January 22, 2020

Uíge, 10 de Fevereiro de 2017. Jornada inaugural do campeonato de futebol angolano, o Girabola ZAP. O clube anfitrião, o Santa Rita de Cássia, estreia-se no primeiro escalão do campeonato dois anos depois da sua criação. O estádio 4 de Janeiro (data comemorativa do Massacre da Baixa de Cassange)* estava abarrotado de populares daquela província do norte de Angola, vindos para encorajar a equipa local e ver as estrelas de uma das melhores equipas do país, o Libolo. Até aí, tudo normal.

 

 

O problema é que o fervor popular pela subida da equipa à primeira divisão movimentou uma massa popular bem superior à capacidade do estádio. Com ou sem bilhete, centenas de pessoas tentaram entrar no pequeno estádio já cheio, e com capacidade para apenas 5000. O resultado não se fez esperar: gerou-se um tumulto imenso, no meio do qual, entre tentativas das forças da ordem de conter a multidão e da mesma de entrar no recinto, muitas pessoas acabaram no chão, pisadas, asfixiadas. Balanço: 17 mortos e mais de 60 pessoas conduzidas ao hospital, 5 dos quais em estado grave.

 

 

Imensas manifestações de solidariedade e de pesar chegaram de todos os cantos imagináveis (a tragédia do Chapecoense ainda está em todas as mentes), e apesar de Angola não ser um país tão mediático como o Brasil, a Liga Espanhola decretou um minuto de silêncio nos jogos da 22ª jornada em memória das vítimas, e Sérgio Ramos exprimiu a sua solidariedade com as famílias das vítimas nas redes sociais.

 

 

As autoridades competentes da Federação Angolana de Futebol tinham realizado uma vistoria ao estádio dias antes, visto tratar-se de um recém chegado à Primeira Divisão, e deixou recomendações para que o estádio acolhesse nas melhores condições os jogos do Girabola ZAP. Entre as quais constava a necessidade de “alterar a abertura dos portões principais e garantir a segurança através de efectivos da Polícia Nacional”.O Governo angolano mandatou uma investigação rigorosa para se apurar as causas de tamanha tragédia. Mas até que a mesma seja concluída, não se pode senão lamentar tal ocorrência, e esperar que no futuro, tudo seja feito para que a segurança dos adeptos não possa ser posta em causa, e o futebol não volte a pagar um tão pesado tributo em vidas humanas.

 


*Massacre da Baixa de Cassange: a 4 de Janeiro de 1961 colonos portugueses reprimiram cerca de 20 mil camponeses angolanos, naquilo que ficou na história como o Massacre da Baixa de Cassanje, território localizado entre as províncias de Malanje e da Lunda Norte. A efeméride é assinalada no país como uma data de celebração nacional, considerada Dia dos Mártires da Repressão Colonial.

 

Ricardo Glenn Baptista

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