December 10, 2018

 

Ponto prévio: contrariando a tendência crescentemente dominante, considero-me um antagonista das análises estatísticas nos desportos coletivos. Não lhes retirando valor, julgo que explicações baseadas unicamente em analytics, básicos ou avançados, são um exercício de preguiça e comodismo. Atenção: esses dados são valiosíssimos. Simplesmente são complementares. Em resumo: um passe certo pode não ser um bom passe, um drible bem-sucedido pode não ser a opção mais acertada, assim como um lançamento de triplo sem oposição de Ben Simmons é certamente uma decisão pior do que um lançamento de Stephen Curry do meio campo com double team em cima.

 

Serve este preâmbulo para informar o leitor que o estudo que se segue não é sustentado com essas ferramentas numéricas, sendo apenas fruto da observação atenta e ponderada.

 

Na NBA recente é cada vez mais comum vermos all-stars juntarem-se de forma a maximizar as hipóteses de conquistar um campeonato. Fruto da mentalidade menos competitiva dos jogadores de hoje ou do crescimento exponencial do valor dos contratos, os motivos são vários e é um debate irresolúvel. No entanto, há uma coisa que se mantém imutável, ontem, hoje e sempre: a seleção natural de talento. Por outras palavras, contam-se pelos dedos de uma mão (mão e meia, no máximo) o número de jogadores capazes de serem líderes de uma equipa realisticamente candidata ao título. Correndo o risco de ser controverso e erróneo, arrisco dizer que só Lebron, Durant, Leonard, Curry, Harden e Davis têm atualmente este perfil (futuramente, talvez Giannis, Irving ou Embiid se intrometam neste debate). O que me leva ao ponto deste artigo: há uma outra dúzia de tremendos atletas que, sendo muito bons, não o são o suficiente, sendo pagos como se fossem, porque não há alternativa para as franquias. E, na maior parte dos casos, estamos a falar de jogadores que reclamam para si o estatuto de franchise player, tendo um ego demasiado grande para ceder protagonismo e stats individuais. Estes casos continuam e continuarão a suceder, pura e simplesmente porque a elite é restrita aos melhores dos melhores, e só esses, a meu ver, merecem ver investido todo o dinheiro disponível. Acontece que há 30 franquias, e apenas meia dúzia destes jogadores distintivos. Enquanto adepto da modalidade, sinto-me permanentemente solidário com equipas como os Oklahoma CityThunder, os Portland Trail Blazers ou os Washington Wizards, lideradas por autênticos craques, mas que esgotaram já a sua flexibilidade salarial sem que o roster se mostre suficiente para lutar pelo título. Nós fãs sabemos que não chega, mas ao mesmo tempo pensamos “que equipa fantástica!”.

 

 

Um core de playoff, mas não mais que isso

 

O caso de Russell Westbrook é talvez o mais flagrante da atualidade. Em 2016, o front office dos Oklahoma City Thunder acreditou que o Brodie seria capaz de ser o líder de uma equipa candidata. Dois anos volvidos, sabemos que West, com 30 anos, não é nem nunca será esse jogador. Porém, como dizer a um jogador que nos últimos dois anos acabou a temporada regular com média de triplo-duplo que, com ele a liderar, se estará sempre perto, mas aquém do objetivo? E, emocionalmente falando, como pode o franchise desfazer-se da maior figura da sua história? Temos, então, o triste diagnóstico: esta equipa está numa zona de ninguém, não se podendo desfazer do jogador, porque há poucos com a sua capacidade, mas, por outro lado, ele nunca aceitaria dividir o protagonismo por igual com um dos 6 jogadores mencionados acima.

 

Uma máquina de triplos-duplos… mas nem sempre uma máquina eficiente

 

Numa situação semelhante estão Damian Lillard e John Wall. A 100% estão discutivelmente no top-5 da posição de PG, mas nunca seriam capazes de ceder as chaves das respetivas equipas a alguém de valia superior – com a agravante de terem sido draftados pelas respetivas equipas que defendem, o que levanta de novo a questão emocional de o front office deixar cair uma peça que tanto deu ao clube e aos fãs.

 

Como a situação atual dos Wizards vem demonstrando, estes jogadores, a médio prazo, acabam por se tornar ativos tóxicos, pois amarram as suas equipas a uma posição em que ninguém quer estar: perto, mas ao mesmo tempo ainda longe do topo.

 

A criação dos super Max contracts parecia dar resposta a este problema, ao estabelecer mais uma tabela de diferenciação dos jogadores, mas veio apenas empurrar o problema para a frente. O que tem acontecido ultimamente é jogadores de nível apenas bom receberem Max contracts, enquanto as estrelas, anteriormente destinadas a esses contratos, assinam agora super Max contracts, na maior parte dos casos sem os merecer.

 

Perante este cenário, que soluções, preventivas ou reativas, podem adotar os GM’s de cada franquia? Embarcando na onda de alguns insiders e jornalistas especializados, defendo que a solução possível passa por avaliar monetariamente de forma justa cada atleta, independentemente da ligação emocional que possa ter com o franchise. Com esta postura, talvez diminuíssem os aberrantes contratos máximos oferecidos a jogadores como Clint Capela, Hassan Whiteside, Evan Fournier, Otto Porter ou Harrison Barnes. Com alguma astúcia, coragem e sentido de antecipação, é possível evitar estas situações de ‘mal menor’, que a seu tempo se tornarão em males maiores e altamente limitativos.

 

Um dos maiores beneficiados desde dilema que assola a maioria dos franchises. No desespero de não haver alternativa melhor, cometem-se loucuras como esta

 

Já dizia e lamentava Mário de Sá-Carneiro no seu poema “7”:

Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio

Que vai de mim para o Outro.

 

Da literatura ao desporto, o dilema de estar numa posição de ‘nem-nem’ atravessa o tempo e o espaço. Ninguém quer estar no intermédio, mas haverá sempre alguém por lá. Inevitavelmente.

 

João Mendes

No Comments

Optimization WordPress Plugins & Solutions by W3 EDGE