December 14, 2019

 

Se o título soa a homofóbico, desenganem-se. No Entre Linhas não há cá disso, o preconceito fica à porta. A frase impõe-se porque o Futebol, esse de 11 contra 11, é uma modalidade do século passado quando lhe pedem uma opinião sobre homossexualidade. Longe de ser tabu fora do relvado, ser gay no ‘gramado’ ainda choca. Porquê?

 

Em alguns países o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo já é uma realidade. Depois há pessoas que querem apenas o reconhecimento dos seus direitos na profissão que exercem. Pessoas como o norte-americano Robbie Rodgers. O nigeriano Fashanu. O alemão Hitzlsperger.

Tirando os casos muito esporádicos de futebolistas que confessaram ser homossexuais, existem outros defensores acérrimos da saudável aceitação e convivência entre quem gosta de mulheres e de homens, dentro dos balneários. Sem que isso afecte o rendimento de uns e outros.

 

Um dos primeiros a levantar a voz foi Mario Gómez, alemão de origem espanhola. Gómez disse que «a homossexualidade já não é tabu. Há cardeais homossexuais. O Governador de Berlim é gay… não vejo porque o futebolista não possa dizer abertamente ‘SOU GAY‘».

O Campeonato Alemão é dos mais liberais na discussão deste tema. Theo Zwanziger, presidente da Federação Alemã de Futebol, garantiu há um par de anos que queria prestar apoio aos futebolistas com vontade de “sair do armário” e expressar abertamente a sua orientação sexual. O dirigente assinalou que era «uma vergonha que os futebolistas homossexuais não pudessem render 100% das suas capacidades por se sentirem retraídos, presos na omissão da sua verdadeira personalidade».

 

Em Inglaterra também se discute o tema nas mais altas instâncias. O Presidente do Sindicato de Jogadores, Clarke Carlisle, não teve medo de dizer que havia falado com «oito futebolistas gays, sete dos quais me disseram que não eram capazes de “sair do armário” por temerem pelas suas vidas».

De pouco ou nada lhes serviu que o Sindicato insistisse para que eles admitissem a homossexualidade em público, com garantias de total apoio. Sem Sindicato veio o puro acaso: Matt Jarvis, jogador heterossexual do West Ham, fez uma capa para a revista Attitude (publicação gay com maior tiragem do Reino Unido), na qual clamava «chegou a hora de todos os meus colegas admitirem em público a sua orientação sexual!»

 

O caso Robbie Rodgers

Tem apenas 25 anos e parecia fadado para uma carreira de sucesso. Não aguentou a pressão e revelou o seu “segredo”: «Sou gay e jogador de futebol». Duas características que, aparentemente, não são compatíveis: «Tive medo de mostrar-me como sou. Medo de ser julgado e de não ser capaz de alcançar os meus objectivos. Medo da discriminação. Medo que o meu sonho me impedisse de ir a um Mundial, a uns Jogos Olímpicos”, escrevia na sua página web em Abril de 2013. Numa emotiva confissão, Rodgers renunciava ao futebol e tornou-se um dos grandes responsáveis por ter acordado a comunidade futebolística para o debate. «É hora de partir, de me ver longe do Futebol. Sou um homem livre!», rematou.

 

David Testo

Outro norte-americano, actuava no Montreal Impact da Major League Soccer (MLS), um ilustre desconhecido que em 2011 teve a coragem de dizer  «I’m gay». Saiu-lhe caro, o clube não quis renovar o contrato. Duas palavras que lhe mataram a carreira futebolística que só encontrou consolo no circuito colegial. Testo fica na história como o primeiro futebolista norte-americano que assumiu a sua homossexualidade. «Ninguém vai contratar um gay, tenho 31 anos, a minha carreira acabou…», admitiu há tempos.

 

Manuel Neuer

É um nome que consta da galeria dos melhores da modalidade, logo, quando fala os outros abrem as orelhas. Foi o que Manuel Neuer, guarda-redes titular do actual campeão da Europa Bayern de Munique e da Selecção da Alemanha, que Portugal vai defrontar daqui a uns meses, fez o ano passado quando invocou os seus colegas de profissão a confessarem de quem verdadeiramente gostavam. O alemão colocou a questão de uma forma muito simples «qual é o adepto que se importa… desde que o jogador jogue bem, certo?». Alguns meios del corazón de imediato se reuniram e combinaram qual deles seria o primeiro a publicar a capa ‘Neuer, gaaaaaaaay!’. Umas semanas depois destas declarações do guarda-redes, outro jogador da Bundesliga, cuja identidade foi mantida em segredo, admitia a sua homossexualidade: «Sou um actor todos os dias, vivo em constante negação», «não sei quanto tempo mais dava para aguentar, a pressão do modelo macho no futebolista é fortíssima». Esta espectacular entrevista teve estrondoso feedback, chegando inclusivamente ao coração (quem diria que ela tinha um?!) de Angela Merkel, que se desfez em elogios ao atleta. «Sintam-se cómodos», pediu a Chanceler a todos os jogadores homossexuais.

 

Anton Hysén

Há dois anos, em entrevista à BBC, o sueco confirmou que gostava de homens. «Sou uma pessoa segura, gosto de me ver como sou. Nasci assim e não tenho nada a esconder», disse o jovem de 20 anos que actua no Utsiktens BK, uma equipa de Gotemburgo que actua nos escalões inferiores do Campeonato Sueco. Hysén foi apoiado pelos pais, que apenas temem por eventuais reacções homofóbicas dos adeptos. Anton, esse está tranquilo e confiante que aguenta a pressão.

 

Justin Fashanu

A história deste nigeriano é o primeiro volume da colecção ‘Eu Saí do Armário, versão Futebol’. Foi ele antes de todos os outros. Fashanu foi um dos mais promissores jogadores do Campeonato Inglês durante a década de 80, chegando à então competitiva equipa do Nottingham Forest por um milhão de libras, à altura o valor mais alto oferecido por um jogador africano.

Fashanu já seria conhecido por gostar de homens, não teve foi coragem na altura de o admitir. O eterno Brian Clough dele dizia que «passava a vida naqueles malditos clubes de paneleiros». Foi preterido do Nottingham e nunca mais relançou a carreira.

 

Entrávamos em 1990 e Fashanu finalmente disse as duas palavras “proibidas” no Futebol: «I’m gay». O seu irmão deixou de lhe falar. Foi insultado pelos adeptos, pela imprensa e foi forçado a emigrar. Jogou nos Estados Unidos, no Canadá, voltou a Inglaterra pela porta pequena e dos discriminados.

 A tragédia abateu-se sobre o nigeriano em 1998 quando um jovem de 17 anos contou ter sido sexualmente abusado por Fashanu. Este não aguentou a pressão e suicidou-se. «Dei-me conta que já tinha sido condenado antes de ir a tribunal. Não quero preocupar mais a minha família e os meus amigos, sei que vou em paz». A Polícia britânica nunca encontrou indícios que Justin tenha abusado do menor…

 

Olivier Rouyer

Não se sabe se a tragédia de Fashanu assustou a comunidade futebolística. O que é certo é que só passados dez anos é que o assunto voltou à baila. O “culpado”? Olivier Rouyer, que se distingue dos outros por ter dito «Je suis homossexual» de chuteira pendurada…

Já comentador, revelou ao L’Équipe: «Sim, sou gay. Andei escondido mas estou farto de mentir». O ex-colega de Platini no Nancy Lorraine entre 73 e 74 foi capitão de equipa, internacional, era um ídolo dos adeptos pela sua espantosa velocidade.

Quis ser treinador depois de pendurar as botas algo que nunca viria a a acontecer apenas porque é homossexual assumido desde 1981…

 

A esperança Thomas Hitzlsperger

Este nome dir-lhe-á alguma coisa ou não tivesse Thomas sido um proeminente jogador da Premier League (Aston Villa) e um ex-internacional pela Alemanha em dois Mundiais.

Hitzlsperger admitiu este mês que gosta de homens, tornando-se assim o mais conhecido futebolista (vou buscar aqui o termo high profile, pode ser?) a fazê-lo. Tal como Olivier, primeiro acabou a carreira. Agora fala abertamente sobre o assunto. «Tomei a decisão consciente de confrontar o ódio e a discriminação que existem em relação aos homossexuais», «A homossexualidade é ignorada no Futebol», revelou no seu site oficial. «Os media gostam do assunto só que esquecem-se que para nós é difícil num desporto que promove um ambiente completamente macho. Ser gay ainda cai muito no preconceito e então no futebol… as pessoas olham-nos quase como uma contradição. E quase ninguém quer estar sujeito à pressão horrível de ter de admitir…».

 

Esta reveladora entrevista ao Die Zeit mostrou um Thomas à espera do dia em que «as pessoas deixem de escrever ou falar do assunto, vamos apenas conviver com ele, desfrutá-lo. Cada vez mais atletas têm admitido que são gays, vejam o ano passado».

Pesquisar os nomes de Tom Daley, Steven Davies, Gareth Thomas ou John Amaechi reforça esta opinião de Thomas. Da Natação à NBA, multiplicam-se as confissões e a utopia de «vivermos sem discriminação em relação às origens, cor, orientação sexual ou religião» talvez não esteja assim tão distante, na opinião de Hitzslperger: «isto não é política, são factos. Espero levar este debate mais além. A nossa sociedade está mais aberta, tolerante».

O alemão mostra nas palavras a determinação dos seus tempos de jogador: «Quero encorajar os jovens e os atletas profissionais. Estou certo de que o desporto profissional e a homossexualidade não têm de dormir em quartos separados».

 

John Amaechi, que deu um «welcome to the club» a Thomas no seu twitter, não partilha da opinião do antigo futebolista: «o Futebol é tóxico na sua essência, não só para os homossexuais. É tóxico para as mulheres que querem ser dirigentes. É tóxico para os negros que só querem jogar à bola, entrar em estádios sem cânticos racistas. É tóxico para asiáticos. O problema é que o futebol não olha para dentro. Ao espelho prefere ver uma organização maravilhosa, incrível, rigorosa umas vezes, progressista noutras…»

Na opinião do antigo jogador de basket «os futebolistas conhecidos saírem do armário dizem respeito a uma evolução cultural a partir do Futebol. Não são produto da evolução cultural em si», garante, antes de avisar que «se queremos ver malta a sair do armário e a dar o melhor em campo então a cultura futebolística deve mudar em primeiro lugar».

 

A BBC Radio quis ouvir Hitzlsperger, que apesar de optimista ainda revela alguma ansiedade quando questionado sobre qual seria a reacção actual da comunidade do beautiful game a um futebolista homossexual high profile: «Não faço ideia. Não sei mesmo. As pessoas acham que seria um escândalo mas… nunca se sabe. Ainda não apareceu ninguém na Bundesliga, na Premier League, temos de esperar para ver. É estranho que nenhum nome conhecido tenha vindo a público. Olhando para a estatística, é normal que num campeonato de mais centena e meia de jogadores, alguns deles sejam homossexuais, julgo eu. Mas não interessa estar agora a especular».

E nos balneários, entre os jogadores, existia especulação? «Obviamente. Rumores, histórias sobre este e aquele. Mas nunca discutíamos sobre como poderíamos reagir como homossexuais, como os fãs poderiam reagir por exemplo».

 

Manuel Tinoco de Faria

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