August 25, 2019

A pouco mais de dois minutos do fim de um dos mais disputados Super Bowls de sempre, os New England Patriots tinham a posse de bola muito perto da linha final dos Seattle Seahawks. A perder por 21-24, precisavam apenas de um field goal para pelo menos empatar o jogo e obrigar a um prolongamento. Mas foi então que aconteceu isto:

 

Frio e calmo, como sempre. Aquilo com já contamos de um veterano do calibre de Tom Brady. Mas todos sabiam que o jogo estava longe de estar terminado. Os Seahawks tinham dois minutos quase inteiros para galopar para o outro lado do campo e, com um touchdown, roubar o título aos Patriots nos últimos segundos. Depois de uma recuperação estrondosa contra os Green Bay Packers nas finais de conferência, já todos tínhamos aprendido a não duvidar da capacidade milagreira de Wilson, Lynch e companhia. E as nossas premonições foram confirmadas após esta recepção completamente absurda de Jermaine Kearse:

 

Voltem a ver a jogada. Sim, viram bem. Ele falhou a recepção, caiu no chão, a bola ressaltou-lhe na perna sem bater na relva e pousou caprichosamente nas suas mãos. Inacreditável. Seria possível que os Seahawks fossem capazes de arrancar mais uma vitória do éter? Com a bola a um yard da linha de touchdown, só lhes restava confiar na força demolidora de Marshawn Lynch para furar a defesa dos Patriots e garantir o segundo título consecutivo para a equipa de Seattle. No entanto, o que se sucedeu foi bem diferente:

 

Intercepção de Malcom Butler. Bola dos Patriots. Vitória por 28-24. Quarto título para Tom Brady e Bill Belichick. Na NFL, tudo muda num segundo.

Para perceber como chegámos a este resultado, é importante ter em conta três grandes fatores:

 

O delírio da juventude

Se é verdade que o miolo fundamental deste jogo foi marcado pela experiência das suas estrelas, os seus grandes momentos de ruptura nasceram da explosão e irreverência dos seus jovens. A primeira estrela a aparecer foi o rookie Chris Matthews, um receiver dos Seahawks que surgiu absolutamente do nada para terminar o jogo com 109 passing yards e um touchdown, sendo a principal arma de Russell Wilson para, a espaços, ajudar a desmantelar uma defesa dos Patriots que não estava a ceder um milímetro. Já no fim do jogo, foi o também rookie Malcom Butler que explodiu para o estrelato com uma intercepção inesperada e decisiva que deu a vitória aos Patriots. Os jogos são ganhos por equipas, é sabido, mas o balneário de New England sabe quem merece uma fatia especial dos agradecimentos.

 

A decisão de Pete Carroll

No segundo down, com quase 40 segundos no relógio e apenas um yard de terreno para chegar ao touchdown que quase garantidamente daria a vitória aos Seattle Seahawks, o treinador Pete Carroll tomou uma decisão inexplicável. Como é possível que não tenha escolhido correr? Quando ainda faltavam várias tentativas e contava com um timeout no bolso. Quando sabia que a principal vulnerabilidade dos Patriots era a defesa contra a run e a sua principal arma ofensiva é, exatamente, o running back mais demolidor na liga. Carroll escolheu o passe, por razões que são difíceis de explicar e impossíveis de compreender. A história dita que o sucesso continuado na NFL é especialmente difícil. Nada garante que os Seahawks cheguem aos playoffs no próximo ano, quanto mais à final. Erros destes são um luxo que a NFL pura e simplesmente não concede.

 

O legado de Tom Brady

Nesta final histórica, as grandes estrelas não desiludiram. Ninguém foi perfeito mas muitos foram excepcionais. Russell Wilson mostrou uma capacidade constante de usar as pernas para criar espaço e ocasionalmente lançar flechas longas que abriram o jogo de Seattle. Marshawn Lynch foi tão “Beast Mode” como costuma ser, com 102 running yards em 24 corridas. Edelman e Gronkowski combinaram para 177 yards e dois touchdowns em apenas 15 recepções. Mas, no fim, a bola de jogo pertenceu a Tom Brady, o MVP da final pela terceira vez. Mesmo depois de uma semana aterradora, com ataques à sua integridade a voarem de todos os lados, e depois de ver dois dos seus passes serem interceptados pela assustadora linha secundária dos Seahawks, Brady foi a máquina que sempre é. Acertou 37 em 50 passes, maioritariamente em passes curtos para os cantos e para o meio do terreno entre as duas principais linhas defensivas (a única – e relativa – fragilidade na defesa de Seattle) e terminou com 328 passing yards. Com os seus quatro touchdowns, atingiu os 13 em jogos das finais, ultrapassando a marca de 11 do lendário Joe Montana. Números como este vão certamente relançar o contínuo debate sobre o lugar de Brady no panteão das estrelas do futebol americano. Sobre qual é o seu legado. Conhecendo a personalidade do quarterback dos Patriots, o seu historial na liga só teve quatro momentos que verdadeiramente interessaram – cada uma das noites em que saiu do estádio como campeão.

 

Pedro Quedas

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