January 22, 2020

Sábado, dia das mentiras, Benfica e Porto jogam o que é, para muitos, o duelo do título. Na opinião de múltiplos adeptos e comentadores, quem vencer é campeão. Porém, pelo percurso das duas equipas no corrente campeonato não é assim tão fácil aquiescer esta conclusão. Não é o jogo do título, e por inúmeras razões. Uma das quais -talvez a nuclear- prende-se com o facto de ambas as equipas estarem a realizar um campeonato fraco. Não é plausível, independentemente do desfecho do clássico, que Porto e Benfica permaneçam vitoriosos até à jornada final.

 

O Benfica iniciou bem o campeonato, com dinâmicas de jogo e vitória muito fortes. Apoiados no futebol de Pizzi, André Horta, Cervi, Guedes e Mitroglou, e na segurança de Fejsa, os encarnados protagonizaram um ciclo interessante e cavaram, inclusivamente, um fosso pontual em relação aos rivais. Em determinado período da época deu a sensação, até, que o título estava garantido. Derrotar o Benfica parecia uma tarefa hercúlea. No entanto, com o arranque da segunda volta, Rui Vitória não soube reinventar o futebol da equipa e o Benfica tornou-se previsível. Os treinadores adversários, perspicazes estrategicamente, começaram a pressionar alto, a condicionar o futebol de Pizzi, e o Benfica deixou de tomar conta dos jogos. As últimas jornadas têm sido sofríveis e os encarnados só estão na liderança pelos pontos conquistados na primeira volta. Esta temporada serve mesmo para Rui Vitória repensar com rigor o seu trabalho, permaneça o Benfica em primeiro ou segundo lugar, porque este foi o ano em que a equipa da Luz pior jogou nos últimos oito anos -sim, não me esqueci da época de Villas-Boas. Sôfrego e insuficiente.

 

No caso do Porto, a expectativa para esta época era a de realizar uma prova interna melhor do que a(s) anterior(es). Lutar pelo título, nesta fase, era considerado uma benesse. Pinto da Costa admitiu até que esta era uma época de transição. Nas palavras do dirigente mais titulado em Portugal, conhecido pela sua máxima exigência, o Porto tinha este ano uma margem de erro maior que em anos anteriores. A escolha do treinador e do plantel revelou isso mesmo: Nuno Espírito Santo, à partida para o dragão, tinha um currículo intermitente, comprovado pelas passagens por Rio Ave e Valência, e o plantel, sobretudo nas opções atacantes, deixava a desejar. O campeonato azul-e-branco, como seria expectável, iniciou-se de forma inconstante, com vários empates em jogos acessíveis e um futebol pobre de ideias, assente apenas nas botas de Otávio e André Silva. Nuno Espírito Santo chegou mesmo a cometer a heresia de deixar Óliver Torres, o melhor jogador do presente campeonato, no banco. Depois de alguns empates, a equipa, após a chegada de Soares, arrancou para uma fase vitoriosa, apenas interrompida pelo V. Setúbal, na última jornada. O futebol da equipa, porém, não evoluiu conforme os resultados. Nuno teve o mérito de formar um onze, de reerguer o espírito portista, de criar algumas rotinas interessantes do ponto de vista defensivo, mas pouco mais. Exceptuando o clássico da primeira volta, o Porto foi incapaz de fazer um jogo, durante noventa minutos, a praticar um futebol envolvente, sufocante para os adversários. Não fosse Óliver e alguns rasgos de Brahimi e seria legítima a dúvida de que o Porto estivesse, neste período, tão perto do líder.

 

Ambas as equipas não conseguiram provar, até agora, que têm o chamado estofo de campeão. A sensação que Benfica e Porto deixam, assim que entram em campo, é a de que o desfecho pode do jogo pode ser qualquer um. É indesmentível que uma vitória no Clássico pode oferecer um acréscimo de confiança que permita uma recta final de campeonato cem por cento vitoriosa a ambos, tal como aconteceu na época passada com o Benfica. Não é possível esquecer, contudo, que os encarnados tiveram, o ano transacto, uma sinergia anormal entre jogadores e treinador, à custa das palavras pouco elogiosas de Jorge Jesus em relação a Rui Vitória. Este ano isso não aconteceu. É possível, por isso, acreditar que Benfica e Porto, caso haja vencedor no Clássico, possam perder pontos na jornada seguinte. Seja o adversário Belenenses ou Estoril.

 

Pedro Manuel Magalhães

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE