January 20, 2019

 

Título original: White Men Can’t Jump (EUA – 1992)
Realizador: Ron Shelton
Argumento: Ron Shelton
Protagonistas: Wesley Snipes, Woody Harrelson, Rosie Perez, Tyra Ferrell


 

Na era da internet, já todos vimos os vídeos do Uncle Drew: um jogador de basket profissional (Kyrie Irving, Campeão da NBA em 2016) mascarado de velhinho que vai para um playground espalhar magia. Também há entre os fãs de basket quem tenha visto o vídeo Nerd plays basketball in the hood, do youtuber DC Heat: um jogador branco vestido com uniforme (e gravata) de uma escola privada, que aparece num playground, e assim que é escolhido para jogar, surpreende tudo e todos com a sua técnica.

 

Dois hits absolutos no YouTube (mais de 40 milhões de views para o primeiro, 16 milhões para o segundo), um mesmo princípio: jogadores cuja aparência física não corresponde ao estereótipo do jogador de basket revelam-se surpresas totais. Pois bem, sabem de onde eles podem ter tirado essa ideia? De um filmezinho de 1992 que é, a meu ver, um dos grandes clássicos para a minha geração de ballers chamado White Men Can’t Jump.

 

Já agora, porquê que eu chamei a este filme um clássico? Porque, para qualquer miúdo nascido anos 70/80 que cresceu a adorar basket, este filme foi uma autêntica BOMBA! Estava lá ABSOLUTAMENTE TUDO! O ambiente do playground, a música, os sneakers, o estilo vestimentar por vezes duvidoso dos 90’s…

 

Este filme é pura e simplesmente uma fotografia do seu tempo, de uma população, da idade de ouro de um fenómeno que se havia de tornar global em muito pouco tempo: O PLAYGROUND! De Venice Beach a Rucker Park, passando por Nanterre (cidade da periferia de Paris onde passei a minha adolescência e TODO O MEU TEMPO LIVRE no playground do parque André Malraux), a linguagem, a atitude e a paixão eram as mesmas, mudava apenas a paisagem.

 

 

Mas deixemo-nos de saudosismos e passemos ao que interessa: o filme. White Men Can’t Jump (WMCJ) é uma comédia desportiva escrita e realizada por Ron Shelton. A história? Billy Hoyle, um forasteiro em Venice Beach, percorre os playgrounds, e usa o seu look “improvável” (branco e “nerdy”) para “subtrair” pequenas somas aos jogadores locais, confiantes que o derrotam com facilidade. Sidney Deane, a sua primeira vítima, vê aí uma ocasião de transformar o embuste num negócio mais elaborado e lucrativo. Juntos decidem ir jogar nos vários playgrounds de L.A. à procura de novas vítimas. Mas o passado (dívidas) de Bobby insiste em persegui-lo.

 

O filme explora a dificuldade de entendimento e amizade entre um branco e um negro, numa América racialmente bastante dividida (1992 foi o ano da absolvição dos agentes da polícia que espancaram o taxista negro Rodney King em Los Angeles no ano anterior, o que provocou os maiores tumultos e motins que os Estados Unidos tinham visto desde o fim da luta contra a segregação e pelos direitos cívicos dos negros).

 

O título do filme, que chegou a inspirar uma piada do filme “Robin Hood – Men in Tights” de Mel Brooks, resume a tensão que acompanha todo o filme, pelo facto de Sidney ter escolhido um companheiro de equipa branco. “Brancos não sabem saltar” é uma maneira de dizer que o basket é uma coisa de/para negros. Apesar de ter sido inventado por um canadiano branco, o basket americano tornou-se o desporto de eleição da maioria dos negros daquele país, e o mito da superioridade física e maior habilidade dos mesmos na prática do desporto em geral, e do basket em particular, torna ainda mais amarga a experiência de perder contra um branco. Shelton abordou a questão com humor e frontalidade.

 

Na cena em que estão os três protagonistas no carro, Billy põe a tocar uma cassete de Jim Hendrix. “You white people can’t hear Jimi!” é uma frase que resume um pensamento que, infelizmente, ainda vigora em muitas daquelas cabecinhas americanas. Nesse contexto, o casting de Rosie Perez, porto-riquenha, para namorada de Billy foi um golpe de mestre. Ela fala como a voz “neutra”, frisando que o baterista de Jimi era branco, e que no fundo, pouco importa que cor tinha quem fez a música, o importante é que quem goste dela a ouça.

 

Além da temática do preconceito, este filme aborda a relação amorosa complicada com uma pessoa com um comportamento compulsivo. Apesar das dívidas, da fuga, dos problemas conjugais que isso lhe causa, Bobby não consegue parar de apostar o dinheiro ganho nos jogos. E não aposta 1/10, 1/5… Não! Vai logo com tudo: ALL IN! Logicamente, a sua namorada Gloria (interpretada pela magistral Rosie Perez), cujo sonho era participar no programa de televisão “Jeopardy!”, não podia aceitar de bom grado que ele jogasse a vida deles sempre que tivesse um bocado de dinheiro nas mãos.

 

Para além do seu sotaque, do seu carácter forte e de estar sempre ao lado do seu homem, até para fugir de credores mafiosos, Gloria protagoniza uma das cenas mais engraçadas de todo o filme, quando, depois de fazer amor com Billy ao som de Ray Charles, lhe diz que tem sede e ele vai buscar um copo de água. Segue-se toda uma tirada sobre “quando uma mulher diz que tem sede, não quer dizer que esteja a pedir que lhe vás buscar um copo de água. Se eu disser que tenho sede, espero da tua parte empatia, não que resolvas o problema. Espero que digas ‘Gloria, eu sei o que é ter sede. Eu também já tive a boca seca’”. Se isto não resume em 30 segundos a guerra dos sexos, eu não entendo mesmo nada disto!

 

Mas voltemos ao tema da bolinha. Woody Harrelson obteve o papel de Billy por jogar basquetebol melhor que Keanu ReevesCharlie Sheen e David Duchovny. Quanto a Wesley Snipes, que não era um grande jogador, conseguiu o papel devido à indisponibilidade de Denzel Washington, ocupado a filmar Malcolm X. Mas foi submetido a um treino diário e intensivo, até os seus gestos se tornarem naturais e autênticos. Para além disso, outros jogadores que aparecem no filme eram ex-jogadores de basket profissionais (Freeman Williams, Kevin Benton, Duane Martin…). Houve até uma celebridade local, Ron Beals, ex jogador universitário que se tornou um pilar do playground de Venice Beach, jogou até aos 70 e muitos anos de idade, e hoje tem um torneio anual em seu nome!

 

Para o realizador Ron Shelton, ex-jogador de baseball profissional, filmar cenas de acção desportiva com realismo era obrigatório. E nisso, podemos dizer que a sua aposta foi bastante bem sucedida. Ele conseguiu filmar jogos de street basket com todos os ingredientes que compõem estas partidas. Para quem cresceu a jogar em playgrounds, este filme é uma autêntica viagem no tempo. Shelton conseguiu reproduzir tão fielmente a atmosfera deixando os jogadores/actores improvisar um bocado, desde falas (todas as “yo’ momma jokes” saíram do repertório pessoal dos actores, e as melhores foram cortadas à montagem!) a fintas (não muito, pois era preciso saber onde pôr a câmara…). E o facto de terem filmado mesmo nos locais permitiu incorporar figurantes “naturais”, pois eram os frequentadores habituais dos playgrounds. E para quem não estava familiarizado com o conceito de trash talking, uma das armas mais devastadoras do basket nos anos 90, o Woody Harrelson dá-nos o melhor exemplo que o cinema algum dia produziu

 

 

A sua frase “I’M IN THE F*#@!NG ZONE” acabou por inspirar a Nike, que criou em 2009 um par de sneakers em homenagem a Billy Hoyle: as Nike Hyperize 2009 – Billy Hoyle.

 

Por tudo isto, não é um exagero considerar este filme um marco cultural importante. WMCJ foi um enorme sucesso comercial e crítico. A tal ponto que, na febre dos remakes, Hollywood estaria a preparar uma nova versão do filme com Blake Griffin… como produtor. A questão que se levanta é saber se conseguirão fazer um filme tão icónico como o original. Até lá, só posso aconselhar a qualquer fã de bola laranja a (re)ver este filme o quanto antes.

 

 

Ricardo Glenn Baptista

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