December 5, 2019


E como o futebol português é feito de polémicas, cabe agora ao comentador desportivo Rui Santos ter os seus 15 minutos de fama, ao considerar a chamada de Dyego Souza à Seleção Nacional “uma contradição”, entre outras considerações mais infelizes que extravasam o domínio futebolísticas e que deverão ser tratadas em sede própria.

O cerne da questão é o seguinte: é legítima a chamada do ponta de lança luso-brasileiro à Seleção Nacional? Obviamente que sim.

Em primeiro lugar porque é um bom jogador, de créditos firmados, que atua numa posição em que o futebol português é claramente deficitário. Assim de repente, pense nalgum ponta de lança português de topo (não, o André Silva não é de topo). Exato, não há. Agora pense pontas de lança medianos com qualidade suficiente para serem internacionais: André Silva e… pois, também não há. Daí ser plenamente legítimo e plausível lançar mão de um jogador que detém o passaporte português – para todos os efeitos, do ponto de vista jurídico, tem tanto direito ao que quer que seja como um português de Vila Franca de Xira – e que se encontra plenamente integrado na vida lusa: está em Portugal desde os 18 anos (tem 29), é casado com uma portuguesa, e tem uma filha também ela portuguesa. Acresce que, atestando o óbvio, fala a mesma língua.

Por outro lado, se olharmos para casos semelhantes passados noutras seleções, vemos situações que poderiam ser mais “chocantes” (tendo em conta que nada é “chocante”, já que se estão reunidos os pressupostos legais para se obter uma determinada nacionalidade, então o sujeito deverá ter todos os direitos que assistem um nacional “de raiz”), uma vez que nem sequer a mesma língua é partilhada. Falando de jogadores de origem brasileira, só aqui na vizinha Espanha, temos os casos de Diego Costa, Thiago Alcântara, Rodrigo e Marcos Senna (este último foi campeão europeu pela Espanha em 2008). Na Ucrânia temos Júnior Moraes e Marlos. Na Alemanha tivemos Kevin Kuranyi. Na Bielorrússia temos Bressan. Na Arménia há Marcos Pizzelli. Guilherme e Mário Fernandes na Rússia. Jorginho e Emerson Palmieri pela Itália. E poderia continuar.

Tudo isto para salientar que estas situações deverão ser encaradas com a maior das naturalidades no mundo globalizado de hoje em dia, pois outra solução a tomar seria necessariamente discriminatória e cerceadora dos mais elementares direitos e garantias dos cidadãos. E se a solução for desportivamente enriquecedora – como é o caso de Dyego Souza, o de Pepe, ou como foi o de Deco – então é ouro sobre azul.

Elementar, meu caro Rui.



Miguel Pinho

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