August 25, 2019

De todos os arquétipos do futebol  actual, o mais odiamado é sem dúvida o treinador. Deus nos livre de tocar nos “jogadores estrelas” em caso de derrota ou problemas na equipa. Quando muito, há um par de jogadores fuços e abaixo de forma que são os bodes expiatórios ideais em campo. Mas ninguém leva o selo de incompetência, de culpa por resultados abaixo do esperado tão bem como o Mister. Treinadores: quem são? Como vivem? Qual o seu habitat natural? Felizmente que o Entre Linhas está aqui para responder a estas perguntas que todos vocês se colocam um dia ou outro.

 

 

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Origem

O treinador (respeitosamente chamado Mister pelos jogadores) pode corresponder a 3 subgrupos principais:

O ex-jogador de futebol – Em 77,4% dos casos, era um jogador defensivo. Média de idade: cinquenta e dois.

Parou de jogar há algum tempo, mas ainda tem muito presentes as emoções do jogo e os cabelos esvoaçantes em caracóis semi-grisalhos (gel opcional). Teve também tempo suficiente para perceber que não ia conseguir vender Volvos o resto da vida, a ser reconhecido uma vez ou outra por um cliente fã da bola, mas que o confunde com outro ex-jogador que era ligeiramente menos mau do que ele.

De uma maneira geral, não foi bom o suficiente para se tornar embaixador ou dirigente do clube mais marcante da carreira, nem ganhou dinheiro e notoriedade suficientes para viver o resto dos seus dias como playboy internacional. Este treinador sofreu do vazio pós carreira como todo o reformado antecipado que sente que “ainda tem muito a dar à sociedade, ao clube, ao futebol”, e conseguiu escapar à espiral de alcoolismo, violência doméstica, divórcio exposto nos media e programa de reality TV (de preferência num país estrangeiro) para tentar reganhar a simpatia do público.

Depois de uma carreira mediana, de uns 5 anos sabáticos (que o levaram a perceber que o estado das suas finanças não vão permitir deixar de trabalhar para sempre) e de uma incursão pelas cadeias de televisão do cabo como consultor/ comentador/ polemista, este reformado decidiu formar-se de forma a estar apto a atacar um último desafio. Os primeiros anos pós-diploma são passados no banco como assistente, treinador da equipa B ou responsável das camadas jovens, a “ganhar estaleca”, a aprender a lidar com os jogadores “do outro lado”.

 

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A ex-vedeta de futebol  –  Em 63,9% dos casos era médio ofensivo. Média de idade: quarenta e quatro anos.

Foi artista. Foi adorado e venerado. Teve o melhor que o futebol pode oferecer. Os títulos, as selecções, a fama, o dinheiro, os carros, as amigas manequins, as mansões, as festas. Viveu La Vida Loca, mas sempre teve uma disciplina pessoal acima da média, e sabia que queria ser treinador. Talvez para completar um ciclo de perfeição e excelência profissional. Qualquer um pode marcar golos, quando o trabalho lhe é mastigadinho pelo meio campo. Os cérebros, os jogadores que são a voz do treinador no terreno durante a carreira são os melhores candidatos (no papel) a tornarem-se treinadores. Na verdade, hiperactivo durante toda a vida, não se imagina ficar em casa a tratar do jardim de 300 hectares, ou a dar a volta ao mundo 12 meses por ano. Não é tão fácil como isso ter conversas com a Miss Silicone 1998, mas só te dás conta disso quando páras… O objectivo supremo é tornar-se Seleccionador, e mostrar que é capaz de levar o país à glória mesmo sem pisar no gramado…

 

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O treinador-técnico (não jogou pro)  – Média de idade: trinta e oito anos.

Já aos 11 anos se apercebeu que não era bom o suficiente para continuar. Os joelhos tortos não ajudaram. “Ainda pode vir a ser um Garrincha”, dizia o pai esperançoso. Só que não. Não consegue contribuir entre as 4 linhas, mas o amor pelo jogo e pelo Championship Manager (que desde então virou Football Manager) fê-lo perseverar noutro campo onde sabia que poderia vingar: o quadro técnico-táctico!

Decidiu então dedicar-se ao estudo intensivo da disciplina futebolística em todas as suas vertentes, aliando a este conhecimento a psicologia, esoterismo e cartão de membro do Opus Dei: A GURU IS BORN! Este treinador é talvez o que maior entrega demonstra no exercício da profissão, o que mais saboreia as suas vitórias, mas também o que mais se deixa afectar pelas derrotas. Os adversários não perdem uma ocasião de lhe lembrar que ele não é “um deles”, que não vem do relvado, mas sim dos bancos de uma formação menos empírica, mais teórica. Aprumado e com uma mestria verbal de fazer inveja a um Cardeal do Vaticano, o treinador técnico pode ser o sonho tornado realidade de um presidente de clube, assim como o seu pior pesadelo. Geralmente, consegue passar de um para o outro muito rapidamente e sem transição.

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Desempenho

 

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Estando identificados os três tipos principais de treinador, temos também algumas diferenças em termos de filosofia de gestão de uma equipa. E se os três enaltecem o esforço, o trabalho, a perseverança e o sentido do colectivo como valores fundadores e essenciais para o sucesso, cada um o faz à sua maneira. O ex-jogador e o ex-vedeta, logicamente, pelo exemplo. É mais fácil seguir as directivas de um General que também foi soldado, e conhece as dificuldades da guerra por as ter vivido. No caso do ex-vedeta, torna-se inspirador saber que não só foi um soldado como os demais, como conquistou uma glória planetária baseando-se nestes princípios. Neste particular, o treinador técnico dispõe de uma lacuna evidente, mas tem a vantagem de poder utilizar a sua criatividade para a suprir. Pois se ele não conhece as sensações do campo em alta competição, costuma ser mais observador em relação ao que se passa fora dele, e com os seus dons divinatório-psicológicos, é capaz de focar os seus jogadores em  campo servindo de barreira aos problemas que eles encontram fora dele. Pois os 15 anos que os outros passaram a viver os problemas do jogador de futebol, o treinador técnico passou a observá-los, estudá-los, esmiuçá-los, desvendá-los.

 

Alguns treinadores priorizam a sua visão táctica acima de tudo. Outros são mais voláteis, preferem adaptar-se. Para alguns, existe um esquema de jogo que dita tudo o resto, inclusive as características dos jogadores que se vai buscar. Mais técnicos, mais físicos, mais quebra-canelas… Tudo em torno de uma ideia de jogo. Para outros, adaptar-se ao adversário impedindo o de desenvolver o seu jogo habitual é o princípio de base, o que subentende um conhecimento perfeito do oponente, e contar com jogadores polivalentes, capazes de passar de ponta de lança a defesa lateral quando é preciso “estacionar o autocarro”, por exemplo. Em termos de comunicação, alguns preferem deixar falar os resultados da equipa. Outros, mais “mediáticos”, debitam todo o tipo de desculpa ao microfone, desde a má fé do árbitro à má conduta do treinador da equipa adversa, à violência de que a sua equipa foi vítima em campo, à namorada do seu ponta de lança que o abandonou na véspera de um jogo importante, condicionando grandemente a sua concentração e performance.

Entre especiais e normais, há espaço para todos; entre ex-vedetas e ex-anónimos, entre clubes milionários e clubes amadores, de fato e gravata ou fato de treino, a figura do treinador varia mas mantém-se invariável. No fim, as diferenças deixam de ser tão visíveis depois de vários anos de prática e experiência no banco. A Argentina não se vai esquecer nunca de Diego Armando Maradona e do que ele significou com o jogador para toda uma geração… Mas como Seleccionador, está mais ou menos visto que a sua aura teve os seus limites…

 

Em suma, o sucesso não depende só da qualidade intrínseca do treinador ou do colectivo que ele lidera, mas de todo um conjunto de factores. O temperamento, a capacidade de liderar os jogadores e a equipa técnica, o talento de que dispõe no plantel, o dinheiro de que dispõe para comprar jogadores de qualidade, a sorte de os jogadores com que conta se manterem saudáveis e sem lesões… Esta lista poderia continuar durante dias. Treinadores há de todas as formas, idades, modas e manias. Todos temos as nossas preferências, muitas vezes condicionadas pelos clubes por que torcemos. Por vezes adoramos o gajo que nos fez ganhar, mesmo sendo ele pouco merecedor de louvores; por vezes odiamos o que não nos faz ganhar, ou caímos em desamor com aquele que saiu sem avisar, deixando-nos órfãos da sua sabedoria.

 

O futebol é um desporto que provoca paixões, e a sua quota parte de reacções irracionais, emocionais. O treinador, primeiro líder da equipa, é muitas vezes o alvo dessas reacções sejam elas positivas ou negativas. E seja a que nível for, não há jogador de futebol que não tenha tido um Mister que o inspirou, que o encorajou, que acreditou no seu potencial. Por isso, e por todo o contributo de todos os treinadores na formação de jogadores e homens, estes hão de ter SEMPRE um papel preponderante no futebol.

 

E tu, que tipo de treinador serias?

 

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Ricardo Glenn Baptista

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