados pelo Hall of Famer Bill Walton, conquistaram um improvável título em 1977. Outros lembram-se antes dos anos de Terry Porter e Clyde Drexler, que só não conquistaram um título nos anos 90 porque encontraram a resistência dos Pistons de Isiah Thomas e os Bulls de Michael Jordan. Nos anos recentes, no entanto, os Blazers são vistos como uma equipa amaldiçoada por lesões, tanto no passado distante (Bill Walton e Sam Bowie) como no recente (Greg Oden e Brandon Roy).

Mas a equipa de Portland perseverou e, lentamente, recomeçaram a construir a sua equipa, desenvolvendo talentos promissores como LaMarcus Aldridge e Nicolas Batum e encontrando pérolas escondidas como Damian Lillard. O fruto deste trabalho notou-se já no ano passado, com os Blazers a manterem-se na corrida pelos playoffs até uma série de lesões lhes apagar essa esperança.

Mas as esperanças eram elevadas para este ano e era expectável que, contando principalmente com a evolução do seu point guard, os Trail Blazers conquistassem um lugar entre os oito primeiros da sua conferência. O que não era tão expectável era que tomassem a liga de assalto e que, com cerca de um terço do calendário cumprido, os guerreiros de “Rip City” contam-se com 22 vitórias e apenas 5 derrotas, um registo apenas superado pelos Oklahoma City Thunder (21-4). Perplexos, os fãs da NBA ficaram com uma dúvida a bailar-lhes na cabeça: de onde apareceram os Portland Trail Blazers?

Comecemos com o óbvio: esta equipa tem um ataque fenomenal. Um dos melhores ataques da liga, com uma média de 108,3 pontos por jogo e uma incrível percentagem de 41,1% da linha de triplo, uma estatística especialmente relevante se considerarmos que são a quarta equipa na NBA com mais triplos lançados (24,9 por jogo) e a líder em triplos convertidos (10,2).

Tudo começa nas suas duas principais estrelas. Primeiro, temos LaMarcus Aldridge, o power forward que, após vários anos em que mostrava uma grande dose de talento mas parecia não almejar a mais do que “muito bom”, deu este ano o salto para o mais alto escalão das estrelas na liga, com médias de 23,3 pontos e 11,1 ressaltos por jogo, às quais tem juntado uma muito maior agressividade na procura do seu cesto e menos medo de usar o físico para atacar os frontcourts que o tentam defender.

Com LaMarcus Aldridge a dominar perto dos cestos, é difícil às defesas adversárias não abrir espaço no exterior, onde aparece muitas vezes o prodigioso Damian Lillard (21,3 pontos por jogo) que, apenas no seu segundo ano, está a encestar uma média de 3,1 triplos por jogo – com 15 nos últimos dois jogos. O talentoso point guard dos Blazers tem revelado também uma incrível apetência para converter cestos decisivos nos últimos segundos dos jogos. Nada mau para um jogador que se formou na relativamente desconhecida universidade de Weber State e que muitos vaticinaram, antes do draft, não ter talento suficiente para se aguentar junto à mais alta das competições.

À volta destes dois polos de talento, o cinco inicial de Portland reune uma impressionante coleção de talento complementar, contando com Wesley Matthews (que oferece triplos e defesa agressiva no perímetro), Nicolas Batum (a multifacetada estrela francesa que funciona como um autêntico canivete suíço tanto no ataque como na defesa) e Robin Lopez (que faz o “trabalho sujo” debaixo do cesto e tem como principal missão abrir espaço para Aldridge trabalhar).

Juntamos a isto o trabalho impressionante que Terry Stotts tem feito com a sua equipa (trabalho que esse que lhe tem valido a maioria do buzz inicial para Treinador do Ano) e torna-se menos complicado de perceber o quão bons estes Trail Blazers são e podem continuar a ser. Mas…

Sim, mas. No meio da (em grande parte justificada) euforia em torno desta equipa, podemos correr o risco de esquecer que nem tudo é perfeito em “Rip City”. Para começar, o excelente ataque que têm está baseado no facto desta equipa lançar despropositadamente bem da linha de triplo e, acima de tudo, da zona do midrange. Os Blazers não são especialmente adeptos de atacar o cesto (estão apenas em 16º lugar em lances livres conquistados) e fundamentam o seu ataque maioritariamente no lançamento exterior. Seria pura especulação prever que eventualmente as percentagens de lançamento vão ter de baixar, mas deve ser dito que uma equipa lançar assim durante toda a temporada é muito, muito raro. Até os loucos Suns do “seven seconds or less” e de Steve Nash atacavam mais o cesto.

Em segundo lugar, temos o problema do banco. O grande calcanhar de Aquiles dos Blazers no ano passado era o abismo de qualidade entre os titulares e os suplentes e, apesar de contratações acertadas como Mo Williams e Thomas Robinson, esse abismo continua lá. A ausência de banco tanto se poderá traduzir num cansaço inevitável das suas estrelas aquando dos playoffs como, pior ainda, se poderá revelar catastrófica em caso de… uma palavra que nenhum fã de Portland me perdoa se eu escrever. Pista: começa com “L” e acaba com “esão”.

Por fim, temos a questão da defesa. Porque se o ataque dos Trail Blazers é incrível, a sua defesa é… bem, menos que incrível. Das cinco equipas com melhor registo na liga (Thunder, Blazers, Spurs, Pacers e Heat), apenas a equipa de Portland sofre mais de 100 pontos por jogo (101,9). Esse tipo de permissividade defensiva é muito rara num candidato ao título e, embora possa ser, em parte, explicada pelo ritmo acelerado do jogo dos Blazers, isso não explica tudo. Não quer isto dizer que a defesa de Portland seja má, apenas… mediana, registando-se essencialmente a meio da tabela em quase todas as contabilizações de percentagens de lançamento dos adversários nas várias zonas do campo.

Se os Trail Blazers querem mesmo ganhar o título, é melhor que comecem a trabalhar ainda mais no lado defensivo do jogo, porque o que a história recente nos mostra é que é muito difícil conquistar um anel de campeão sem uma defesa de elite. Até isso acontecer, as expectativas realistas de conquista de um título continuam nas mãos, acima de tudo, das outras quatro equipas que lideram a liga (Clippers, Rockets e Warriors são também apontados como potenciais candidatos ao título mas sofrem de muitos dos mesmos problemas dos Blazers).

Mas querem saber porque estes Portland Trail Blazers são tão imensamente fascinantes? Porque eu acabei de escrever a frase “se os Trail Blazers querem mesmo ganhar o título”. Quem poderia ter adivinhado?

Pedro Quedas

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