December 8, 2019

Numa entrevista concedida após pendurar as chuteiras, Luís Figo, num raro assomo de humildade, proferiu uma frase curiosa acerca da sua ascensão na alta roda do futebol mundial. Mais palavra, menos palavra, a frase era a seguinte: “Joguei com tipos mais habilidosos do que eu, mas acabei por afirmar-me num nível superior. A diferença residiu apenas no trabalho. Trabalhei mais do que eles.”

 

Por detrás da sua aparente simplicidade, a frase esconde uma mensagem forte e ambiciosa: se o fator determinante do sucesso reside não tanto no talento inato, mas na capacidade de trabalho e de superação pessoal, então, o sucesso está verdadeiramente ao alcance de todos.

 

Ora, o  momento atual que Slimani atravessa no Sporting e a entrevista recentemente concedida por Simon Vukcevic sobre a sua passagem por Alvalade fizeram-me ver quão acertadas eram, efetivamente, as palavras de Luís Figo.

De facto, ainda que de sentido exatamente oposto, os exemplos de Slimani e de Vukcevic comprovam, cada um à sua maneira, como o êxito no futebol não está reservado unicamente a um conjunto de génios predestinados.

 

Simon Vukcevic chegou ao Sporting no verão de 2007, com o rótulo de um dos maiores diamantes produzidos pela Sérvia e Montenegro. Logo se afirmou como uma das principais estrelas da equipa então comandada por Paulo Bento, isto numa altura em que Liedson começava a perder fulgor.

De facto, o montenegrino reunia todos os ingredientes para ser um ídolo em Alvalade: apesar de não ser particularmente rápido, a técnica incrível que detinha permitia-lhe tirar adversários do caminho com enorme facilidade e culminar as jogadas com assistências preciosas.

Por outro lado, o estilo temperamental e rebelde aproximava-no de Sá Pinto, outro ídolo leonino.

Acresce que, embora não fosse avançado, Vukcevic fazia golos. Mais do que isso: fazia golos decisivos e de belo efeito, em especial, contra Benfica e Porto.

 

Quando estava nos píncaros da sua fama, lembro-me bem de um conceituado comentador televisivo referir, após exibição magistral do montenegrino, que Vukcevic era “o melhor estrangeiro que passou por Alvalade desde Balakov”.

 

Tais palavras foram, porém, proferidas demasiado cedo.

 

O  percurso turbulento que se seguiu não confirmou as expectativas que o talento de Vukcevic justificava. Na verdade, os sucessivos atritos com os treinadores, o individualismo em excesso e a alegada pouca aplicação no trabalho diário ditaram a sua saída precoce para o Blackburn.

A partir daí, a  carreira do montenegrino entrou numa triste espiral descendente do qual nunca regressou: andou pela Ucrânia (Karpaty Lviv), pela Sérvia (Vojvodina) e Grécia (Levadiakos).

 

Numa entrevista recente, Vukcevic assumiu, com humildade, que o fiasco da sua passagem por Alvalade se deveu, apenas e só, a culpa sua. “Infelizmente era um miúdo e pensava diferente. Não aproveitei como devia. Pensava que podia ser tudo, que era treinador, presidente… Não deixei que as pessoas me ajudassem. Só mais tarde me apercebi dos erros que cometi e peço desculpa a todos. O meu comportamento não foi correto e essa é a minha grande pena” – as palavras são dele.

 

Slimani, apenas dois anos mais novo do que o montenegrino, teve um trajeto exatamente oposto.

Em 2007, enquanto Vukcevic despontava em Alvalade, Slimani jogava nas divisões inferiores da Argélia, no JSM Chérag.

 

Após um percurso construído a pulso e provindo do desconhecido CR Belouizdad, acabou por aterrar em Lisboa, em 2013, para jogar no Sporting, sem despertar especial curiosidade nem entre a comunicação social, nem mesmo entre a massa adepta.

 

Influenciado pelo seu registo discreto em matéria de golos, fui daqueles que duvidei das possibilidades da sua afirmação em Alvalade.

Os meses que se seguiram comprovaram os meus receios: as fragilidades técnicas eram notórias, a receção de bola deficiente, a descoordenação motora gritante e o entrosamento com a equipa quase inexistente.

Todos os elementos apontavam, pois, no sentido de estarmos diante de um “Purovic da Argélia”.

 

Porém, a inesperada baixa de forma de Montero permitiu o acesso do argelino à equipa principal do Sporting e, a partir daí, verificou-se a evolução que, confesso, nunca julguei ser possível.

De facto, fruto de uma incrível capacidade de superação, Slimani melhorou incrivelmente nos planos técnicos e táticos e afirmou-se como o ponta-de-lança de eleição de Leonardo Jardim, de Marco Silva e, mais tarde, de Jesus.

 

É hoje, como se sabe, uma peça indiscutível do onze do Sporting e um dos melhores marcadores do campeonato.

 

É certo que Slimani nunca terá o poder de remate de Acosta, a eficácia de Jardel, os movimentos circenses de Liedson, nem a técnica apurada de Montero, mas nem por isso fica a perder na comparação com estes avançados da história recente do Sporting, pois supera-os noutras dimensões do jogo que vão muito além do talento puro. Supera-os na dedicação, na crença, no esforço, no sacrifício.

 

Além de ser, nos dias de hoje, um dos melhores cabeceadores do futebol europeu, Slimani assume-se como o primeiro obstáculo às investidas adversárias, como o jogador que mais quilómetros percorre na conquista da bola, que mais espaços abre para as entradas dos colegas e que mais trabalho dá aos defesas contrários.

 

É por isso que, pelo menos da minha perspetiva, Slimani terá sido, ao longo da história do Sporting, o avançado menos talentoso que mais soube exponenciar o seu potencial. Aquele cuja aptidão natural menos fazia antever uma carreira de sucesso.

Tudo graças a uma capacidade de trabalho que, muito provavelmente, explicará uma venda por 20 milhões de euros de um jogador adquirido por pouco mais de 300 mil, há apenas três anos atrás.

 

A diferença entre os trajetos opostos de Vukcevic e de Slimani remonta-nos, pois, à frase de Luís Figo que invoquei no início deste artigo.

 

O primeiro foi abençoado com um talento que o segundo nunca teve e nunca terá.

 

Mas a diferença fundamental que separa carreiras tão brutalmente contrastantes nunca residiu aí – no “fator talento“.  A diferença residiu, sim, na capacidade de trabalho, no espírito de sacrifício e na perseverança. Foram esses os ingredientes que explicaram o caminho árduo que Slimani trilhou até se tornar no incrível ponta-de-lança que é hoje.

 

Ao longo da sua carreira, Slimani lutou muito mais do que Vukcevic. Correu muito mais do que Vukcevic. Acreditou muito mais do que Vukcevic.

 

E, por isso mesmo, segundo se diz, o Leicester, líder do campeonato inglês, está agora no encalço do argelino.

 

O talentoso montenegrino, esse, espalha o perfume do seu futebol no Enosis Neon Paralimni, equipa recém promovida ao primeiro escalão do campeonato do Chipre…

Vasco Rocha

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