November 14, 2019

 

O sorteio dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões ditou o Borussia de Dortmund no caminho do Benfica.

 

Nesta fase da competição, não existem equipas fáceis. E a triste sina que as equipas portuguesas têm tido nos últimos anos nos confrontos contra equipas alemãs, deixou grande parte dos adeptos benfiquistas apreensivos com o resultado do sorteio.

 

No ano passado, o Benfica foi eliminado pelo poderoso Bayern de Munique de Pep Guardiola (1-0 no Allianz Arena e 2-2 no Estádio da Luz). O resultado de 1-0 na Alemanha fez com que os benfiquistas sentissem que a eliminatória não estava perdida e Rui Vitória procurou discuti-la em Lisboa. Quantos não se recordam do lance em que Raul Jimenez teve  oportunidade para fazer o 2-0 na primeira parte? O destino não quis que a história fosse escrita dessa maneira e as contas complicaram-se.

 

Faltou um bocadinho assim para o mexicano bisar na partida

 

Analisando as últimas exibições do Dortmund, apercebemo-nos que estamos perante uma equipa que tem apresentado fragilidades nos momentos defensivos que não são comuns em equipas de topo do futebol europeu. Em relação à capacidade de finalização, apesar de actualmente o rendimento ofensivo da equipa não ser o desejado pelo seu treinador, é uma equipa muito forte a criar lances de ataque rápido.

 

Mas vamos por partes.

 

O campeonato alemão está na 20ª jornada. O Borussia de Dortmund conta com 39 golos marcados. Na liderança, está o poderoso Bayern de Munique com 45 golos. No que a defender diz respeito, a equipa de Dortmund sofreu 23 golos em 20 jogos. No topo da tabela está novamente o B. Munique, que sofreu apenas 12 golos.

 

Mas como é que tem sido o rendimento da equipa?

 

Nos últimos 6 jogos, a equipa alemã marcou apenas 6 golos e não marcou mais do que 2 num só jogo. Na defesa, sofreu 6 golos e só num jogo é que manteve a sua baliza sem nenhum golo sofrido. Ou seja, o B. Dortmund não tem justificado o seu forte poder de finalização e tem tido dificuldade em não sofrer golos.

 

Run, herr Forrest, run…

 

Para além de ter feito várias alterações no onze titular, a equipa não apresentou sempre a mesma táctica. Não vale a pena espreitar a constituição da equipa no último jogo efectuado contra o último classificado da Bundesliga, o Dalmstad, porque foram poupados jogadores para o embate com o Benfica.

 

O treinador Thomas Tuchel tem variado o seu esquema táctico, montando a sua equipa com um esquema de 1-3-4-2-1 (três defesas centrais, dois alas bastante subidos, duas peças na zona central do meio campo e dois médios ofensivos atrás do atacante) e de 1-4-3-2-1 (quatro defesas, entre os quais dois laterais, três jogadores na zona central do campo e dois médios ofensivos atrás do atacante).

 

Thomas Tuchel é um dos treinadores mais bem cotados actualmente e fala-se que pode suceder a Arsene Wenger no Arsenal

 

Habitualmente, o B. Dortmund joga com uma linha de defesa subida e através de transições rápidas, procurando colocar a bola rapidamente nos médios ofensivos, que são os responsáveis pela fase de construção das jogadas. Nas transições rápidas, normalmente existe uma grande mobilidade dos laterais ou alas da equipa, dos médios ofensivos e do avançado. Fazem uma espécie de teia de aranha na proximidade da grande área adversária. As movimentações rápidas dos jogadores sem bola podem criar desequilíbrios no posicionamento defensivo do Benfica.

 

No entanto, se por um lado as movimentações dos vários sectores da equipa alemã fazem tremer as equipas adversárias, por outro lado esse tem sido um dos motivos para o mau posicionamento defensivo que a equipa tem registado nos últimos jogos. É como se o feitiço se virasse contra o feiticeiro.

 

O principal ponto fraco do Borussia de Dortmund tem sido a qualidade defensiva demonstrada.

 

Quando a equipa tem a posse de bola, a linha defensiva costuma apresentar-se subida. Nos últimos jogos, o sector defensivo tem demonstrado dificuldades de coordenação na colocação dos jogadores adversários em situação de fora-de-jogo.

 

Quer no sistema táctico com 3 defesas-centrais, quer no sistema com 4 defesas, os alas e os laterais do B. Dortmund têm uma forte projecção ofensiva. Uma das jogadas combinadas, consiste no passe longo dos defesas-centrais para os laterais ou alas que avançam para o último terço do campo, de forma a criar superioridade numérica na zona defensiva do adversário.

 

O patrão da defesa, Sokratis Papastathopoulos e os seus companheiros da zona central, tem limitações técnicas, costuma falhar passes quando está pressionado e tem tido dificuldades em ganhar duelos no jogo aéreo no momento defensivo.

 

O jogador reúne duas características de má memória para os portugueses: a nacionalidade e o nome

 

Nas bolas paradas, os jogadores que compõem o centro da defesa fazem habitualmente uma marcação individual aos jogadores adversários.

 

A defesa costuma sofrer desequilíbrios de posicionamento no contra-ataque dos adversários, criados após a perda de bola durante transições ofensivas em que os laterais do Dortmund estão colocados em zonas adiantadas do relvado.

 

No momento defensivo, a equipa não provoca muitos duelos físicos e prefere concentrar vários jogadores na zona da bola, eliminando linhas de passe à equipa adversária. Para evitar perder a posse nestas situações, quando a bola estiver na posse do Benfica em zonas laterais do meio campo do B. Dortmund, os jogadores encarnados devem tentar colocar a bola rapidamente na zona lateral contrária, solicitando a entrada do defesa-lateral desse lado, através de um passe para o espaço, provocando assim um desequilíbrio na equipa alemã.

 

Nos cantos defensivos, a equipa opta geralmente por uma marcação à zona junto ao primeiro poste e por uma marcação individual na zona central. A equipa alemã costuma colocar um jogador junto ao primeiro poste e opta por deixar o segundo poste livre.

 

No momento em que o canto é marcado pela equipa adversária, a defesa tem dificuldades em conciliar a marcação individual com as desmarcações dos jogadores adversários. Uma das formas do Benfica tentar criar uma situação de perigo nos seus cantos ofensivos, é provocar um arrastamento de jogadores para a zona do primeiro poste e colocar um jogador a desmarcar-se para a zona segundo poste, para onde o canto deverá ser marcado. Esse jogador deverá ser Luisão ser forte no jogo aéreo, alto e agressivo.

 

 

Na zona central do meio-campo, têm jogado Rafael Guerreiro, o internacional português e campeão europeu, e o internacional alemão Weigl. Dos dois médios, é o internacional português esquerdino quem mais participa nas jogadas ofensivas.

 

O internacional português mudou-se esta época para a Alemanha

 

Ele tem jogado a interior esquerdo, é rápido com bola, ágil, tem um remate forte com o pé esquerdo e é um dos eleitos da equipa alemã para rematar à baliza nos livres e para efectuar cantos do lado esquerdo.

 

No ataque, joga o avançado franco-gabonês Aubameyang, coadjuvado por dois jogadores do meio campo ofensivo, que habitualmente são Marco Reus e Dembelé. É nesta zona onde reside o foco de perigo do Borussia de Dortmund.

 

As principais ligações de força ofensiva do Dortmund são as ligações criadas entre Dembelé e Aubameyang e entre Reus e Aubameyang.

 

Dembelé é um jovem francês de 19 anos que lidera o número de assistências da Bundesliga, com oito passes de morte. Dembelé habitualmente ocupa o lado direito do meio-campo adversário. Dotado de excelente capacidade técnica, tem um forte poder de arranque com bola e uma capacidade física que lhe permite ganhar vários duelos individuais. Possui uma boa visão de jogo que, no meio das suas investidas velozes, permite-lhe fazer várias assistências para golo e cruzar de forma perigosa para a zona próxima da pequena área.

 

Dembelé, uma estrela em ascensão quer em França, quer no panorama internacional

 

A excelente qualidade com que executa os cruzamentos faz com que, a par de R. Guerreiro e de Reus, também seja um dos eleitos para a marcação dos cantos da sua equipa, quer do lado esquerdo, quer do lado direito.

 

O outro médio que tem jogado atrás do atacante Aubameyang é Marco Reus. O internacional alemão, destro, tem jogado a médio-ofensivo no lado esquerdo do meio-campo adversário. É o capitão do B. Dortmund, joga com uma grande mobilidade, é rápido a driblar na direcção da baliza, sabe proteger bem a bola e tem uma capacidade criativa forte que o ajuda a descortinar os melhores passes para os seus colegas.

 

Reus e Boateng, dois dos melhores da Mannschaft

 

Dotado de um bom remate de pé direito, quando está sem bola costuma muitas vezes movimentar-se com pés de lã para a grande área, sem que a defesa adversária se aperceba da sua presença, à procura de receber uma bola de uma das zonas laterais. Reus executa os livres nas zonas laterais, cruzando venenosamente para a zona da grande-área.  A par de R. Guerreiro, Marco Reus costuma marcar os livres da zona frontal à baliza, rematando. Para além disso, cobra os cantos do lado esquerdo.

 

O franco-gabonês Aubameyang é a principal referência do ataque e, neste momento, é o melhor marcador da Bundesliga com 17 golos marcados.

 

Apesar de ter estado ausente mais de um mês no Gabão, país que organizou a CAN 2017, ninguém conseguiu ultrapassar Aubameyang na lista de melhores artilheiros da liga alemã

 

O avançado Aubameyang costuma ser um jogador móvel sem bola que foge ao contacto dos defesas para receber o esférico. Ágil, rapidíssimo no drible da zona lateral para a grande área e muito veloz na busca da bola colocada em profundidade nas costas da linha defensiva adversária. Utiliza o pé direito para driblar e, na maioria das vezes, também para rematar à baliza. Tem facilidade em rematar de primeira dentro da grande área. Para além disso, Aubameyang também tem um bom poder de elevação e remata bem de cabeça. Outro atributo deste jogador é a boa leitura de jogo, que lhe permite ser rápido na antecipação aos defesas e fazer assistências para os médios ofensivos, que se desmarcam na grande área adversária com o objectivo de finalizar.

 

Devido à mobilidade e velocidade deste avançado, será difícil realizar uma marcação individual. Se o Benfica conseguir evitar jogar com uma linha defensiva demasiado subida, as probabilidades de haver passes em profundidade a solicitar a explosão do jogador, diminuem. Para além disso, será importante que os defesas e que os médios promovam algum contacto físico com o avançado, antes deste receber um passe ou no momento do drible, mas evitando cometer faltas. Este jogador tem algumas dificuldades em ganhar duelos físicos. Nos cantos ofensivos, os cruzamentos são geralmente direccionados para o atacante Aubameyang e para o defesa-central Sokratis.

 

Do alto dos seus 1,87 metros o gabonês tornou o seu jogo aéreo numa arma de respeito

 

Não há fórmulas mágicas para vencer jogos. Há pormenores que podem e devem ser explorados pelas equipas. Neste momento, o Borussia Dortmund não está no patamar do poderoso Bayern de Munique. Colocando num prato da balança a dinâmica ofensiva actual do Benfica e no outro prato da balança as fragilidades defensivas que o B. Dortmund tem apresentado, concluímos que é perfeitamente possível o Benfica fazer golos frente à equipa alemã, quer no Estádio da Luz, quer em Dortmund, e passar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões. A maior dificuldade do tricampeão nacional será aguentar a qualidade ofensiva dos alemães sem sofrer golos.

 

Abel Teles de Andrade

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