December 7, 2019

Há muito que não se escreve sobre o Dragão neste espaço. Se calhar a culpa é dos resultados inconstantes, do turnover permanente de jogadores praticado por Lopetegui, de um início de campeonato nacional muito semelhante ao fim do anterior, um mero “satisfaz” tão longe das aspirações de excelência dos adeptos azuis e brancos…

 

Ou então, era necessário dar tempo. Era necessário ver evoluir este novo Futebol Clube do Porto, ver como os novos jogadores e equipa técnica se integrariam, como conseguiriam enfrentar as várias frentes em que um candidato ao título tem que lutar. O Rafael Cunha já tinha feito uma primeira observação das prestações desta equipa Armada em Espanhola, mas passados 2 meses, é mais fácil tirar algumas métricas, resultados e princípios de conclusões.

 

E se vamos começar a tirar conclusões, há uma que se impõe de imediato: este ano, o Porto tem melhores resultados na Europa do que no Campeonato Nacional. Em 10 jogos na liga portuguesa, o Dragão ganhou 6, empatou 4, não perdeu nenhum (única equipa invicta). Isto vale um 3º lugar a 3 pontos do líder. É um balanço negativo, sendo que “ainda há muito para se jogar”? Não, nem por sombras. Porém, as demasiadas flutuações no plantel são apontadas como prejudiciais ao desempenho pleno da equipa. É justo e legítimo que se use todos os jogadores disponíveis, e se aproveite a profundidade de banco para enfrentar as várias competições. Mas não nos esqueçamos que o clube sofreu mudanças profundas, sem grande tempo de adaptação. Se outros treinadores beneficiaram do trabalho e estrutura que encontraram, e foram dando retoques, cobrindo buracos, mas sem ousar mexer numa “equipa que ganha”, Lopetegui trouxe uma equipa NOVA. Importa não esquecer…

 

Se vezes sem conta já se disse que os últimos dois campeonatos ganhos pelo FCP foram antes perdidos pela concorrência directa, não é menos verdade que o do ano passado foi ganho de justiça pela equipa que melhor futebol apresentou ao longo do ano. Mas tudo tem o seu preço, e o da vitória em Portugal e em palcos europeus rima com saída de jogadores importantes. Pela primeira vez em muito tempo, o Porto agiu em vez de reagir. Exit a continuidade, foi dado lugar à ousadia. Saíram nos últimos anos jogadores essenciais e não foram substituídos “à altura”? Seja. Muda-se a base, a espinha toda, constrói-se um Porto jovem e com margem para crescer, já que atrair um Hulk ou um Moutinho “já feitos” seria dispendioso demais, e o clube não teria meios de competir com os gigantes da Europa. E se no Campeonato Nacional por enquanto isso não se traduz na tabela de classificação, é inegável que o melhor plantel da temporada está domiciliado no Dragão. A defesa é a menos batida, tendo sofrido 5 golos apenas. Os jogos empatados (Vitória de Guimarães, Boavista, Sporting e Estoril) foram-no contra equipas que recusaram abrir-se. Faltou em todos estes jogos o factor X, aquele sobressalto de loucura que desbloqueasse a situação. Os adeptos portistas levantaram-se contra Lopetegui, e mais ainda aquando da derrota na Taça de Portugal face ao Sporting. Mas há que dar tempo ao tempo, e julgar de uma perspectiva mais abrangente. Acredito que seja uma questão de tempo até este Porto ganhar a confiança necessária para assumir o comando do Campeonato Nacional.

 

Já na Europa, o Dragão está a evoluir a um bom nível, sendo depois do Real Madrid (5 jogos, 5 vitórias) a equipa com melhor balanço, tendo ganho 4 vitórias partidas em 5 partidas. “Mas com equipas como o Bate Borisov, até eu!” dirão alguns. Pois. Mas não está lá só o Bate Borisov. Quem acha o Atlético Bilbao uma equipa fácil, ou ainda o Shakhtar Donetsk, que lá vá ganhar jogos. É claro que não devemos ceder à euforia, nem tudo foi fácil nem ideal nesta caminhada. Se o playoff de acesso foi uma mera formalidade (que me perdoem os inúmeros adeptos do Lille que lerem este artigo, mas é verdade!), o resto foi longe de ser um passeio no parque. Ora vamos lá por fases:

 

17 de Setembro de 2014 – FCPorto vs BATE Borisov: 6-0

 

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OK, este jogo em casa também foi um passeio. 6-0, jogo de sentido único, um espectáculo para os olhos e para o moral das tropas. NEXT!

 

30 de Setembro de 2014 – Shakhtar Donetsk vs FCPorto: 2-2

 

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Este jogo foi todo um sofrimento. Comprometido numa qualquer mundanidade nos tectos de Lisboa, segui-o pela rádio, pela internet, e acabei por vê-lo quando cheguei a casa (obrigado pela função “viajar no tempo” do meu provedor de cabo e internet!). Um jogo tenso, em que o Porto teve as melhores oportunidades na primeira parte, tendo mesmo desperdiçado um penalti, defendido pelo guarda-redes russo. Dois erros defensivos deram a vantagem e a confirmação ao Shakhtar, e quando tudo parecia perdido, a um minuto do fim do tempo regulamentar, Jackson Martinez converte um penalti, em seguida marca um segundo golo já no tempo adicional para tirar a equipa dos maus lençóis em que estava. Não fosse este fim de partida do colombiano, não se teria reposto um pouco da verdade do jogo, tamanha foi a dominação do Porto, que podia ter fechao as contas já desde o primeiro período. Fica o aviso, e a satisfação de uma reacção à altura.

 

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21 de Outubro de 2014  – FCPorto vs Atletico Bilbao: 2-1

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Perdido nas límpidas águas do Oceano Índico, num retiro mais que merecido com a minha amada, não me foi possível acompanhar este jogo em directo. Tive que o ver também mais tarde. Foi bastante equilibrado, e o Atlético fez mais do que resistir à fúria do Dragão. Prova disso, a reacção ao voltar do vestiário, que asfixiou o Porto e lhes permitiu empatar o jogo. Mas a entrada de Ricardo Quaresma aos 65 minutos acabou por fazer a diferença. Trazendo velocidade a um jogo que cada vez mais se fechava, o número 7 desbloqueou a situação ao 75º minuto, e ainda permitiu aos seus criar situações de perigo até ao fim do jogo. Estva feito o break. 3 jogos, 7 pontos. Marcar mais 3 nos próximos 3 jogos assegurava a passagem para os oitavos de final.

 

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Quaresma, o herói do jogo, desbloqueia o resultado.

Quaresma, o herói do jogo, desbloqueia o resultado.

 

5 de Novembro de 2014 – Atletico Bilbao vs FCPorto: 0-2

 

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O jogo europeu de referência para Yacine Brahimi! Esqueçam o penalti falhado pelo Jackson “Cha Cha Cha” na primeira parte, esqueçam os remates do Bilbao que fizeram tremer os postes dos visitantes: este jogo foi do argelino. O lado esquerdo foi o seu parque de atracções, tamanha foi a facilidade com que criou o desequilíbrio  na metade aversa. O golo feito que põe nos pés de Jackson é um exemplo de entrega, de tenacidade. A sua justa recompensa por um jogo em que dominou o adversário (supostamente) mais perigoso do grupo chegou aos 73 minutos, com a recarga para golo que calou o estádio de San Mames.

 

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Brahimi, em grande forma aquando da vitória do FC Porto em Bilbao.

 

25 de Novembro de 2014 – Bate Borisov vs FCPorto: 0-3

 

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Este jogo, apesar de uma formalidade, foi importante do ponto de vista estratégico. Uma vitória asseguraria o primeiro lugar do grupo, permitindo evitar algumas “surpresas” nos oitavos. Ninguém quer encarar o Real Madrid desde a segunda fase da CL, pelo que ficar em primeiro do grupo pode ter a sua importância para se ir mais longe na competição.

E assim foi. A primeira parte foi fraca e sem grandes ocasiões para ambas as equipas. O primeiro remate do Porto surgiu aos 35 minutos. Como o jogo foi em Borisov, começou às 17h, hora de Portugal. Passei a primeira metade do jogo ainda no tabalho, a ouvi-lo na rádio sem grande entusiasmo. Já a caminho de casa, no pára-arranca do trânsito, o comentador explode literalmente ao microfone, com o golo de Herrera aos 56. 10 minutos depois, é Jackson que se junta à festa, e um BATE Borisov inanimado mete água por tudo quanto é lado. Cristian Tello fecha as contas, dando ao Porto uma vantagem confortável sem forçar, contra esta que foi até agora a equipa mais fraca da competição, e a que encaixou mais golos (22).

Está então assegurado o primeiro lugar do Porto no grupo, já que o segundo classificado, o Shakhtar, tem 8 pontos. Mesmo que venha vencer o último jogo no Dragão, totalizará um máximo de 11 pontos.

 

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Conclusão: não temos um Porto com duas caras, uma doméstica e outra europeia, mas sim uma equipa que se vai construindo à medida que avança na temporada. Não está tudo perfeito, longe disso, e por vezes os resultados não são suficientes para dizer o que foram os jogos. Mas temos um Porto que quer muito ganhar, e que não tem perdido (fora para a Taça de Portugal), um Porto que joga bem à bola e tem equipa para recuperar lugares na tabela de classificação. A gestão do ritmo do jogo é algo que tem que ser melhorado, mas parece-me que está no bom caminho.

 

Uma série de 4 empates em Setembro (3 no campeonato, um na Champions) é o que de pior se pode apontar a Lopetegui até ao momento. Isso e a rotatividade de jogadores. O início do ano 2015 vai ser crucial para as contas domésticas, e a saída de Brahimi para o CAN de 17  de Janeiro a 8 de Fevereiro no pior dos casos, vai pôr Lopetegui diante de uma dificuldade suplementar. Mas vamos deixá-lo agir. Afinal de contas, já tivemos Vitor Pereira e Paulo Fonseca no banco, com equipas bem mais experientes, e quase deixaram escapar (ou deixou mesmo, no caso do Paulo Fonseca) tudo quanto era título. Como adeptos, queremos sempre ganhar, e pomos um tic-tac para a obtenção de resultados que se resume a uma temporada, quando é certo e sabido que as grandes equipas levam tempo a (re)construir. Vamos dar tempo ao Lopetegui para trazer o Dragão de volta à terra prometida.

 

Ricardo Glenn Baptista

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