December 13, 2019

 

O que fazer quando o interruptor não funciona e o tanque não dispara? Alguns dos principais “mano-a-mano” no coração da NBA e quem os está a vencer.

 

O Fight Club regressa e traz novamente com ele alguns dos conflitos que emergiram na Liga nos últimos dias. Pode ser mais sério, como Rockets vs. Defesa (para já, vantagem: Rockets) ou mais leve, como D’Angelo Russell vs. Telemóveis (vantagem: telemóveis). Alguns serão mais difíceis, como “Qual o franchise actualmente mais ridículo: Knicks ou Kings?” (vantagem sempre (sempre!) para os Knicks), outros mais fáceis, como Isaiah Thomas vs. Todos os outros candidatos a MVP (vantagem: todos os outros). Certo é que vocês não vão concordar com alguns. E não há nenhum problema nisso.


 

Cavs vs. Interruptores avariados

 

 

Parece que há uma espécie de tradição anual na NBA que passa por, a determinada altura da época, começarmos a desconfiar dos Cleveland Cavaliers (e outras equipas anteriores de LeBron James). Uma série de jogos menos conseguida – normalmente com origem numa defesa deficiente – inaugura uma catapulta de críticas feitas por jornalistas e analistas incautos, que têm depois de engolir em Junho um sapo do tamanho dos ténis do LBJ (ele calça o 50). É uma situação em que não se pode ganhar. Desconfia dos Cavs e vais parecer estúpido quando eles ganharem o campeonato. Fica caladinho e terás ignorado o elefante no meio do campo de basket.

 

Mas… a verdade é que estes Cavs não parecem bem. Escrevo estas linhas depois de duas vitórias consecutivas que mascaram um pouco a crise, contra uns depauperados 76ers – o tanking mais forte a Este de Phoenix – e contra uns Pacers que os levaram a duplo prolongamento.* Mesmo com essas duas vitórias, desde Março os Cavs ganharam 8 jogos e perderam 10. Tiveram duas séries de três derrotas consecutivas.

 

E não pensem que se trata apenas de um mau mês, com road trips lixadas. Se recuarmos até ao início do ano, identificamos uma tendência clara e consistente: há três meses que os Cavs não são uma boa equipa. Desde o virar do ano, ganharam 24 jogos e perderam 20. Isso representa uma percentagem de vitória de 0,545, a mesma que os Grizzlies – em 7º no Oeste – têm na época toda.

 

Qualquer semelhança entre estes Cavaliers e um candidato ao título parece ser pura coincidência. E o problema parece estar na defesa. Desde o All Star Game, só os Lakers têm uma defesa pior do que os Cavs. Sim, esses Lakers para quem as rotações defensivas são equações de mecânica quântica. Pensem um pouco nisso: os Cavs estão a defender pior do que equipas que estão a dar o máximo para perder jogos. Mesmo o LeBron, que quando está motivado é um dos melhores defensores da Liga, tem estado muitos furos abaixo do habitual. Não é que antes os Cavs fossem uma força defensiva – eram os 20ºs da liga -, mas quando te comparas com os Lakers é altura de fazer soar os alarmes. Actualmente, o Fivethirtyeight dá-lhes apenas 2% de probabilidades de vencer o título.

 

Os Cavs estão mais velhos e mais lentos, e a chegada de Korver e Deron Williams podem ter ajudado o ataque, mas abriram mais buracos no lado defensivo. Alguns sintomas de má defesa: desde o All Star, os Cavs têm o número mais baixo de bolas desviadas por jogo (menos de 12, enquanto GSW lidera o ranking com quase 20), um dos três mais baixos de bolas “perdidas” recuperadas e ninguém sofre mais pontos por jogada de contra-ataque. Entre as estatísticas mais convencionais, os Cavs fazem menos de 5 roubos de bola por jogo, enquanto a segunda pior equipa nesta categoria faz 6,4.

 

São indicadores de esforço e é verdade que se tem falado de complacência defensiva. Equipas experientes e que já ganharam tudo tendem a conservar energia para os playoffs. Mas também não parece ser (só) isso que está a acontecer. LeBron James, por exemplo, está a jogar muitos minutos. Contra os Pacers foram 52 e, ao longo de toda a época, tem uma média de quase 37 por jogo. O segundo registo mais elevado da NBA. Bem mais do que alguém de 32 anos devia estar a jogar. Principalmente quando foi a 6 (!) finais consecutivas.

 

Para já, a única consequência foi perderem o primeiro lugar da Conferência Este para os Celtics. Nada de extraordinariamente grave. Por mais do que uma vez LBJ já mostrou que home court advantage não é fundamental para ir às Finais e nem sequer me parece certo que Boston chegue à final de conferência.

 

Historicamente, uma boa defesa tem sido o melhor indicador para prever o sucesso nos playoffs (mais do que o ataque). Aliás, caso cheguem às Finais, estes Cavs serão a pior defesa de sempre a fazê-lo. A excepção são os Lakers de 2000/01, os únicos campeões com uma defesa abaixo da média, que curiosamente fizeram a melhor post-season de sempre: 16-1.

 

Agora, chegámos aquele parágrafo em que eu desvalorizo tudo o que escrevi até agora. A minha hesitação em fazer este texto é saber que equipas experientes como os Cavs, principalmente uma que tenha um dos 10 melhores jogadores de sempre, sabem quando têm de accionar o já mítico “interruptor”. O problema é que, como todos os interruptores, há um momento em que ele deixa de funcionar. Pode ser desta que a luz não acenda.

 

Vantagem: Interruptores avariados.

 

* Entretanto, só para me lixar, os Cavs ganharam outra vez ontem contra os Magic.


 

MVP’s vs. Turnovers

 

LeBron James e Kawhi Leonard merecem fazer parte da conversa sobre a escolha do MVP, mas quer gostemos quer não, só há dois candidatos com possibilidades sérias de vencer: Russell Westbrook e James Harden. Os méritos de ambos já foram amplamente discutidos, ao longo de uma época verdadeiramente histórica, mas e os pecados?

 

Entre os recordes invejáveis que estão a bater, há um que resistia há mais de 40 anos do qual se orgulharão menos: os turnovers. Se considerarmos a ABA e a NBA, George McGinnis cometeu em 1974/75 o número mais elevado de turnovers numa época, com 422. Fast forward para 2017 e Harden já vai em 440. Westbrook está apenas a 8 TO de McGinnis e também o deverá apanhar.

 

No caso de Westbrook, este recorde é conseguido por força de um outro recorde: o Brodie atingirá provavelmente a usage rate mais elevada de sempre (42% das posses de bola dos Thunder terminam com lançamento, lance-livre ou turnover do Westbrook), batendo por muito o recorde anterior de Kobe Bryant em 2006, quando partilhava o campo com hall of famers como Kwame Brown, Smush Parker e Chris Mihm.

 

Este lado mais negro desta campanha de MVP tem sido menos discutido, mas se esse é o preço a pagar para duas épocas fora de série, como aquelas que estes dois nos estão a oferecer, eu assino por baixo.

 

Vantagem: MVP’s.


 

Aaron Gordon vs. A honra de Marcus Smart e de toda a sua descendência futura

 

 

Vantagem: É ver o vídeo!


 

Tanque dourado vs. Tanque roxo

 

 

Ao contrário do que algumas pessoas pensam, o tanking não existe para os jogadores. Quem vai para dentro de campo dá tudo para ganhar o jogo. Nenhum jogador tem interesse em parecer pior do que é para ter qualquer vantagem no draft. O problema normalmente é quem não está em campo. E raios se o tanking não existe entre aqueles que mandam nas equipas!

 

Quando alguém diz “até ao final da época, o nosso objectivo é desenvolver os jogadores mais novos”, isso é código para “vamos tentar perder uns jogos e ter umas bolas de ping pong extra no sorteio do draft”. Muitas vezes isso faz-se retirando a possibilidade de utilizar jogadores mais experientes.

 

Neste momento, ninguém na liga está a fazer um trabalho tão imaculado nesta área como os Lakers e os Suns. Duas equipas num braço-de-ferro renhido para ver quem traz o mais embaraçoso produto basquetebolístico para dentro de campo. Com os Nets aparentemente entrincheirados na última posição, resta disputar o prémio de consolação da mediocridade.

 

Em Los Angeles, isso faz-se anunciando que Mozgov, Deng e Nick Young não jogam mais este ano e trocando Lou Williams para os Rockets. Mas os Suns não deixam os Lakers ficarem a rir-se. Bledsoe, o melhor jogador da equipa, não joga há duas semanas nem vai calçar mais este ano. O mesmo para Chandler e Knight. Até Devin Booker, fresquinho de marcar 70 pontos, ficou a descansar dois jogos depois, não fosse ele ajudá-los a ganhar.

 

O resultado é um cinco inicial que talvez tivesse dificuldades em ganhar na D-League: Tyler Ulis, T. J. Warren, Derrick Jones, Alex Len e Marquese Chriss.

 

Para os Suns, esta deriva derrotista tem um objectivo claro: num draft com duas escolhas bem definidas nos lugares 1 e 2, é bastante vantajoso ter mais probabilidades de ficar numa dessas posições (embora mais um base não seja propriamente uma necessidade para Phoenix). Para os Lakers, a situação é muito mais decisiva. Se o sorteio ditar que a pick deste ano fica fora do top 3, ela é transferida para os 76ers. Pior: isso significa automaticamente que a pick de 2019 também vai para os Magic. Ouch.

 

Ficar com a pick, seja para a trocar ou escolher o Lavar Lonzo Ball, seria muito importante para a recuperação da equipa. Porém, mesmo que “consiga” ser a segunda pior equipa da NBA, isso só dá aos Lakers 55,8% de probabilidade de ficar no top 3. Se os Suns acabarem por ter um record pior, essa percentagem cai para 46,9%. Se ficarem empatados, dividem a coisa: 51,6% para um e 51,4% para outro. Ou seja, em qualquer dos cenários, o destino dos Lakers será basicamente definido por uma moeda ao ar. Um pesadelo para quem faz a gestão da equipa, principalmente alguém com tantas dificuldades em contas de somar, como Magic Johnson.

 

O mais grave é que os jovens Lakers não parecem querer saber destas contas e ganharam aos Grizzlies há uns dias, enquanto os Suns seguem numa incrível série de 0-12. Um tanking fenomenal, que já os colocou em penúltimo lugar. É que nem a perder os Lakers são bons.

 

Vantagem: Tanque roxo (para os daltónicos, são os Suns).


 

Rose vs. Karma

 

 

Começam a faltar sinónimos para “tristeza” e “desilusão” que sejam capazes de descrever a carreira de Derrick Rose. O MVP mais novo de sempre voltou a parar por lesão e vai ter de ir novamente à faca para uma operação ao menisco. Em cinco anos é a quarta operação aos joelhos (duas em cada um deles). A época não estava a ser brilhante, mas até aceitável (18pts, 4 assistências, 4 ressaltos, 47% de FG), embora muito longe do epíteto de “super team” que o próprio Rose chegou a usar para descrever os Knicks dele, do Noah, do Carmelo e do Porzingis. Nem sequer aos playoffs vão.

 

Rose tem “apenas” 28 anos – a mesma idade de Curry -, mas é possível que o corpo já tenha suportado tudo aquilo que pode para ser uma estrela da NBA. No próximo regresso, dificilmente Rose será mais do que um role player com fogachos de brilhantismo passado. Uma condição certamente difícil de suportar para um dos jogadores mais excitantes da última década. Tenho especial pena da época 2011/12, quando me parecia que os Bulls tinham uma hipótese real de eliminarem os Heat (ganharam os três jogos da época regular), mas Rose lesionou-se no primeiro jogo dos playoffs, contra os 76ers.

 

Rose será quase de certeza o primeiro MVP de sempre a não entrar no Hall of Fame. Estou triste.

 

Vantagem: Karma. Que é uma bitch.


 

Versus vs. Versus

 

A NBA é uma liga impaciente, onde o curto prazo é rei. Sem querer dominar este segmento com a arte da auto-citação, há um mês escrevi aqui sobre o jovem Curry e como, apesar de a vida não lhe estar a correr bem, o mais provável era as coisas melhorarem. Bom, foi mais ou menos isso que aconteceu. Curry está a jogar muito melhor – o auge foram os 42 pontos e 9 assistências contra os Wizards – e já ninguém fala de crise em Golden State, que venceu os últimos 11 jogos.

 

Contra os Wizards, Curry acertou 9 triplos em 14 tentativas. E ao longo de toda a temporada esta tem sido uma constante: quando os Warriors vencem, Curry acerta uma percentagem média de 43,5% de triplo, quando perdem ele faz a sua melhor imitação do Metta World Peace e acerta 26,7%. Não é possível saber se eles perdem porque ele lança mal ou se ele arrisca triplos mais difíceis quando eles estão a perder, mas os dois fenómenos aparecem de mão dada.

 

Durant volta este sábado. Perfeito para fazer um Durant vs. Curry?

 

Vantagem: O senso comum.

 

Nuno Aguiar

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