September 19, 2019

Bandwagoner: no desporto, alguém que apoia sem vergonha uma equipa específica, não por gostar dela ou segui-la fielmente, mas por ser a equipa “do momento”, e por isso a escolha mais popular. Quando o estado de graça dessa equipa acaba, o bandwagoner salta alegremente para o vagão da próxima equipa da moda, e passa a apoiá-la.

(tradução livre de http://www.urbandictionary.com/define.php?term=bandwagoner)

 


 

 

Depois desta necessária introdução ao termo que decerto nem todos conheciam (a maioria dos fãs de basket NBA aposto que sim, os outros…), vamos lá entrar a pés juntos no assunto: há por aí muita malta que muda de equipa como muda de camisa. Ser Bandwagoner não é gostar de várias equipas sem ter uma preferência particular. Não é simpatizar com aquela equipa que se está a sair bem porque apresenta um jogo interessante neste momento. Não. Ser Bandwagoner é abraçar de corpo e alma, do dia para a noite, a causa de uma equipa. Que por acaso e só por acaso, é a equipa que está a fazer uma temporada do caraças. Ou a equipa que tem o melhor jogador (chinês ou não) da actualidade.

Na verdade, bandwagonism é uma condição patológica do foro psicológico. O sintoma principal da mesma é a incapacidade de manter um compromisso quando o nível de dificuldade que ele implica supera o prazer que dele se retira. Ou seja, enquanto está tudo bem, é o paraíso; quando começa a doer, a apertar, a ser difícil (ou seja, quando é mais necessário do que nunca fazer prova de força, fé, lealdade), tiram o pé sem dó nem piedade. Na verdade, este indivíduo sente uma necessidade imperiosa de se integrar socialmente, de pertencer aos cool kids, de ter a etiqueta de porreiro, uma necessidade de agradar maior do que aquilo que se possa imaginar.

 

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Uma das principais características do bandwagoner é que tem sempre desculpa para tudo. Consciente de que a sua falta de lealdade não é bem vista sobretudo na comunidade de fãs de desporto, ele tem que ter uma argumentação mínima para a razão pela qual se tornou repentinamente um fervoroso adepto daquela equipa, geralmente acompanhado do abandono puro e simples da precedente.

 

A primeira invocada pode ser a falta de existência de uma equipa na sua zona ou cidade de residência. Ex: sendo fã de basket americano e nunca tendo vivido nos Estados Unidos, não posso apoiar a local team, como é óbvio. Então vou buscar as memórias de infância. Para além do Michael Jordan, que era O BASKET nos anos 90 (ser dos Bulls era a escolha evidente durante uma boa quinzena de anos), eu apreciava um jogador meio desengonçado de aparência (já sofria das costas no princípio dos anos 90) mas que tinha a capacidade de matar um jogo com a arma mais mortífera que existe no basket: o lançamento de 3 pontos. Este senhor, alto, loiro, com um cabelo desordenado e bigode quase invisível de tão loiro que o faziam parecer saído de um filme dos anos 70, era o Larry Bird. E apesar de ter apanhado a sua saga já no fim, a memória que tenho dos jogos dos Celtics dos anos 90 é que ele não falhava nenhum lançamento de triplo. Desde então, ficou-me o amor transversal pelos Chicago Bulls daquela época por representarem para mim a quintessência do basquetebol, e o apoio a uma equipa constituída de jogadores não tão espectaculares como Jordan, mas com uma garra e uma capacidade de luta fora de série. E à medida que me fui “educando” em basket NBA, fui apreciando a história, o percurso e as diferentes fases pelas quais passaram estes Celtas cuja camisola passei a arborar.

Porém, o bandwagoner age de maneira diferente. Já que não tenho equipa na minha cidade, nada me obriga a escolher e vincular-me a uma.

Sou de Alabama, onde não há equipa de basket profissional. Mas ao lado tenho Atlanta, que não se tem safado mal ultimamente, e do outro lado tenho New Orleans, que tem um dos jovens mais promissores da liga. Qualquer uma das duas que eu apoie, não há de ser um grande drama, será até legítimo.

Seria justo. Não fosse a tendência que ele tem para um dia apoiar uma equipa, e no seguinte apoiar o eterno rival. Pois em regra geral, as equipas geograficamente próximas tendem a rivalizar de maneira mais acérrima. Acredito que o “patriotismo” tenha levado muitos portugueses fãs do Figo a apoiar o Real Madrid depois de terem sido Barcelonistas ferrenhos durante 5 anos. E aí reconhecemos e diferenciamos o verdadeiro adepto de desporto do seguidor de modas. Para o bandwagoner? NO CHILL! Alguns passam do Manchester United para o City, da Lazio para a Roma, do Arsenal para o Chelsea, sem perceber a que ponto este comportamento herético os torna persona non grata para os verdadeiros fãs de ambos os campos.

Afinal de contas, é a mesma cidade, posso perfeitamente apoiar qualquer um dos dois se me apetecer, não?

NÃO. No desporto, e no futebol em particular, respeita-se um rival, mas despreza-se os troca-tintas oportunistas. Sobretudo recém chegados de um rival histórico.

 

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Outra razão recorrente evocada é a falta de elo afectivo à equipa local. É verdade que nem todo o mundo tem a mesma ligação à equipa do seu bairro/ cidade/ Estado, e muitas vezes escolhemos a nossa equipa em função de outros factores que não o geográfico. Eu, por exemplo, não tinha qualquer tradição familiar em termos de equipa no campeonato português. O meu avô materno era do Benfica, mas faleceu muito antes de eu pensar em nascer, e a minha Mãe nunca ligou a mínima para futebol. Assim sendo, aos 7 anos e vivendo em Lisboa, eu era um adepto“free agent”, sem equipa, à espera de ser maravilhado. E aí, em Maio de 1987, vejo um clube português a disputar uma final europeia contra o gigante Bayern de Munique. E um gesto iluminou a minha vida e fez-me começar a amar o futebol. Rabah Madjer no meio da pequena área e de costas pra baliza, recebe um centro de Juary. Sem pensar, instintivamente, o seu calcanhar dá o empate ao Porto, e soa a revolta do pequeno, que minutos mais tarde vai mandar o grande ao tapete e sagrar-se Campeão. Nasceu ali naquele momento, para mim, a Mística do Futebol Clube do Porto, e ali me tornei sem pestanejar um portista ferrenho. Antes mesmo do golo da vitória, eu queria ser da equipa do gajo que marca golos sem sequer olhar para a baliza.

Pois bem, esta desculpa é absolutamente perfeita para os bandwagoners. “Conheço muito lisboeta que é adepto do Porto, não me vou ligar a uma equipa só porque moro na cidade.” Pois não. Mas o que está aqui em discussão mais uma vez é a CONSTÂNCIA, a COERÊNCIA na maneira de apoiar uma equipa. Ser adepto, é CRIAR laços emocionais com uma equipa, com uma história, com uma comunidade. E ser capaz de romper esses laços (que se supõem fortes) com a facilidade com que se muda de camisa é pecado original para o fã incondicional.

Mas se os jogadores e treinadores podem trocar de equipa sem serem considerados mercenários, porquê que eu não hei de poder? Isto é a mais pura hipocrisia! Se for preciso passam de um clube para o rival, e são vistos como heróis na mesma… 

Porque para eles, futebol é TAMBÉM um negócio. O que não quer dizer que eles não criem os tais laços emocionais com os lugares onde jogam. Como prova, o respeito que a maioria tem de não festejar os golos que marcam contra uma antiga equipa. Simplesmente, a componente negócio hoje em dia tende a falar muito alto. Um indivíduo que comece a carreira como jogador num clube, se torne adepto, sócio, e anos depois vá treinar o rival, está a ser infiel? Para alguns puristas, sim. Para alguns realistas, não. Ele está a seguir o projecto com melhores condições de trabalho, para mostrar o que vale, e um dia talvez, pôr todo esse saber e experiência ao serviço do seu clube do coração. Quantos Paulos Futres jogaram para o Sporting, Porto e Benfica ao longo de uma carreira? Desde que no fundo, sejam gratos por todas as experiências adquiridas ao longo do percurso, mas saibam onde reside a sua lealdade… Não é por ter ganho a Taça dos Clubes Campeões Europeus com o Porto que o Futre é menos sportinguista na alma.

 

Paulo FUTRE Panini Sporting Portugal FC Porto

 

Outra justificação recorrente para a prática do bandwagon: “eu sou fã da modalidade, e aprecio o bom jogo de uma maneira geral!” JUSTÍSSIMO! Mas então… O quê que te obriga a vestires-te das cores da equipa  da cabeça aos pés, de maneira a passares não por um mero apreciador da modalidade, mas por um fã absoluto da equipa cujas vestes arboras??? A isso chama-se mandar mixed signals, meu! É como se um morador dos bairros complicados de LosAngeles se vestisse de azul um dia e de vermelho no dia seguinte, porque não lhe apetece escolher entre Crips e Bloods, apenas gosta da actividade dos gangs de maneira geral! Claro que podes comprar uma camisola de um jogador de quem gostas muito independentemente do clube, mas chegar ao extremo de comungar com outros fãs de uma equipa sem a ela estar emocionalmente vinculado, é o que torna estes indivíduos INSUPORTÁVEIS a quem é verdadeiramente adepto.

E para concluir, não há nada pior do que o Celebrity Bandwagoner, o porta-bandeira oficial dos troca-tintas. É que para além de ter uma visibilidade brutal, de ser amigo de todos os jogadores deste mundo e do outro, parece tentar ser adoptado por todos eles. Este espécimen torna-se o alvo de todas as  piadas possíveis, e consegue cristalizar (pela sua enorme projecção mediática) todos os males imputáveis ao bandwagoner.

 

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Por todas estas razões e mais algumas, permitam-me terminar este artigo com uma homenagem a um adepto de dar gosto. Um homem que há dezenas de anos fez da sua obra uma declaração de amor à sua cidade de adopção. Se tivéssemos que resumir Spike Lee em dias palavras, elas seriam NEW YORK. O nome dele é hoje quase sinónimo de Big Apple, tanto ele filmou o Harlem, Brooklyn, Bronx, Manhattan, e usou a SUA cidade (apesar de ser nativo de Atlanta) como tela de fundo para a sua imensa obra. Spike Lee sendo amante de basket, é um fã incondicional dos New York Knicks. E em todos os jogos em que lhe seja possível, lá está ele, na primeira fila do Madison Square Garden, da história do qual ele também já é parte integrante. Chova ou neve, faça sol ou nevoeiro, quem vai a um jogo dos Knicks a domicílio sabe que a probabilidade de encontrar um senhor baixinho, de óculos, Vestido de azul e laranja, a vociferar contra os árbitros, os adversários, mas sobretudo a encorajar os seus Knicks, que tanto têm precisado estes últimos anos. E tenha ele os amigos que tiver, que são muitos ligados ao mundo do desporto (cito apenas o Michael Jordan, que foi jogador dos Chicago Bulls, dos Washington Wizards, e hoje é proprietário dos Charlotte Hornets), nunca foi visto num campo de basket com uma camisola de outra equipa que não os seus amados Knicks. Essa lealdade, esse amor, essa fidelidade incondicional… É o que se chama ser adepto no verdadeiro sentido da palavra. 

 

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Ricardo Glenn Baptista

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