January 22, 2020

A nossa Liga viveu no dia 14 deste mês mais um triste episódio num estádio. Neste caso foi no D. Afonso Henriques mas podia ter sido noutro estádio qualquer. Em Guimarães houve confrontos entre a polícia e adeptos locais, levando inclusivamente à interrupção do jogo. Muito se falou das causas, das vítimas e dos culpados. Mas ninguém se questionou sobre o efeito social que este tipo de situações causa (ou será que é ao contrário e este tipo de situações é que são um efeito social?).

 

Na Sociologia há um fenómeno chamado catarse social. Nunca se questionaram porque é que pessoas de todos os quadrantes da sociedade, todos os extractos sociais, todo o tipo de profissões, sem olhar a idades, sexo ou religião, se comportam, dentro de um intervalo de maior ou menor intensidade, da mesma forma em eventos de grandes massas (aqui falamos do estádio, mas podia ser uma manifestação, um concerto, etc.)? Este efeito, muito estudado depois do auge do fenómeno hooligan no Reino Unido, na década de 70 e 80, leva-nos a pensar sobre o papel do futebol na sociedade e o seu contributo para o desenvolvimento regional, nacional e internacional.

 

Qual é o papel do futebol na sociedade?

Não é só um papel económico (nem vale a pena falar da reacção da sociedade aos valores pagos a jogadores e treinadores, e valores de transferências do futebol actual). Não é só um contributo científico nas mais diversas áreas desde a psicologia à informática, passando pela medicina. O futebol tem, acima de tudo, um papel social. A exposição mediática é evidente, mas o que muita gente não vê é o papel dos clubes locais junto das suas populações, clubes que, sem dinheiro, elevam a heróis e ídolos jovens e adultos de base local. Trabalhando em conjunto com os comerciantes e as empresas das suas zonas para, em conjunto, se autopromoverem. Isto é o valor social dos clubes, das centenas de clubes que existem em cada canto deste pequeno país. O profissionalismo está longe de existir, mas o contributo (à sua devida escala), é demasiado importante para relegarmos o papel social do futebol a confrontos entre polícia e adeptos na nossa liga profissional.

 

Depois de toda a discussão é este o meu apelo. Não olhem apenas para o futebol de topo. Olhem para o futebol de bairro, o futebol de base, o futebol da vossa localidade. Vejam o bem que este futebol, com todos os seus defeitos, traz às comunidades e esqueçam estes fenómenos de catarse social que esporadicamente se verificam. Porque o futebol é muito mais do que profissionalismo. Para muitos – pais, filhos, pessoas da terra – é o seu porto de abrigo, é o seu mundo e, muitas vezes, é o único espaço onde de facto têm um sentimento de pertença, algo que todos nós, cada um à sua maneira, não dispensamos seja qual for o nosso hobbie ou ocupação.

 

Aproveitem e, pelo menos uma vez esta época, apareçam no clube da vossa zona e para além de apoiarem, compreendam a importância que estes pequenos/médios clubes têm para tanta gente.

 

Mauro Saraiva

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