December 7, 2019

 

Em miúda trocava as bonecas pela bola. Adorava jogar à bola com o meu irmão na rua. Às vezes só com ele, outras com os vizinhos (até preferia com vizinhos, porque pegava-me bastante com o meu irmão. É o que dava ter cores clubísticas diferentes debaixo do mesmo teto).

 

Por vezes éramos apenas quatro atrás de uma bola, mas aquilo parecia 11 contra 11. Até o ‘bruaaa’ dos adeptos nas bancadas a gente ouvia (logo a seguir, a mãe chama para o almoço pela décima vez).

 

De vez em quando lá aparecia um miúdo da rua de baixo, muito a medo, a perguntar se podia jogar. “Tens jeito para quê?!”. “Eu gosto de ir à baliza”. “Ótimo. Preciso de ti”. Mas a outra equipa também precisava. E de repente o menino envergonhado transformava-se num jogador cobiçado.

 

Quando a bola entrava no campo que era a nossa garagem, havia respeito, havia companheirismo, havia amuos que passavam logo de seguida. Zangávamo-nos todos, por vezes, mas no fim, todos íamos comer sandes com Tulicreme.

 

Tradição, fair play, saúde, amizade… cresci com isto. E como eu, muitas pessoas que se esqueceram de continuar miúdos quando cresceram. Quando começaram a zangar-se com os amigos de cores [clubísticas] diferentes. Quando começaram a tomar como suas as dores do seu clube (que dores???). Quando se esqueceram que no futebol não há raças, não há credos.

 

Há uma bola, onze para cada lado e vontade de ganhar. Quando aplaudem o devolver de uma bola “com fair play” para uma zona bem distante daquela onde o jogo parou. Quando mediante uma desgraça alheia dizem “não tenho pena nenhuma desse lampião/lagarto….”.

Enfim, uma série de coisas.

 

E nem vamos entrar no “Mundo do futebol”, onde muitos dos esquecidos de que falo em cima chegaram lugares de destaque e se esqueceram que são lideres de massas, propagando o que não deviam.

Adiante…

 

Eu tenho saudades do Futebol. Da essência do Futebol. Do Desporto.

 

Hoje, pelos piores motivos, matei saudades. A 10 de maio de 1973, um grupo de jovens da cidade de Chapecó, apaixonados pelo desporto, decidiu criar uma equipa de futebol profissional. Equipa essa que vinha conquistando humildemente as suas vitórias, os seus sucessos.

 

Essa equipa de futebol sofreu hoje a sua maior derrota de sempre. Num minuto perdeu o jogo da vida. A onda de solidariedade que se tem visto em torno da desgraça que caiu sobre o Chapecoense é avassaladora.

abraco

 

Que essa onda ajude o Chapecoense a recuperar mais forte do que nunca, em homenagem a todos os que perderam o jogo hoje, e àqueles que terão de continuar sem os colegas e amigos. Que essa onda nos ajude a todos a pensar para quê tanta guerra todos os dias, todos os 90 minutos nas bancadas, em nossa casa. É desporto! É futebol! É paixão! É respeito!

 

Também em Maio, mas há muitos anos atrás (1949), o Torino sofreu uma derrota semelhante no regresso de um jogo amigável com o Benfica. Até hoje os dois clubes se mantêm amigos, irmãos. Como  e os meus amigos nos tempos de miúda em que jogava na rua.

miudo

 

Como benfiquista que sou não posso ignorar a atitude do meu Clube (com C grande) face a esta derrota e agradecer a mesma, sobretudo, enquanto adepta de futebol.

 

As minhas profundas condolências ao clube, às famílias e amigos das vítimas. Que o futebol seja sempre isto…

 

Força Chape.

aviao

 

 

Susana Silva

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