December 10, 2018

 

O Processo e a Lei de Murphy fechados numa sala com dois paus afiados. Quem ganha? Alguns dos principais “mano-a-mano” no centro da Liga e quem os está a vencer.

 

Isto não tem muito que se lhe diga. De vez em quando vou olhar para a NBA e escrever sobre alguns dos confrontos que estão a marcar as últimas semanas. Por exemplo, Shaq vs. McGee. Depois de horas de estudo a ver o Shaqtin a Fool e ouvir o que tinham a dizer as mães de cada um deles, escolho quem venceu a batalha (by the way, foi o McGee, com a ajuda do resto dos Warriors, da mãe do Shaq e provavelmente dos administradores da TNT). Há uns difíceis – Magic Johnson vs. Matemática – outros fáceis, como quando o Draymond Green eviscerou o Paul Pierce. Vocês não vão concordar com muitas. Por isso é que estas coisas são divertidas.


Curry vs. Lei das Médias

 

Este título ficava muito melhor em inglês, mas que se lixe. Stephen Curry está a atravessar um momento difícil. Não só perdeu as Finais depois de estar a ganhar 3-1, como agora pode ter perdido Kevin Durant para toda a época. Para piorar as coisas, atravessa uma série de jogos em que a bola parece não querer entrar. Antes do jogo melhorzinho contra os Hawks, Curry estava a atirar 20% de triplo nos quatro jogos anteriores, incluindo 0-11 em Philadelphia. E não é apenas esta amostra pequena que revela dificuldades. Na totalidade do ano, Curry tem a pior percentagem de triplo de toda a carreira (ligeiramente abaixo de 40%, longe dos 45% do ano passado). Curiosamente, passa-se algo semelhante com Klay Thompson, que tem a segunda pior % da carreira de três pontos.

 

Sem Durant e com os Splash Brothers uns furos abaixo do modo DEUS, muitos começam a duvidar que Golden State volte às Finais este ano. O campeonato de 2015 já lá vai e parece que foi há décadas que Curry foi o primeiro MVP unânime da NBA enquanto estava entretido a revolucionar o jogo. É tudo old.

 

 

Para Curry, deve ser aquilo que um astronauta sente quando está há meses a viver no espaço e volta a sentir a pressão da gravidade a prendê-lo ao chão na Terra.

 

A questão com Curry é que aquilo que ele faz parece tão improvável que quase achamos natural que falhe. Como uma anomalia no código que finalmente foi corrigida, devolvendo o universo ao equilíbrio. Buzzer beaters do meio campo entusiasmam-nos, mas também nos deixam nervosos. Quando Curry parece humano, isso descansa-nos. Nunca foi suposto fazer aquilo.

 

O problema é que, embora continuemos a ver Curry como uma anomalia, ele tem um historial suficientemente robusto para confiarmos que vai voltar a entrar no ritmo. Sem Durant, teremos provavelmente mais oportunidades para voltar a ver o Curry clássico a que assistimos nos últimos dois anos. A explosão está a chegar. É aí que meto o meu dinheiro. Afinal, ele foi o homem que nos deu isto.

 

 

Até lá, o meu conselho é “carry on, my son”. Vantagem: Curry.

 


Fire vs. Ice

 

Caso não tenham reparado, os Kings trocaram um dos melhores jogadores da NBA e chorão profissional, DeMarcus Cousins, por três pastilhas, dois clips e um bocado daquele cotão que se acumula nos bolsos. Não vamos bater mais nos Kings – embora um Sacramento vs Q.I. possa ser interessante – e vamos concentrar-nos nesta experiência de manipulação genética que é juntar Cousins a Anthony Davis, provavelmente o melhor jogador sub-25 anos da NBA. A mistura não podia ser mais diferente. Um dispersa mais o seu jogo, ou está debaixo do cesto ou a lançar triplos. Outro distribui os lançamentos por todo o campo, incluindo o agora odiado mid-range. Um é melhor a atacar, o outro a defender. Um é força, outro é velocidade. Um tem duas sobrancelhas, outro só tem uma. Mas talvez as principais diferenças sejam de personalidade. Davis é calmo, Cousins é um vulcão prestes a explodir a qualquer momento. Basta dizer que em cinco anos de carreira, Davis tem um total de 12 faltas técnicas. Cousins tem 19… só esta época. Um total de 110 em 7 anos. Desde que os jogadores são suspensos a partir da 16ª técnica nunca ninguém tinha chegado tão cedo a esse número como Boogie (o recorde anual pertence a Rasheed Wallace, com 41). Muitos números para dizer que Cousins é um *pouco* instável. Essa realidade não deve escapar ao próprio, uma vez que atribuiu as alcunhas Fire e Ice à dupla que faz agora com Davis. Davis é Ice e ele, claro, é Fire.

 

Mesmo ultrapassando a questão do temperamento, ninguém sabe se na actual NBA ainda é possível jogar com dois postes. Hoje ainda acordo com suores frios quando me lembro do desastre que foi forçar Gasol a jogar ao lado de Howard nos Lakers. Os Pistons tiveram de separar Drummond de Monroe, Jokic+Nurkic nunca funcionou, os 76ers acabaram de trocar o Nerlens Noel por duas jolas fresquinhas e até Memphis desistiu da dupla titular Marc Gasol e Zach Randolph. Vocês percebem a ideia… Os Jazz ainda insistem em Favors+Gobert, mas com um papel subalternatizado para o primeiro.

 

A tendência da NBA é que o PF seja um SF um pouco mais alto, competente no drible, saiba passar bem a bola, marque uns triplos e não seja assassinado no garrafão. Se estão a imaginar o Jeff Green, não perceberam nada disto. Se estão a imaginar o Draymond Green estão no caminho certo. O que me deixa tão intrigado com a dupla Cousins+Davis é que eles conseguem fazer tudo isso e são mais talentosos do que todos os pares que citei no parágrafo anterior.

 

Apesar de as coisas não terem começado bem (estão 2-4 desde a troca), os Pelicans devem ser melhores com Cousins. New Orleans queria há muito tempo um poste para juntar a Davis (RIP Omer Asik). E, tendo em conta aquilo que abdicaram, o risco de apostar em Cousins é totalmente justificado. Ainda assim, não posso deixar de assumir que estou pessimista. Não é só porque juntar Cousins e Davis é o mesmo que meter ananás na pizza, é também porque as informações que foram saindo de Sacramento pintam cousins como absolutamente tóxico, que desobedece a treinadores, ameaça lutar com colegas de equipa e não gosta de ver outros serem elogiados à sua frente. O facto de ele nunca ter conseguido ir aos playoffs também me deixa de pé atrás (eu sei que Oeste é difícil etc etc etc, but still…). Mais: o contrato de Cousins só dura mais ano e meio. Se os Pelicans não estiverem a competir pelo topo do Oeste nessa altura, não sei se ele estará inclinado a renovar.

 

Acima de tudo, será interessante perceber se era Cousins que era demasiado tóxico ou Sacramento absolutamente disfuncional. Descobriremos nos próximos meses. Em A Song of Ice and Fire é suposto os dois elementos darem origem a algo melhor (pff não me culpem se googlarem isto!), mas neste caso tenho muitas dúvidas que este matrimónio não acabe como um certo casamento vermelho. Vantagem: Ice.

 

Até lá, vamos aproveitar a viagem.

 


O Processo vs. Lei de Murphy

 

Eu sou um fã do Processo. Ou melhor, aceito que aquilo que os 76ers fizeram foi simplesmente aproveitar as regras e os incentivos da NBA. Só nunca ninguém o tinha feito de forma tão ostensiva e agressiva. E essa estratégia acabou por lhes dar um jogador capaz de carregar um franchise. Quando finalmente foi promovido a entertainer das redes sociais a jogador profissional de basquetebol, Joel Embiid mostrou que é uma besta. Um poste dominante e provavelmente o mais amado sixer desde Iverson. As médias por 36 minutos são de ficar de queixo caído: 29 pontos, 11 ressaltos, 3 assistências, 1 roubo de bola e 3,5 (!) desarmes de lançamento. Um rookie. Ou seja, há potencial para ter aqui um dos 5 melhores jogadores da NBA. Era precisamente esse o objectivo do Processo.

 

Dito isto, o risco da estratégia está à vista de todos, começando com o facto de Embiid ter participado num total de 31 jogos em três anos na NBA (!!!). Isso significa que podemos fazer comparações alarmistas: jogou menos jogos no seu arranque de carreira do que Greg Oden. Ouch. Embiid não vai jogar mais esta época, Ben Simmons nunca calçou, muitos preferiam que o mesmo acontecesse com Jahlil Okafor e Nerlens Noel foi trocado para os Mavericks por um voucher Odisseias. O Processo está coxo.

 

Em Philly pode haver quem pense: se Embiid não conseguir ficar saudável e Simmons nunca aprender a lançar, o que é que todos estes anos de derrotas nos deixaram? Saric? Covington? Yah, ok. Tantas derrotas acumuladas e tanta entrada e saída de jogadores – Embiid é agora o sixer mais antigo… – também tornaram mais difícil a construção de qualquer cultura de equipa.

 

Esse é o risco da estratégia: ninguém sabe exactamente no que vão resultar escolhas de draft. Bust? Possível. Permanentemente lesionado? Pode acontecer. All Star? É o que se ambiciona. Outro problema é que escolher sempre o melhor talento disponível no draft, independentemente de como os jogadores funcionam uns com os outros, traz problemas para o futuro. Embiid, Okafor e Noel são C’s, enquanto Simmons, Saric e Covington deverão estar no seu melhor a jogar a PF. Só há 96 minutos para dividir por todos. É inevitável trocar alguns. O que nos leva a outro obstáculo…

 

… O tempo. Como todos os recursos, ele é escasso. E para os jogadores dos 76ers ainda mais. À medida que ele passa, alguns dos activos que os sixers acumularam com tanto fervor perderam valor, como a troca de Nerlens Noel para Dallas por um cabaz no Minipreço o comprova (tenho imensas destas preparadas). Depois de não ter jogado no primeiro ano devido a lesão – uma tradição em Philadelphia -, nunca teve tempo suficiente para mostrar serviço e justificar que alguém oferecesse mais por ele. Agora, a meses de se tornar free agent, os 76ers não queriam pagar aquilo que provavelmente alguém lhe vai oferecer, tentando conservar espaço para construir uma equipa à volta de Embiid. Colangelo até já admitiu fazer o mesmo no futuro com Okafor.

 

Fazer trocas a pensar no potencial futuro é mais fácil do que executá-las tentando ter uma equipa competitiva em campo. Pode parecer idiota, mas tendo em conta o salário que Noel iria exigir, ter Justin Anderson pode ser mais útil numa equipa com Embiid saudável.

 

Se Embiid atingir o seu potencial grande parte dos problemas vão resolver-se sozinhos. Afinal, depois da lesão, o homem mete um post no instagram com a localização “menisco”. Ele merece. Ainda assim, vantagem: Lei de Murphy.

 


Calderon vs. Todos nós

 

Jose Calderon meteu à carteira quase meio milhão de dólares por menos de duas horas de trabalho. O base espanhol aceitou receber menos 400 mil dólares nas negociações de buyout com os Lakers, tendo assinado pelos Warriors por 415 mil dólares e a probabilidade de um anel em Junho. O joelho de Kevin Durant não colaborou e Golden State achou que precisava de outro small forward. Venha então Matt ‘ai de ti que durmas com a minha mulher’ Barnes e até à próxima Calderon. Mas como os Warriors insistem em fazer tudo para que gostemos deles – menos quando começam aos pontapés a tomates -, decidiram contratar na mesma Calderon durante 80 minutos, pagar-lhe os 415 mil dólares e ainda ficar com umas t-shirts de recordação.

 

 

“Não havia hipótese de Joe Lacob [dono da equipa] não honrar [o compromisso]”, explicou Steve Kerr. “Tudo o que fazemos aqui é de primeira classe. Vocês sabem disso.”

 

Entretanto, Calderon já assinou pelos Hawks. Não estará a lutar pelo título, mas vai provavelmente estar nos playoffs. E ainda saca mais 250 mil dólares pelo caminho. Tu é que a levas bem, Calderon. Tu é que a levas. Vantagem: Calderon.

 

Nuno Aguiar

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