December 13, 2019

O futebol tem esta particularidade: por vezes, os nossos sonhos mais inverosímeis e os nossos pesadelos mais tenebrosos tornam-se, de um momento para o outro, realidade, sem explicação aparente.

 

Foi o que aconteceu, no meu caso, com a chegada de Jorge Jesus, o treinador tricampeão pelo Benfica, ao meu clube.

 

Sempre disse, no meu círculo de amigos, que só alguém como Jorge Jesus conseguira recolocar o Sporting na disputa dos títulos nacionais, e que foi um erro tremendo não o ter recrutado ao Braga, no final da época de 2008/09, isto numa altura em que já havia sinais claros de saturação relativamente ao estilo de Paulo Bento.

 

Vale a pena recordar que o progressivo desequilíbrio competitivo que se instalou entre os dois grandes de Lisboa iniciou-se em justamente em 2009/2010, ou seja, a partir do momento em que Jesus assumiu funções na Luz.

 

É que, nas quatro épocas anteriores, mesmo lutando com outros recursos e embora nunca tenha alcançado o primeiro lugar, o Sporting ultrapassou sucessivamente o Benfica na tabela classificativa, além de ter ganho mais troféus.

A partir de 2009/2010, tudo mudou, como se sabe.

Com Jesus ao comando, o Benfica ultrapassou largamente o Sporting em todos os planos de análise, vencendo três campeonatos, uma taça de Portugal, cinco taças da liga, tendo estado ainda presente em duas finais europeias. De resto, mesmo quando ficou arredado do título, o Benfica jamais voltou a ficar atrás dos leões na tabela classificativa.

 

A minha preferência explica-se pelo facto de Jesus reunir tudo aquilo que, no passado recente, tem faltado ao comando técnico do Sporting.

 

De facto, descontando a sua teimosia patológica, os pontapés na gramática, as provocações aos colegas de profissão, os empurrões à Polícia e aos próprios superiores hierárquicos, Jesus demonstrou sempre possuir, além de uma liderança forte alicerçada numa confiança inabalável em si próprio e numa incrível exigência no trabalho diário, um conhecimento enciclopédico do futebol português, adquirido através de uma já longa carreira, toda ela construída a pulso.

 

Foi essa dose de experiência e de conhecimento que faltou à generalidade dos “jovens e ambiciosos treinadores portugueses”, que passaram, sem sucesso, pelo Sporting ao longo dos últimos anos, como aconteceu com Carlos Carvalhal, Paulo Sérgio, Domingos Paciência e Sá Pinto.

 

E foi, por sua vez, aquela capacidade de liderança em torno de um certo projeto e de uma certa ideia de jogo, capaz de mobilizar jogadores e massa associativa, que faltou, por exemplo, a Fernando Santos e a Peseiro, técnicos que nunca deixaram especiais saudades depois de partirem.

 

Bem sei que muitos sportinguistas prefeririam a continuidade de Marco Silva, tendo em conta os resultados alcançados ao longo da época passada.

 

A questão é que, sem por em causa o mérito indiscutível de Marco Silva na consolidação da equipa herdada de Leonardo Jardim, fiquei sempre com a sensação de que muitas das fragilidades do Sporting foram invariavelmente detetadas tarde demais.

 

De facto, era evidente, desde o início da época, a ausência de uma dupla de centrais que oferecesse mínimas garantias de estabilidade à equipa, e que Sarr, em particular, nunca poderia integrar essa dupla.

 

Era também evidente que, pelo menos até ao fim da primeira volta, o William Carvalho estava a léguas da sua melhor forma e que os reforços contratados – Rosell e Slavchev – nunca provaram ser substitutos minimamente à altura.

 

Além disso, era ainda evidente que, na ausência de Slimani, a permanente aposta num jogo carrilado pelas laterais, que culminava invariavelmente em cruzamentos para a área, perde o seu sentido quando o argelino não está em campo, já que não privilegia as qualidades particulares de Montero, cujas movimentações na frente de ataque dependem sobremaneira do jogo interior desenvolvido pelos médios ofensivos.

 

Finalmente, parece igualmente evidente que o número escandaloso de empates concedidos em Alvalade poderia ter sido eventualmente atenuado se o Sporting tivesse apostado num onze mais ofensivo, integrando, por exemplo, dois avançados, tendo em conta que muitas das equipas do nosso campeonato simplesmente abdicam de atacar, quando visitam os três grandes.

 

De resto, não deixa de ser curioso notar que, assim que chegou ao Sporting, as contratações que Jesus tem procurado assegurar, respeitam justamente a estas lacunas evidentes que se manifestaram desde o início da época passada: um patrão para a defesa (fala-se em Douglas, do Dínamo Moscovo e em Rhodolfo, do Grêmio…), uma alternativa sólida para a posição de William Carvalho (o escolhido era Danilo Pereira, até ser contratado pelo Porto) e um médio ofensivo capaz de desequilibrar no último terço do terreno (é esse o papel que, à partida, estará reservado a Bryan Ruiz).

 

Bem sei que, a partir de agora, muitos obstáculos se colocarão no caminho de Jesus.

 

Um deles passará por se adaptar a um papel e a um contexto muito diferente daquele que conheceu na Luz.

 

Na verdade, Jesus terá por missão orientar um grupo de trabalho que, em larga medida, não escolheu, composto por jogadores de idade e de valor bem diferentes daqueles que encontrou na Luz.

Mais do que um mero treinador, Jesus será obrigado a assumir um papel de formador com um alcance muito diferente daquele que teve no Benfica, sendo que o sucesso do Sporting dependerá largamente da forma como aquele conseguirá, ou não, incorporar na equipa talentos como Wallyson, Iuri Medeiros, Gelson Martins ou Tobias Figueiredo.

 

Mas o principal desafio que se colocará a Jesus consiste em saber de que forma conseguirá desenvolver eficazmente o seu trabalho, sem fazer perigar o delicado equilíbrio na coabitação com os restantes membros da estrutura do futebol.

Na verdade, conhecendo-se a vontade de Jesus em estar omnipresente em todas as decisões em matéria de futebol, o gosto do Presidente em se intrometer na esfera técnica dos treinadores, a apetência por conflitos de Octávio Machado e o passado recente das relações entre Bruno de Carvalho e Manuel Fernandes, dir-se-á que estão reunidas as condições para que a temporada de 2015/6 seja uma “tempestade perfeita”…

 

Espero, porém, que o tempo decorrido e as lições entretanto aprendidas tenham demonstrado aos responsáveis pela estrutura do futebol que o ressurgimento de um Sporting forte e renovado, numa época que poderá ser de viragem, dependerá do contributo que cada um deles poderá oferecer no âmbito da respetiva área de intervenção, e da forma inteligente como conseguirão ultrapassar as divergências que inevitavelmente se verificarão.

 

Vasco Rocha

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