December 7, 2019

O poker é um jogo verdadeiramente democrático. Qualquer pessoa pode aprender a jogá-lo e evoluir como jogador ao ponto de participar nos grandes torneios mundiais. Sim, é preciso dinheiro para fazê-lo a um nível mais elevado mas qualquer jogador, sem limitações físicas, pode aprender o jogo e começar a jogar torneios com valores baixos de entrada e evoluir à medida que melhorar o seu jogo.

As regras do jogo do poker (da Associação de Diretores de Torneios, TDA) são bastante acolhedoras no que toca a jogadores com necessidades físicas especiais e cabe a cada Diretor de Torneio fazer decisões sobre estes jogadores mas nunca vi um pedido ser recusado e os grandes casinos e torneios são bastante receptivos às necessidades destes jogadores.

2013 está a tornar-se um ano mediático para jogadores com necessidades especiais no poker. No início de Agosto, na Nova Zelândia, Jonathan Bredin, um jogador com paralisia cerebral, ganhou o torneio principal da New Zealand Poker Tour em Queenstown. Um torneio de 126 jogadores com entrada de NZD$3,000 (cerca de €1,800) pelo qual Jonathan ganhou um prémio de mais de NZD$93,000 (cerca de €57,000).

Um mês depois, em Barcelona, o espanhol Pablo Cusí, um jogador com distrofia muscula progressiva, chega à mesa final do Estrellas Poker Tour, o maior torneio de poker ao vivo com entrada de €1,000, e termina em sexto lugar com um prémio de €53,800.

A história do neo-zelândes Jonathan Bredin atravessou o mundo talvez em parte pela sua condição física mas mais pelo facto de Jonathan ter ganho o torneio com um par de Reis, exactamente a mesma mão que ele tem tatuada no ombro, incluindo os naipes exactos (um de paus e um de espadas). Um feito impressionante que parece tirado de um filme e que quase ofusca o facto de Bredin precisar de um iPad e um assistente para comunicar as suas jogadas mas que não ofusca outro facto óbvio. Jonathan Bredin mostrou ao longo dos cinco dias de jogo em Queenstown ser um jogador extremamente competente e merecer o troféu pela sua performance nas mesas.

A história de Pablo Cusí é semelhante. Com a ajuda do irmão, Javier, ele tem participado em vários torneios ao vivo em Espanha e joga regularmente online pois encontra no poker um estímulo mental que lhe permite treinar a sua paixão por matemática e estatística. A história de Pablo e a sua performance em Barcelona chegaram a André Akkari, o jogador de poker mais conhecido no Brasil, que também estava presente em Barcelona e escreveu sobre ele no seu blog um texto muito emotivo e animador. A mensagem chegou até Ronaldo, o “fenómeno”, que estava presente em Barcelona para uma promoção e que deixou uma mensagem de apoio a Pablo Cusí.

Ambas as histórias destes jogadores têm toques surreais: as cartas vencedoras de Bredin, e o apoio de Ronaldo a Cusí mas também tem toques muito reais: ambos são jogadores de poker por mérito próprio com mais resultados que apenas estes recentemente conseguidos. Ambos são jogadores regulares e conhecidos no circuito de poker onde participam e que têm evoluído como qualquer outro jogador que pratica e aprende.

O sucesso destes jogadores deve-se muito à sua própria capacidade de auto-superação e aprendizagem, algo que nos deve motivar a todos, independentemente da condição física mas o sucesso deve-se também ao facto de os torneios de poker serem um campo de jogo democrático em que para jogadores com necessidades físicas especiais participam em nível de igualdade. Jogadores como Bredin e Cusí sempre existiram em torneios de poker e o facto de serem bem recebidos e as suas necessidades atendidas permitiu-lhes jogar poker tranquilamente e evoluírem naturalmente como jogadores. O sucesso recente de ambos não é uma coincidência surreal, é o resultado de anos de crescimento do jogo e do reforço do aspecto democrático do poker, em que todos podem participar em igualdade e competir justamente pelo troféu final.

A cadeira de rodas é um aspecto visual muito forte mas há vários jogadores com necessidades físicas especiais que não têm tanto impacto mediático. Jogadores com incapacidades auditivas e visuais sempre pedem aos Directores de Torneio para ficarem sentados ao lado do *dealer* (lugar 1 ou 10) para ouvirem melhor a acção ou em frente ao *dealer* (lugar 5) para poderem ver melhor as cartas de mesa. Não conheço um Director de Torneio com sucesso que recuse estes pedidos…

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Miguel Barradas

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