December 5, 2019

Cresci a invejar o sucesso desportivo do Futebol Clube do Porto.

 

Época após época, habituei-me a assistir às jogadas de bastidores e à forma habilidosa como Pinto da Costa conseguia repetidamente construir plantéis vencedores, tantas vezes à custa de técnicos e jogadores dispensados ou subvalorizados nos rivais.

 

O Presidente portista tinha, entre outros, este dom: converter os dispensados em “indispensáveis” e os desdenhados em “valores seguros” na sua equipa. Vários episódios, que entraram para a história do futebol português, podiam ser aqui referidos. Fruta à parte, claro… Desde logo, o telefonema “carinhoso” de Pinto da Costa a Paulo Futre, que selou a aquisição do extremo pelo Futebol Clube do Porto, tirando partido da desilusão do jogador ao saber que o Sporting o pretendia emprestar à… Académica.

 

Pinto da Costa chamou-me Paulinho e eu fiquei nas nuvens…” – conforme esclareceu Futre numa entrevista recente.

futre

 

Mais tarde, a contratação de Bobby Robson, logo após o seu precipitado despedimento por Sousa Sintra, revelou-se um histórico “golpe de asa” do presidente portista e o primeiro passo no sentido da conquista do inédito pentacampeonato. Ainda nos anos 90, todos se lembrarão que Deco, a “peça-chave” da equipa portista vencedora da Taça UEFA e da Liga dos Campeões, havido sido recrutado por Pinto da Costa, pouco depois de ter sido dispensado… pelo Benfica. Na origem do sucesso do Futebol Clube do Porto estava também a existência de um núcleo duro de jogadores que personalizavam a liderança e a garra portista, impondo respeito aos adversários e ordem no balneário. Era este, aliás, um dos fatores que mais diferenciava o Porto dos seus rivais: os plantéis mudavam, mas havia sempre uma referência que inculcava aos recém-chegados essa “mística portista”. Os nomes de João Pinto, André, Vítor Baía, Jorge Costa e, mais recentemente, Bruno Alves inseriam-se nessa tradição.

 

Ora, no momento em que escrevo estas linhas, é tudo isto que falta ao Porto. Onde antes havia continuidade, hoje encontramos rutura. Onde antes havia liderança, hoje encontramos indisciplina. Onde antes havia referências, hoje encontramos apenas espanhóis medíocres… A imagem que melhor reflete o atual desnorte portista foi o episódio protagonizado por Maicon, justamente um dos jogadores com mais anos no clube, que decidiu abandonar o terreno de jogo, após um deslize que deu em golo, contrariando as ordens expressas do treinador. Torna-se, de facto, difícil de compreender o tamanho desacerto das escolhas e do caminho trilhado pelo Porto nos últimos três anos. Ousaria até dizer que a inépcia revelada neste período se aproxima, estranhamente, da incompetência dos piores anos da gestão Godinho Lopes no Sporting e de Damásio no Benfica…

 

Joao PINTO (capitaine) tenant le trophee - Joie - Equipe - FC Porto /Bayern de Munich- 27.05.1987 -Vienne - Champions league 1987 - Finale -Coupe d Europe 1987 -Coupe des clubs Champions C1 - Archives Archive - Foot Football - largeur attitude coupe trophee victoire pose Arthur Jorge entraineur coach capitaine

 

Começando por Paulo Fonseca, a ideia que fica é a de que o “milagroso” golo de Kelvin aos 90’2 da época de 2012/2013 fez Pinto da Costa acreditar que seria possível manter a fórmula que funcionou com Vítor Pereira: um plantel “modesto” seria bastante para manter a preservar a hegemonia interna. Foi esta a lógica que explicou o ingresso de jogadores medianos como Carlos Eduardo, Licá, Ghilas e Josué, isto num plantel que já não dispunha de jogadores com o talento de Hulk, Falcao e James… A questão é que os “milagres”, em futebol, não se repetem em todas as épocas e a crença de Pinto da Costa não se confirmou. Os jogadores medianos nunca ultrapassaram a mediania e o Benfica de Jesus manteve-se a um nível competitivo. Olhando ao percurso posterior de Paulo Fonseca, parece, de facto, que o fiasco da sua passagem pelo Dragão esteve mais relacionado com a fraca qualidade do plantel do que com a sua competência, enquanto treinador.

 

Na época seguinte, procurando emendar a mão, Pinto da Costa não hesitou em fazer exatamente o oposto do que fizera com Paulo Fonseca: apostar todas as fichas na construção de um plantel de qualidade indiscutível. A aposta em Lopetegui, porém, tinha tudo para dar errado. E deu… Desde logo, o passado revelava que os treinadores espanhóis nunca foram particularmente felizes em Portugal. Foi assim com Victor Fernandez no Porto, com Camacho e Quique Flores no Benfica, e com Fernando Castro Santos e Alberto Pazos no Braga, por exemplo.

 

Por outro lado, a “carta branca” concedida a Lopetegui em matéria de definição do plantel acabou por conduzir à chegada de uma legião de espanhóis sofríveis, em tudo semelhante à legião de britânicos medíocres que aterrou na Luz, nos anos 90, pela mão de Graeme Souness e de Vale e Azevedo. Imagino, por isso, que daqui por uns anos, os adeptos portistas lembrar-se-ão de nomes como os de Andrés Fernández, Adrián López, José Ángel e Marcano com as mesmas “saudades” com que os benfiquistas se recordam dos “tempos áureos” de Gary Charles, Steve Harkness, Saunders ou Michael Thomas…

 

Acresce que, mais do que um profundo desconhecimento do futebol português, Lopetegui evidenciou, desde o início, uma postura de suprema arrogância que o impedia de reconhecer e de corrigir os erros que ia acumulando. Por isso mesmo, o falhanço da época passada, às mãos do plantel mais fraco da era de Jorge Jesus no Benfica, não espantou ninguém… Numa análise racional, a ponderação destes fatores desaconselharia a continuidade de Lopetegui na presente temporada. Por teimosia ou por convicção, Pinto da Costa concedeu ao basco uma segunda oportunidade, que ele, como se esperava, não demonstrou merecer. A contratação posterior de Peseiro – que nunca foi conhecido pelos seus “dons” em matéria de liderança e de motivação… – só pode ser explicada pela ausência de alternativas sólidas para pegar numa equipa descrente a meio da época.

 

lopetegui

 

A questão que se coloca é, por isso, a de saber se estamos a assistir a uma efetiva “mudança de ciclo” no futebol português e se Pinto da Costa ainda é capaz de aplicar os “golpes de asa” que tanto o notabilizaram no passado. Acredito que ninguém terá ainda uma resposta definitiva sobre isto. É sabido que Pinto da Costa já conviveu com o insucesso no passado, tendo sempre conseguido recuperar o trilho das vitórias. A questão é que, nos tempos que correm, o Porto depara-se com um contexto muito diferente daquele que existia até há uns anos atrás. Desde logo porque, depois da instabilidade que caracterizou a presidência de Damásio e de Vale e Azevedo, o Benfica de Vieira afirmou-se definitivamente como um candidato real e efetivo à conquista do título, enquanto o Sporting tem vindo progressivamente a atingir patamares competitivos mais elevados, graças ao esforço hercúleo de Bruno de Carvalho e da sua equipa. Por outro, no seio do próprio Futebol Clube do Porto, a autoridade de Pinto da Costa parece nunca ter sido tão contestada como nos dias de hoje, transparecendo, por vezes, a ideia de que estamos diante de uma liderança cada vez mais enfraquecida.

 

Não acredito que as palavras de Vítor Baía, símbolo portista, ou de Angelino Ferreira, antigo administrador, sejam indiferentes aos adeptos azuis e brancos. Recuperar a hegemonia perdida neste novo contexto será, portanto, o derradeiro e, porventura, o mais decisivo desafio que alguma vez se colocou a Pinto da Costa.

Vasco Rocha

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