December 10, 2018

 

Com o fim do campeonato nacional, começam os habituais balanços. No entanto, não servirá este texto como balanço deste campeonato em particular, mas de uma tendência que, a meu ver, se vem acentuando com o passar dos anos, mais concretamente, arrisco-me a dizer, a partir de 2013/2014. 2013 marca a saída de Vítor Pereira do comando técnico do FC Porto, bem como da estrela da companhia, James Rodríguez, enquanto 2014 marca o depauperamento da melhor equipa do Benfica deste século. A tendência é esta: desde então, o campeonato português está, ano após ano, mais fraco.

 

Há causas variadíssimas (não caberão aqui todas, certamente) para o fenómeno, mas o diagnóstico parece simples: são cada vez mais remotos os tempos em que passaram pelos relvados portugueses jogadores que se viriam a tornar de topo mundial. É certo que o último ainda está bem presente na memória: é o atual guarda-redes titular do Manchester City, mas, à exceção de Ederson, os últimos grandes craques a passar por cá são talvez Alex Sandro, Matic e Oblak. Mais recentemente, o que se tornou habitual foi os jogadores que se transferem para o estrangeiro por elevadas quantias acabarem por desiludir – ou por saírem demasiado cedo de Portugal (Renato Sanches, Gonçalo Guedes, Victor Lindelöf, André Silva), ou por simplesmente não serem de nível mundial como os clubes que os contrataram julgavam (Nicolás Gaitán, Jackson Martínez, Danilo, João Mário). Assim sendo, chegamos à temporada de 2017/18, em que o FC Porto se sagrou campeão nacional, igualando o recorde de pontos do Benfica de 2015/16, tendo como figuras, entre outros, elementos como Héctor Herrera, Moussa Marega ou Sérgio Oliveira. Mesmo que o desfecho fosse outro, o Benfica teria sido campeão com Bruno Varela como guarda-redes titular ou o Sporting com Acuña e Battaglia como indiscutíveis, o que provaria o ponto na mesma. Há uns escassos anos atrás, que papéis teriam estes jogadores mencionados nas super-equipas do Benfica de Jorge Jesus e do FC Porto de André Villas-Boas e Vítor Pereira? Eventualmente, alguns nem lugar teriam nos respetivos plantéis, o que é, de certo modo, elucidativo, e ao mesmo tempo preocupante.

 

O antes…

… e o agora.

 

Voltando às causas, começo talvez pela mais óbvia: ao que parece, o fulgor financeiro que outrora Benfica e Porto revelavam (e que agora Sporting procura replicar), mesmo com as excelentes vendas época após época, não é um modelo viável na realidade portuguesa. E, não sendo, mais tarde ou mais cedo, o banco fecha a torneira (algo que parece estar para breve no que respeita ao Sporting). De facto, o mercado português não tem dimensão suficiente para atrair craques do nível de um James Rodríguez ou de um Ángel di María, sem ser com o apoio da banca ou de empresários. Com as Big 5 (termo da gíria futebolística referente aos 5 campeonatos mais fortes da Europa: Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França, ao dia de hoje por esta ordem, segundo a UEFA), contrariamente a épocas passadas (Portugal chegou a ser 5º no ranking da UEFA à frente da França durante sensivelmente 5 épocas), é completamente impossível competir nos dias de hoje. E no que respeita aos campeonatos periféricos, Portugal não tem a capacidade financeira dos clubes ucranianos, russos e turcos para atrair os melhores jogadores dos mercados brasileiro e argentino, outrora prediletos. Resta-nos a aposta na excelente formação nacional, nos bons valores do campeonato local e em oportunidades de negócio de atletas a custo zero ou desvalorizados (Álex Grimaldo e Alex Telles são casos de sucesso a este nível). Como se não bastasse haver, efetivamente, menos dinheiro para gastar, o que há, tem sido muito mal gasto. Parece loucura como o Benfica investiu 22 milhões de euros em Raúl Jiménez, 16 milhões em Rafa, 10 em Samaris, o FC Porto 20 milhões em Óliver, 16 em Imbula, 11 em Adrián López, ou o Sporting 9,59 milhões em Acuña e 4,84 em Alan Ruiz (valores retirados do site www.transfermarkt.pt). Até ver, todos estes negócios, uns mais do que outros, estão no limiar do ruinoso para qualquer investidor com o mínimo de sanidade e ponderação.

 

Raul Jimenez

Óliver

Acuña

 

Um outro leitmotiv que contribuiu para esta realidade foi a alteração drástica que recentemente se processou no mercado de transferências a nível europeu, quiçá mundial: resumida e coloquialmente, antigamente um Barcelona desta vida pagava 40/50/60 milhões por um jogador feito para entrar de caras na equipa e ser estrela. Hoje, paga 115 milhões por uma promessa. Chegamos a uma situação limite em que as promessas estão tão ou mais caras do que as certezas. Este novo paradigma teve, naturalmente, um efeito de dominó que atingiu os clubes portugueses: pura e simplesmente deixou de ser possível pagar os ordenados e os passes dos melhores talentos da América do Sul, mais concretamente os provenientes de Brasil e Argentina, passando estes a ir diretamente das ligas locais para clubes das Big 5. Por consequência, se os investimentos são menores em quantidade e piores em qualidade, passa a acontecer um de dois cenários: ou os jogadores saem ainda com o estatuto de promessas, isto é, demasiado cedo (Sanches, Lindelöf, André Silva), porque é necessário fazer encaixes consecutivamente e craques de nível mundial não despontam todos os dias (no artigo A máquina de incineração de talentos explico e amplifico melhor esta questão); ou, quando já têm o estatuto de valores seguros (Ederson), a pequenez do nosso mercado impede que consigamos ultrapassar a fasquia dos 40 milhões de euros (James foi o único a consegui-lo, já há 5 anos). Obviamente, o efeito mais direto deste desinvestimento e consequente afastamento do nível da elite europeia é este: se os jogadores não são tão bons, a qualidade de jogo tendea baixar. Desde a saída de Jorge Jesus do Benfica, em 2015, que somente duas equipas candidatas ao título praticaram, ao longo de uma época inteira, futebol de um nível superior: o Sporting do mesmo Jorge Jesus em 2015/16 e o SC Braga de Abel na época que agora findou.

 

Duas promessas, mais de 300 milhões movimentados

 

Existe um último ponto digno de referência no âmbito desta questão, embora não seja certo se se trata de uma consequência ou de uma causa: a crescente importância dada pelos órgãos institucionais dos clubes ditos ‘grandes’ aos argumentos extra-futebol como justificação para os sucessos e como subterfúgio para os fracassos. Tal tem resultado num ambiente que já ultrapassou há muito o limiar entre a rivalidade salutar e o ódio mesquinho, no qual quem vence é porque comprou o adversário e quem perde é porque o adversário tinha o árbitro comprado, e vice-versa. O culminar desta conjuntura deu-se na semana do ataque terrorista aos jogadores do Sporting. Aqui as opiniões dividem-se: há quem culpe unicamente Bruno de Carvalho por este ambiente no futebol português, há quem considere que é próprio da cultura portuguesa desconfiar sempre do mérito alheio, há ainda quem defenda que os adeptos portugueses têm dificuldades crónicas em apreciar (nos dois sentidos: o de desfrutar e o de analisar) o jogo propriamente dito – o que é certo é que, causa ou consequência, este ambiente justifica em parte o decréscimo da qualidade de jogo demonstrada, juntamente com o decréscimo da qualidade dos ‘ovos’, entenda-se, dos jogadores.

 

Bas Dost, uma vítima das agressões de Alcochete

 

Perante estas evidências, como devem os agentes desportivos reagir à nova posição do campeonato português no contexto europeu? A sensatez diz que a melhor atitude é, primeiramente, a resignação, seguida da ação. Por outras palavras, não vale a pena suspirar por aquele 5º lugar no ranking da UEFA obtido na época em que três equipas portugueses atingiram as meias-finais da Liga Europa, porque foi fruto de despesas mal sustentadas. Há passivos monstruosos para pagar, pelo que o endividamento não é uma hipótese nesta fase. Há que adotar, como tem vindo a ser feito aos poucos, uma postura em que os dirigentes desportivos percebam exatamente o enquadramento atual de Portugal, em que o objetivo de manutenção do estatuto histórico futebolístico do país esbarra na maior capacidade financeira dos campeonatos periféricos com quem rivalizamos (os já mencionados russo, ucraniano e turco). A solução passa por potenciar os pontos em que nos superiorizamos claramente face aos países supracitados: a qualidade das nossas camadas jovens, dos nossos treinadores e da nossa prospeção, aliada a uma maior proatividade da Liga e da Federação junto das instâncias europeias no sentido de combater o crescente abismo entre os ‘grandes’ e os ‘outros’, é por esta via que passa a tentativa de continuidade do campeonato português como um dos melhores fora dos Big 5.

 

Em jeito de brincadeira, alguns internautas chegaram a escrever que, em face do desinvestimento quase sabotado do plantel do Benfica para a presente época, se os encarnados terminassem como campeões, mais-valia ‘fechar’ o campeonato. Caso tal sucedesse, a tese deste texto sairia ainda mais vencedora. Felizmente para a competitividade do certame, finalmente, ao fim de 3 épocas,o desinvestimento não venceu (o Benfica vinha desinvestindo na equipa sensivelmente desde 2014, ano em que abandonaram a Luz Oblak, Garay, Siqueira, Matic, Markovic e Rodrigo), pelo que aguardemos com curiosidade para perceber que rumo tomará a época vindoura. Contudo, os sinais que dia após dia vão sendo dados não são animadores: a mediocridade chegou sem que a maioria desse por isso, e veio para ficar.

 

João Mendes

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