August 17, 2018

Bruno de Carvalho – No decurso da época de 2015/16, o Presidente do Sporting conheceu, em diversos campos de batalha, as derrotas mais retumbantes desde que assumiu a poder. O processo de renovação com Carrillo acabou com o peruano a treinar à parte e a assinar pelo Benfica. O braço de ferro com a Doyen terminou com uma condenação de mais 12 milhões de euros em tribunal. O “caso dos vouchers” revelou-se pouco mais do que uma tentativa inútil de desestabilizar o rival. Apesar do esforço brutal que tem vindo a fazer para tornar o Sporting mais competitivo, a ideia que prevalece é a de que Bruno de Carvalho assume, por demasiadas vezes, a pele do adepto, acabando por inviabilizar plataformas de entendimento…

 

Carrillo – Com Jesus ao comando, o peruano tinha tudo para ser o melhor jogador do Sporting e, quem sabe, o melhor jogador do campeonato português. O potencial já lá estava e Jesus seria o treinador ideal para lapidar este “diamante”, à semelhança do que fez com Di Maria, em 2009/10. Depois de sucessivos avanços e recuos no processo negocial, Carrillo não foi vendido, nem renovou com o Sporting, acabando a época a treinar à parte na Academia de Alcochete. Mesmo admitindo a alegada má-fé negocial do peruano e do respetivo empresário, a condução deste processo reclamava, porventura, uma maior maturidade por parte do Sporting. Ninguém ficou a ganhar.

 

Casillas – Somou erros infantis ao longo da época, confirmando a tese de Mourinho, segundo a qual há muito que Casillas já não é um guarda-redes de primeiro plano mundial. Não foi uma mais-valia na baliza portista.

 

Defesa – Dizem os experts que as equipas se constroem a partir de trás. De facto, quem tem o luxo de contar com uma boa defesa, no mínimo não perde. Por isso mesmo, a tremenda falta de qualidade da defesa do Porto será justamente um fatores que melhor permitem explicar o fiasco desta época. Uma defesa que integrava os nomes de Angel, Marcano, Indi e Chidozie, por exemplo, nunca permitiria “altos voos” à equipa…

 

Espanhóis – A verdade é esta: os treinadores espanhóis, por regra, não singram em Portugal. Foi assim com Camacho e Quique no Benfica e com Victor Fernandez no Porto. Lopetegui foi apenas mais um nome que confirmou esta tendência. Foi sempre demasiado arrogante para assumir os seus erros e essa “cegueira” impediu-o de tornar o Porto mais competitivo. Não deixou saudades.

 

Estrutura” – Foi das palavras mais usadas durante a pré-época e chegou mesmo a ser usada por Ricardo Araújo Pereira, quando parodiou a forma como Vieira deixou fugir Jesus para Alvalade.

A questão era esta: quem é que era, efetivamente, o rosto por detrás da “estrutura encarnada”: Vieira ou Jesus?

O eventual insucesso dos encarnados implicaria reconhecer que o amadorense era, afinal, a peça-chave da “engrenagem”.

Porém, a conquista do campeonato com Rui Vitória ao comando e a aposta bem-sucedida nalguns “miúdos” da formação demonstraram que a “estrutura benfiquista” possuía efetivamente sólidos fundamentos e que era capaz de sobreviver à partida de Jesus.

 

Ironia – Em 2015/16, o Sporting venceu o Benfica por três vezes consecutivas, ganhando a Supertaça, humilhando-o no campeonato (0-3) e afastando-o da Taça de Portugal (2-1). Mais do que as vitórias, o que saltava à vista era a superioridade da equipa de Jesus sobre o onze de Rui Vitória.

A suprema ironia disto tudo é que estes triunfos de pouco ou nada contaram. O Benfica venceu em Alvalade o jogo mais decisivo do campeonato (0-1) e a partir daí não voltou a largar a liderança.

 

Jesus – Goste-se, ou não, do estilo, perdoe-se, ou não, as provocações, releve-se, ou não, o ego exacerbado, a verdade é que Jesus é um treinador incrível. Cumpriu o que prometera e colocou o Sporting noutro patamar competitivo. Os 10 pontos de diferença relativamente à época anterior comprovam-no, assim como a incrível valorização de jogadores como Slimani, João Mário e Adrien, e a aposta bem-sucedida nos jovens Gelson e Ruben Semedo.

Só não vê isto quem não quer.

 

Loser” – Simpático no trato, competente no treino, a verdade é que Peseiro perpetuou no Porto o estigma de “loser”, herdado a partir da temporada de 2004/5, quando esteve à frente do Sporting.

Peseiro procurou implementar as suas ideias, alterou o esquema tático, lançou Sérgio Oliveira e André Silva, mas a equipa nunca ficou a ganhar. Quando pegou na equipa, estava a 5 pontos do líder Sporting e acabou a 15 pontos de diferença para o Benfica.

 

Marco Silva – De cada vez que o Sporting perdia ou empatava, alguém invocava, de forma provocatória, o nome de Marco Silva, lembrando o trajeto vitorioso do Olympiakos no campeonato grego e a forma como foi vergonhosamente dispensado de Alvalade. Poucos se lembraram, porém, que o Olympiakos não tem concorrência no plano interno há vários anos, que foi eliminado nos 16 avos de final da Liga Europa, e que chegou à final da Taça da Grécia – que perdeu contra o AEK – porque o adversário simplesmente não compareceu. Poucos se lembram também que, quando comandou o Sporting, Marco Silva já contava com Adrien, João Mário, William Carvalho e Slimani, sem esquecer Nani e Carrillo…

Em suma: o facto de se reconhecer que a forma como Marco Silva foi despedido não honra o Sporting (porque não honra), não impede que se reconheça que, efetivamente, o futebol do Sporting ficou (e muito) a ganhar com a chegada de Jesus.

 

Mercado de Inverno – Sem que nada o fizesse prever, Marega e Suk chegaram ao Dragão no mercado de Inverno. Seis meses depois, estas contratações continuam por explicar…

 

Obstáculos – Ao longo da época passada, foram vários os obstáculos e imprevistos que surgiram no caminho do Benfica. Em determinou momento, confesso que acreditei que aqueles obstáculos seriam inultrapassáveis…

A verdade, porém, é que o Benfica soube adaptar-se às circunstâncias, descobrindo internamente soluções que acabaram por não comprometer: quando não havia Salvio, jogava Gonçalo Guedes; quando Nélson Semedo esteve ausente, surgia André Almeida; quando Luisão partiu o braço, Lindelof esteve à altura; quando Júlio César se lesionou, Ederson revelou-se decisivo.

E, acima, quando Gaitán esteve ausente, Jonas continuou a marcar golos…

 

Pinto da Costa – O maior derrotado da época. Apostou na continuidade de Lopetegui, quando tudo o desaconselhava, e perdeu. Apostou depois em Peseiro, quando nada o recomendava, e perdeu também. Resta saber qual o impacto do fiasco desta época sobre as finanças do Porto e sobre a própria coesão na SAD…

 

Renato Sanches – A peça chave da conquista do título pelo Benfica. A sua entrada no onze de Rui Vitória revolucionou o futebol da equipa, imprimindo-lhe a intensidade que até aí faltara.

 

Rui Vitória – O grande vencedor da temporada. Muitos questionaram (até internamente) se tinha o perfil de treinador de equipa grande e, acima de tudo, se seria capaz de dar sequência ao trajeto de Jesus no Benfica. Sejamos sinceros: a primeira imagem de Rui Vitória é apenas a de um tipo simpático com um discurso correto, mas não cativante. Não se diferencia pelos “mind games” que notabilizaram Mourinho, ou pela autoconfiança que caracteriza Jesus, por exemplo. A somar a estas dúvidas em torno do perfil, a Rui Vitória debateu-se ainda com vários problemas ao longo da temporada, começando desde logo pelo mau planeamento da pré-época.

Vitória teve, porém, o mérito de ter nunca ter cedido à pressão e de ter preservado a união no balneário, mesmo quando o “ruído” era mais intenso. Os créditos pelo recorde de pontos obtidos no campeonato (88), superando o registo de Mourinho (86) pertencem-lhe exclusivamente.

 

Valência – A referência ao Valência pode parecer estranha no contexto deste artigo. Mas é que Jonas, internacional brasileiro, melhor marcador do campeonato português com 32 golos, avançado de enormes recursos técnicos, peça fundamental na conquista dos últimos dois campeonatos pelo Benfica, chegou à Luz, aos 30 anos, a custo zero, depois de ter sido dispensado pelo clube espanhol.

Sinceramente, dá que pensar como é que alguém pode ser pago para tomar decisões tão flagrantemente absurdas na gestão de um clube de futebol profissional…

 

Vasco Rocha

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