January 20, 2019

 

Há jogadores que fizeram história sem serem devidamente lembrados na posteridade. Peter “Pistol Pete” Maravich é uma dessas maravilhas esquecidas. Um jogador que marcou o basquetebol universitário, quebrando barreiras, batendo records, desafiando as regras e criando um novo standard para a maneira de jogar. Este era Pete Maravich, e se nunca ouviu falar nele, talvez esteja na hora.

 

Filho de um ex-jogador profissional e treinador de basket, Pete Maravich começou desde cedo, por instigação do pai, a viver, respirar, comer, brincar, dormir, sonhar basquetebol.

Petar “Press” Maravich, o pai, de origem sérvia, vivia na cidade industrial de Aliquippa, Pennsylvania. Para escapar à dureza da vida na siderurgia, que era o maior empregador da cidade, dedicou-se de corpo e alma ao basket. Depois de se formar e de cumprir o seu dever patriótico na Força Aérea americanas durante a segunda guerra mundial, Press jogou basquetebol nas extintas National Basketbal League e Basketball Association of America (que posteriormente se fundiram para formar a NBA que hoje conhecemos). Depois de uma curta carreira como jogador, dedicou-se a treinar equipas de liceu, e quando o seu filho nasceu em 1947, transmitiu-lhe o vírus da bola laranja.

 

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O pequeno Pete Maravich enfrentando jogadores bem mais velhos e altos que ele no high school…

 

Pete mostrou desde muito cedo  predisposição para a coisa, e o pai duplicou a dose de treino e de exercícios com bola na mão. Diz-se que ainda não sabia andar e já sabia driblar. Ao crescer, apesar de franzino, foi se tornando exímio na arte de manobrar a bola de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Tanto que aos 13 anos, antes de ter idade para frequentar o liceu, já representava a equipa do Daniel High School. Mais novo e mais pequeno que todos os seus companheiros e adversários, Pete era constantemente subestimado. Isto até lhe chegar a bola às mãos. A partir daí, o rapaz magricelas transformava-se numa máquina fatal. Driblava mais rápido, soltava-se de qualquer defesa sem dificuldade, e com os seus braços desprovidos de músculos, iniciava o seu lançamento a nível da cintura, como se estivesse a sacar um revolver do coldre. Daí a alcunha de Pistol Pete. E por mais que o movimento fosse inédito, era mais do que eficaz. Quando os adversários se apercebiam que o “miúdo” sabia lançar, já não o deixavam à vontade no perímetro. E aí começava a verdadeira loucura. Com espaço para penetrar, fazia o que queria e bem entendia, fintando, fazendo desaparecer a bola como por magia, passando-a para companheiros de equipa que estavam à espera de tudo menos de a receber. E a lenda estava em movimento!

 

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Pete Maravich tinha um comportamento completamente obsessivo em relação ao basquetebol. Nunca durante toda a sua escolaridade foi visto sem uma bola nas mãos. Reza a lenda que ia para a escola a pé ou de bicicleta a driblar a bola; ia ao cinema com a bola, e fazia os seus exercícios de controlo de bola durante o filme todo. A sua rotina diária incluía séries de centenas de lançamentos ininterruptos, que recomeçava do zero caso falhasse um. Pete passava horas a fio com o pai a aperfeiçoar cada gesto,  e cada momento livre do seu tempo a treinar, a inventar gestos que mais ninguém era capaz de reproduzir.

Entre o primeiro e o último ano de high school, Pete ganhou duas dúzias de centímetros de altura, entrando na Louisiana State University (onde o seu pai era treinador) com respeitáveis 1,96m. Com isso, a sua confiança já quase infinita nas suas capacidades aumentou ainda mais, e entregou-se de corpo e alma ao jogo acreditando que seria o primeiro jogador da história a assinar um contrato de um milhão de dólares quando se tornasse profissional. Pete estava convencido que o basquetebol estava não só no seu ADN, mas no seu destino. Numa altura em que as universidades que competiam na NCAA eram povoadas por brancos essencialmente, Pete era um autêntico one-man-show apenas comparável aos Harlem Globetrotters. O seu jogo era menos rígido que o da NCAA, mais improvisado, mais espontâneo, e por conseguinte, desconcertante, tanto para adversários como para companheiros de equipa.

No primeiro ano de faculdade, devido às regras da altura, Pete não pôde representar a equipa principal, pelo que as suas estatísticas universitárias contam apenas os 3 últimos anos. Ainda assim, Maravich é o recordista absoluto de pontos marcados no campeonato NCAA, com 3667 em 83 jogos. Sim, dá uma média de 44,2 pontos por jogo. Num período de 3 anos. Antes da introdução da linha de 3 pontos. Só para termos uma ideia, o segundo da lista de melhores marcadores na carreira universitária tem 3249 pontos em 4 anos e 106 jogos.

 

 

Mas se Pistol Pete são números, não pode ser resumido apenas a isso. Maravich, com a sua virtuosidade e visão de jogo, conseguia ser um perigo ofensivo como se via pouco nas universidades americanas. Tinha um arsenal de movimentos que saíam totalmente do molde do jogo. Desde passes “cegos” a dribles estonteantes, uma velocidade de mãos totalmente avassaladora.

 

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O seu salto para a NBA não passou despercebido, e a jovem vedeta universitária assinou um contrato de 1,9 milhões de dólares por 4 anos com os Atlanta Hawks em 1970. O valor era inédito na altura, e os veteranos não aceitaram muito bem a ideia de um miúdo receber aquela soma astronómica de dinheiro sem ter provado nada na NBA. O facto de ele ser branco, e a maioria dos jogadores da equipa serem negros veio acentuar ainda mais a tensão, vindo acrescentar a questão racial. Adulado pelos fãs de Atlanta (um público na altura maioritariamente branco), era desprezado pelos seus colegas. Pete chegou à liga com um salário superior ao de Bill Russell e Wilt Chamberlain, as duas maiores estrelas da liga na altura.

Além de todo este reboliço, Pete tornou-se uma estrela fora do campo, conseguindo contratos publicitários e vendendo a imagem do pequeno prodígio que transforma em ouro tudo o que toca. Não tendo sido o primeiro, esteve entre as primeiras super estrelas brancas da NBA, e isso só podia atrair contratos publicitários, pois o basquetebol era extremamente popular já na altura. E nos Estados Unidos de 1970, em plena luta pelos direitos cívicos, ainda não era de todo comum um desportista negro representar uma marca.

 

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Ainda assim, a sua adaptação ao basket profissional foi dificílima. Pete não quis mudar o seu estilo, mas a equipa estava habituada a um jogo muito mais táctico e estático. Os colegas consideravam-no um papa-bolas, e não apreciavam os seus passes vindos sabe-se lá bem de onde, que mais vezes lhes iam parar à cabeça que às mãos. apesar de uma temporada de rookie aceitável (23,2 pontos, 4,4 assistências e 3,7  ressaltos) e de ter sido All Star rapidamente, Pete nunca se adaptou ao jogo dos Hawks, e sofreu o martírio durante 4 anos, antes de finalmente se transferir para os então New Orleans Jazz.

 

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E  sendo o jazz uma das melhores definições para o seu estilo de jogo (uma mestria total dos fundamentais e uma propensão nata para inovar, improvisar, criar e sair das linhas rectas), Pistol Pete pôde enfim deixar falar o seu basquetebol. Depois de alguma adaptação, Maravich conseguiu soltar-se e tornar-se de novo a pérola ofensiva que tinha sido nos seus anos de Universidade. Chegou a ser o melhor marcador da temporada em 1977 com 31 pontos de média, tendo mesmo marcado 68 pontos num jogo, a 25 de Fevereiro de 1977 contra os Knicks de Walt Frazier. Na altura, só Wilt Chamberlain e Elgyn Baylor tinham alguma vez marcado mais. Desde então, só Michael Jordan (69), David Robinson (71), David Thompson (73) e Kobe Bryant (81) fizeram melhor…

Porém, a sua forma de jogar sempre foi controversa, fazendo dizer a muitos que o homem era um individualista, um solista independente num jogo que se quer colectivo. Se jogasse hoje, Pistol Pete seria comparado a um Rajon Rondo (mas bem melhor lançador) pela visão de jogo ou mesmo a um certo… Stephen Curry! Criativo, rápido, excelente atirador, capaz de encontrar os companheiros de equipa quase de olhos fechados, uma máquina ofensiva completa e impressionante de facilidade nos seus gestos. Oscar Robertson, um dos jogadores mais completos que já jogaram na NBA (Mister Triple Double) disse dele que era um jogador que não comprendia o jogo de basquetebol. Com o devido respeito, Big O, compreendia sim. Estava é adiantado de 20 ou 30 anos…

Mas o drama da sua vida profissional foi nunca ter ganho um anel. O tempo foi passando, as suas proezas continuaram a acumular horas e horas de highlights, mas os Jazz não tinham equipa para ser candidatos ao título. No fim da sua carreira, já com os joelhos bastante cansados, Pistol Pete tentou uma última batalha. Assinando pelos Boston Celtics, o objectivo era de ganhar um título com Nate Archibald, Dave Cowens, Larry Bird (rookie) e companhia. Infelizmente, depois da eliminação em final de conferência contra os Sixers, Pete decidi pendurar as botas, desgastado pelos joelhos (ele manteve uma massa muscular muito baixa, apesar do crescimento repentino na adolescência, o que lhe valeu problemas prematuros). A sua frustração foi amplificada  pelo facto de no ano seguinte, os Celtics ganharem o tão almejado título…

 

Depois de uma espiral negativa em que o álcool e a depressão tomaram conta da sua existência, Maravich iniciou um caminho de busca de si próprio, que culminou na sua adopção da religião católica como meio de salvação. Desiludido pelo basquetebol, aquele que no fim da carreira afirmou que a sua “vida foi um desperdício por ter dado tudo ao basket e não ter conseguido ganhar um título” tornou-se um homem devoto, e fez sua a missão de ajudar o próximo de todas as maneiras possíveis. Organizou anualmente o Pistol Pete All Star Camp at Clearwater Christian College na Flórida durante o verão, onde aproveitava para ensinar tudo o que podia às crianças sobre a necessidade de aprender o jogo e a vida fora dele. Sem trocar uma  pela outra, Pistol Pete começou a alternar bola de basket e bíblia sagrada.

E tal como viveu sempre com uma bola na mão, Pistol Pete deu o seu último suspiro numa quadra de basket, durante um jogo em Janeiro de 1988. Depois de alguns minutos a jogar, Pete pronunciou as suas últimas palavras: “I feel great!”. Feliz de estar a fazer o que sempre amou, Pete Maravich não teve tempo de se aperceber que o seu coração o largava. Depois da autópsia, descobriu-se que ele não tinha uma artéria coronária. O simples facto de ele ter sobrevivido depois dos 20 anos de idade e vivido até aos 40 foi considerado um milagre pelos médicos após a descoberta. O facto de ter conseguido jogar basquetebol ao mais alto nível tantos anos a fio com uma insuficiência cardíaca daquela envergadura é pura e simplesmente inexplicável.

 

Pete Maravich inspirou gerações inteiras de jogadores. De Dr. J a Magic Johnson, Charles Barkley, passando pelos seus contemporâneos, todos os que tiveram a sorte de o ver ao vivo testemunham da maravilha que era aquele magricela com uma bola de basket. Não havia distância demasiado grande, oponente suficientemente forte, adversidade alguma capaz de o impedir de fazer o que ele mais e melhor fazia: jogar e fazer sonhar. Electrizar a multidão. Levar o público ao rubro com a magia que espalhava O showtime, o fastbreak, o no look pass, os dribles e crossovers hoje fazem parte do vocabulário do jogo. Mas mesmo se na altura não tinham os nomes e história que hoje têm, uma coisa é certa: “Pistol” Pete Maravich ajudou a popularizar junto do público uma forma de estar em campo que se assemelha à felicidade em estado bruto.

 

Para este que foi considerado em 1997 como um dos 50 maiores jogadores da história da Liga e foi o único ausente da cerimónia, o basquetebol foi a coisa mais preciosa da sua vida. Cabe a todos nós, fãs da modalidade, e em particular ao Entre Linhas, não permitir que caiam em esquecimento aqueles que ajudaram a fazer do desporto aquilo que ele é hoje. A tua vida foi tudo menos um desperdício. Foi uma autêntica inspiração, e prova de que a paixão pode nos faer atingir cumes inimagináveis àquele que não a possui. Obrigado por tudo, Pete.

 

 

Ricardo Glenn Baptista

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