June 18, 2019

Sou o sócio número 25386 do Sport Lisboa e Benfica.

Até há bem pouco tempo, vivia a 10 minutos do Estádio da Luz. Convivi desde criança com as confusões dos jogos ao fim-de-semana e dos jogos aos dias de semana, quando havia competições europeias. Ficava vidrado a ver o entusiasmo das pessoas a chegarem ao antigo Estádio da Luz como os cachecóis e com bandeiras vermelhas desfraldadas ao vento. Cresci com o barulho dos jogos a entrar dentro de casa, barulho esse que era maior se o vento estivesse a soprar de Norte para Sul. Ficava maravilhado a olhar para a luz intensa dos holofotes do antigo Estádio da Luz, que conseguia ver da janela do quarto da minha mãe. Era uma criança e todo aquele ambiente fascinava-me. Na altura, uma das minhas maiores alegrias era celebrar com o meu pai e com as pessoas que estavam ao meu lado, no antigo Estádio da Luz, o momento em que os jogadores do Benfica faziam balançar as redes.

Andei 9 anos na natação do Sport Lisboa e Benfica. Recordo-me de querer ser o primeiro a sair das aulas de natação para ver se conseguia ver os jogadores da formação do clube, que treinavam num campo ao lado do complexo das piscinas antigas do Benfica, e alguns jogadores da equipa principal que iam buscar os filhos ao treino. Lembro-me de brincar no recreio da escola a imaginar que estava no relvado do antigo estádio com as bancadas lotadas de adeptos fervorosos. Fazia tudo aquilo que via os meus heróis fazerem. Simulava a entrada no relvado em fila, o pontapé de saída, as fintas e as celebrações dos golos com o público. Fingia que estava a disputar uma final, que o Benfica estava em posição de desvantagem no marcador, que conseguia fazer a reviravolta, marcando o golo da vitória nos últimos minutos e que os colegas da minha equipa corriam desenfreadamente atrás de mim para celebrarem o golo comigo. Nesse momento de euforia, passava junto ao gradeamento, despia a camisola e lançava-a para os adeptos que estavam na bancada a celebrar o meu golo de forma radiante.

Com o tempo, fui percebendo melhor as regras do jogo, passei a seguir o Benfica com mais atenção e a defendê-lo de forma feroz quando algum colega de escola se atrevia a fazer troça dele.

O momento em que senti que este clube era uma parte importante da minha vida foi no memorável jogo Bayer Leverkusen – Benfica em 1994. Tinha então nove anos de idade. Nesse momento, apercebi-me que aquilo que havia entre mim e o Benfica era paixão. Paixão eterna. Paixão enorme. Senti um turbilhão de emoções. No final desse jogo, chorei de alegria como até hoje nunca mais voltei a chorar.

A partir desse momento, passei a acompanhar com regularidade o futebol do Benfica e as minhas loucuras por este clube foram crescendo. Já subi sinais de trânsito para festejar as vitórias mais importantes com a equipa técnica. Apanhei boleia de desconhecidos para ir ver o Benfica jogar fora. Passei uma noite em branco no Estádio da Luz para poder ver o Benfica jogar uma final europeia. Faltei às aulas de manhã para apanhar o comboio e ir ver os treinos do Benfica em Massamá. Esperei horas na garagem do Estádio da Luz para falar com alguns jogadores e exprimir-lhes o que me ia na alma. Quando me perguntam por uma das principais referências do Sport Lisboa e Benfica, eu respondo “Senhor Coluna”. Cheguei a pertencer a uma das claques do clube e, obviamente, estive em Amesterdão.

Depois de ter sido detentor de lugar cativo durante vários anos, esta época tomei a dificílima decisão de não renovar o meu lugar. A razão prende-se com a mágoa enorme que tenho tido ao observar a forma como vários departamentos do clube do meu coração, nomeadamente o departamento de futebol, têm sido geridos nos últimos anos.

Acima de tudo, “Sou do Benfica e isso me envaidece…”.

Abel Teles de Andrade

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE