December 13, 2019

É impossível dissociar o momento actual do futebol do Sporting da figura do seu treinador.

Na verdade, como escrevi aqui no Entre Linhas aquando da sua chegada, sempre acreditei nas possibilidades de sucesso de Jesus em Alvalade.

 

 De facto, Jesus – com todo o rol de defeitos que o caracteriza… – é o treinador que maior conhecimento detém do futebol português. Não apenas dos seus jogadores e treinadores, mas também dos seus meandros, dos seus hábitos e das suas idiossincrasias.

A este conhecimento enciclopédico do futebol português, Jesus associa uma qualidade rara nos dias que correm: sabe muito bem o que quer das equipas que comanda e quais os jogadores mais indicados para concretizar as suas ideias em campo.

Por isso é que, contrariamente a outros – como Paulo Sérgio, por exemplo, que até ser despedido não atinou com o esquema táctico da equipa… -, não precisa de muito tempo para se adaptar às novas realidades e impor as suas ideias. Faz as suas experiências, é certo, mas fá-las no timing apropriado…

 

Ora, o que faltava ao Sporting era justamente este capital de conhecimento e de experiência, além de uma figura cuja liderança suscitasse uma onda de confiança entre o plantel, fazendo-o acreditar que a conquista do título não é uma mera ambição remota, mas sim uma possibilidade real e efetiva, alcançável com trabalho e dedicação.

O período decorrido até aqui comprovou este cenário: Jesus identificou lacunas, corrigiu posicionamentos, incutiu dinâmicas e potenciou jogadores.

Comparando o trajeto do Sporting atual com a performance de Marco Silva na época passada, é forçoso reconhecer uma evolução muito significativa, cujos créditos pertencem (quase) exclusivamente a Jesus.

Não me refiro apenas aos 8 pontos de diferença que separam o Sporting de Jesus do de Marco Silva – ainda que 8 pontos de diferença ao cabo de 15 jornadas seja muito ponto…

Refiro-me também ao reforço da mentalidade competitiva que este Sporting evidencia.

 

É que o compromisso com a exigência, que caracteriza o trabalho diário de Jesus, transmite-se à própria equipa, tornando-a mais determinada e ambiciosa, mais crente nas suas próprias capacidades.

Foi, aliás, esta mudança de “chip” na mentalidade dos atletas que permitiu alcançar vitórias decisivas nos últimos instantes, como aconteceu contra o Tondela, o Arouca e o Belenenses, e que explicou também uma abordagem diferente, mais assertiva e confiante, nos embates contra os seus rivais históricos.

Vale a pena relembrar que, com Marco Silva ao comando, o Sporting não alcançou uma única vitória contra Benfica e Porto no campeonato. Jesus, pelo contrário, soma por vitórias todos os jogos disputados contra estas equipas. Dá que pensar…

 

Mas mais ainda: é impossível não reconhecer o contributo fundamental de Jesus na evolução de certos jogadores: Slimani é um jogador muito mais completo do que era num passado recente, João Mário e Adrien estão a jogar a um nível nunca visto, Paulo Oliveira assume-se como o esteio da defesa do Sporting.

Bem sei que existe uma tentação de afirmar que comparar Jesus com Marco é um exercício de enorme injustiça para com este último, já que estaríamos a “comparar o incomparável”. De facto, para muita gente, as “armas” oferecidas a Marco Silva não foram as mesmas que foram concedidas, nesta época, a Jesus.

Com efeito, com a chegada de alguns “jogadores feitos”, como Ruiz, Gutierrez, Naldo, João Pereira e Aquilani, Jesus terá seguramente beneficiado de uma maior abundância de soluções.

 

Mas variedade não é o mesmo que qualidade.

 É que, se formos ver, daquele naipe de contratações apenas Ruiz se assumiu, pelo menos até aqui, como uma evidente mais-valia. É ele o único jogador relativamente ao qual se poderá dizer que “entra de caras” na equipa.

Gutierrez já fez alguns golos decisivos, é certo, mas não ao ponto de se tornar num titular indiscutível do onze de Jesus. João Pereira está longe do fulgor de outros tempos, apenas assegurando os “mínimos” do lado direito da defesa, e perde claramente no confronto direto com Cédric, o lateral-direito de Marco Silva. Naldo não é um mau, mas Ewerton, em boas condições físicas, está num patamar acima.

A este quadro acresce outro dado fundamental: o plantel às ordens de Jesus já não conta com o talento dos dois jogadores mais desequilibradores da época passada: Nani e Carrillo, este último arredado do grupo de trabalho desde o início de Setembro.

 

Ora, no que concerne ao peruano, vale a pena ter presente que, à data do seu afastamento, Carrillo estava a revelar-se “tão-só” como o jogador mais preponderante do arranque de época do Sporting, como o demonstraram os jogos contra o Benfica, na Supertaça, e contra o CSKA de Moscovo, no play-off de acesso à Liga dos Campeões.

Para muitos treinadores, a perda inesperada de Carrillo no início da época – com tudo o que ele representa em termos de velocidade e de criatividade nas alas – seria o pretexto ideal para justificar uma limitação nas aspirações ao título. Outros treinadores do passado recente do Sporting tê-lo-iam logo declarado…

Pelo contrário, Jesus, confrontado com a perda do jogador mais valioso do plantel, não alterou o seu discurso nem moderou suas ambições.

Limitou-se a fazer aquilo que tão bem sabe: descobrir soluções inovadoras, adaptando os jogadores disponíveis às necessidades da equipa. Foi, assim, neste contexto que lançou, com sucesso, Matheus Pereira e Gelson Martins, jogadores que, em condições normais, terão um papel fulcral no Sporting do futuro.

Não sei se 2016 será, ou não, o ano que marcará o regresso do Sporting à conquista do campeonato nacional.

Mas sei que, se assim acontecer, como espero, é à Obra e Graça de Jesus que o devemos.

 

Vasco Rocha

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