December 10, 2018

 

Durante a última década, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo assumiram-se como os melhores talentos da sua geração, monopolizando quase por completo os galardões individuais relativos à performance e ao registo goleador (apenas neste último campo Luis Suárez quebrou a tendência por duas ocasiões). Contra todas as previsões (há um ano ninguém adivinhava este desfecho), não foi Neymar, Hazard, Griezmann ou Mbappé, mas o croata Luka Modric a terminar o dualismo reinante. O médio do Real Madrid viu premiada a sua regularidade exibicional (que, diga-se, já não vem só da última temporada), o que, a juntar a uma campanha dentro do campo pela sua seleção rumo à final do Campeonato do Mundo e a uma campanha anti-Cristiano da imprensa espanhola fora dele, foi suficiente para uma vitória confortável.

 

Modric, o vencedor da edição deste ano da Bola de Ouro

 

Não, não venho em defesa do melhor atleta português de todos os tempos. Há muita gente mais capaz do que eu para esse empreendimento. Venho antes refletir o que pode significar, no presente e no futuro, a premiação de Modric, ignorando se esta foi justa ou não.

 

Tenho mais dúvidas do que respostas. Mas tenho uma teoria. Ou esperança, como quiserem chamar: em nome da paixão e do prazer pelo jogo, e pelo futuro do mesmo, espero que esta vitória seja o início de uma mudança de paradigma na avaliação individual de um futebolista. Espero, de uma vez por todas, que as instâncias votantes percebam que analisar um jogo de futebol e um rendimento individual não é ver uma folha de Excel com estatísticas infindáveis, não é ver os golos e as assistências, não é ver highlights de dois minutos, não é somar os troféus coletivos conquistados no fim da época. Isto, além de iliteracia, perdoem-me a deselegância, é preguiça. Quero acreditar que Modric simboliza o regresso ao jogo pelo jogo, ao prazer pelo prazer, à diversão pela diversão. E, paradoxalmente, quero acreditar que este regresso seja ao mesmo tempo um salto em frente no entendimento do jogo por parte de todos os intervenientes, desde os próprios jogadores até aos adeptos, passando por jornalistas e dirigentes.

 

Como comparar o desempenho individual… for dummies

 

Por outro lado, as dúvidas. Não sei se a superioridade abismal da dupla luso-argentina ao longo de tanto tempo não terá provocado danos irreversíveis neste tipo de prémios. A quantidade de golos e assistências de ambos e os momentos de notoriedade dia sim dia sim são de tal forma absurdos para uma era de tão pouco espaço quese torna ‘demasiado fácil e cómodo’ continuar a seguir o critério das estatísticas, mesmo após os dois extraterrestres abandonarem o patamar de topo. Porque a isto acrescem outras questões. Como diz Jorge Sampaoli, “há o sentido de urgência que o jogo atual tem… é tudo pânico, é tudo velocidade… e transmite um bocado a ideia do que é a sociedade atual”. Como diz Pablo Aimar “somos la última generación que ve partidos enteros. […] Porque están más acostumbrados a lo efímero. El partido de PlayStation dura 5 o 7 minutos apenas. Están acostumbrados a los resúmenes. A ver en el celular los goles de todo el mundo. Son víctimas de este estímulo”. E nem vou falar do cancro que são os votos por interesses e pressões. O imediatismo e a famosa ‘intensidade’, sob a capa das estatísticas e dos highlights, estão a tentar matar o futebol aos poucos e, numa era em que a informação nunca esteve tão acessível, tal iliteracia e preguiça não podem ser aceitáveis.

 

Estarão as consolas e as escolas de futebol a coarctar o potencial dos miúdos?

 

Terá sido o triunfo de Modric uma pedra no charco que marca uma mudança de paradigma e de critérios na entrega de prémios individuais? Ou foi uma dita ‘exceção que só confirma a regra’? Não sei. Sei o futebol que vence hoje promove os caminhos mais fáceis e o resultadismo. E sei que o debate entre os defensores do imediatismo e da notoriedade e os partidários da pausa e da estética está para durar.

 

João Mendes

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