October 22, 2019

 

Hoje é daqueles dias em que aconteça o que acontecer até às 19:45 só penso numa coisa. E a essa hora deixo de pensar, porque pensar implica razão, e nessa altura serei um poço de sentimentos. Sinto tudo. A mil. Vezes mil. Sinto muito. Morro de sofrimento cada vez que eles passarem o nosso meio campo. Morro de ansiedade de cada vez que nós passarmos o dele.

 

Desfaço-me.

 

Sempre que um gajo de amarelo fluorescente tiver a bola mais de meio segundo no pé grito “MAS NINGUÉM LHE TIRA AQUELA M*RDA, C*R*LH*, ESTÁ TUDO A DORMIR???”. E bebo uma para descontrair.

 

De cada vez que um jogador nosso tiver na iminência de receber uma bola grito “CHUTA. CHUTA, F*D*-S*, SEM MEDOS, CARA&%$”. E bebo uma para descomprimir.

 

Hoje sei que tenho a promessa de céu e inferno. Sei que vou alternar entre ambos em milésimos de segundo. Hei-de morrer mil vezes. Hei-de renascer outras mil.

 

Vivo para este tipo de jogos. Para o drama. Felizmente, o meu Benfica também.

 

Há clubes que não são assim. O Bayern de Munique, por exemplo. Esmagar adversários faz parte da sua imagem de marca, está-lhes no ADN e é isso que os adeptos esperam da equipa. Senão vejamos: Em 2008/2009 o Bayern deu 7 ao Sporting na Alemanha depois de já ter espetado 5-0 em Alvalade para fechar a eliminatória com um agregado de 12-1, o mais desnivelado de sempre da história da Liga dos Campeões. O resultado de ontem frente ao Arsenal 1-5, repetindo o resultado da primeira mão (5-1) totalizou 10-2 e foi o segundo maior desnível de sempre na Champions. As duas maiores cabazadas de sempre da história da champions foram dadas pelo mesmo clube, isto não é coincidência. Já em 2011/2012 o Bayern acabou a eliminatória contra o Basileia com um parcial de 7-1 (perderam 1-0 na primeira mão na Suíça e atropelaram os desgraçados na Baviera com um 7-0). Eles não têm piedade nem com os seus conterrâneos. Em 1998/1999, ano em que protagonizariam a final mais dramática de sempre da competição (uma final em que o Manchester United ganhou “à Benfica”), apanharam pelo caminho o Kaiserslautern nos quartos-de-final e cilindraram com um 6-0 no total das duas mãos (0-4 fora e 2-0 em casa). Apesar de ter tido uma eliminatória mais equilibrada a pior derrota de sempre do FC Porto para a Liga dos Campeões também foi às mãos destes germânicos, quando em 2015 foram à Allianz Arena perder por 5-1 nos quartos-de-final da Champions (também vejo aqui um padrão) e deitaram por terra uma vantagem de 3-1 amealhada no Dragão. Bayern = goleadas.

 

O Benfica não é nada disto. O modus do Benfica é sofrer. É jogar para o impossível. E repeti-lo as vezes que forem necessárias. Nós vivemos tanto de impossíveis que não é coincidência que sejamos patrocinados pela Adidas.

 

É impossível perder 8 finais europeias seguidas. Sempre com drama. 2-1 contra o Milan. 1-0 contra o Inter. 4-1 contra o Manchester United mas no prolongamento. 2-1 no conjunto das mãos contra o Anderlecht. 6-5 nos penalties contra o PSV Eindhoven, depois de 90 minutos + prolongamento de 0-0. 1-0 contra o Milan de novo. 2-1 contra o Chelsea no famoso minuto 92. 4-2 nos penalties contra o Sevilha novamente depois de um nulo que se estendeu ao tempo regulamentar e ao prolongamento. Perguntem às casas de apostas, estatisticamente isto é impossível.

 

Mas ganhar ao Barcelona de Kubala, que tinha eliminado o Real Madrid pentacampeão europeu, ainda sem Eusébio, também é impossível. Repetir o título europeu contra esse mesmo Real Madrid de Puskas, Gento e Di Stefano, mesmo já com Eusébio é impossível. Ir à Alemanha empatar a 4 com o Leverkusen de Schuster e Kirsten e Thorn é impossível. Tirar o Manchester United da Champions com um golo do Beto é impossível. Pôr o Ricardo Rocha a secar o Ronaldinho na Luz é impossível. Fazer o Moretto defender um penalty do mesmo Ronaldinho em Camp Nou é impossível. Ganhar ao Liverpool campeão europeu é impossível. Entrar em Anfield Road  para segurar a vantagem trazida da Luz, e acabar por ganhar novamente é impossível. Ganhar à Juventus de Pogba, Buffon, Tevez e Pirlo é impossível. Ir a Turim segurar uma vantagem de um golo na segunda mão de uma meia-final europeia, terminar a jogar com 9 jogadores e ainda assim impedir que a Vecchia Signora dispute essa final europeia em casa é impossível.

 

O Benfica alimenta-se disto e cresce a cada impossível. Hoje prepara-se para tentar mais um: evitar ser derrotado no Signal Iduna Park contra uma das equipas que praticam melhor futebol da Europa.

 

Há quem garanta que vamos ser goleados. Mas são os mesmos que garantiram o mesmo quando o ano passado nos calhou o Bayern em sorte. Acabámos a disputar a eliminatória taco a taco (perdemos 3-2 no agregado).

 

Nós garantimos que vamos à Alemanha disputar a eliminatória olhos nos olhos. Chamam-nos arrogantes. “Parece impossível”, dizem abanando a cabeça em descrença. Pois parece, e é por isso mesmo que é um jogo feito à nossa medida.

 

Pedro Filipe

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